09 janeiro 2021

Rio de Janeiro

uma memória que me absorve e afundo até ela deitado num colchão de ar: as costas na madeira da cama e o universo acima de mim na grande nuvem de Magalhães como teto do quarto em que se desenhasse em sonho. E um esquecimento nietzschiano, esportista, sovasse as pilhas de romances em minha mesa como intuição ou presságio da escrita que virá: com meu próprio livro leio o memorial que erige e faz desvanecer a cidade em obras, o hipertexto imagem e letras. Camburi está cheia de máquinas acesas da vitória marcial dos homens, e a experiência da vida durante a noite escava uma última coisa ponto lugar depois do hiato. A literatura é profunda como um mar, mesmo poluído com pó e ferro, silêncio e cartelas de antialérgico: tempo domar: O amor que desfaz o nó do código da oração na qual todos os caminhos levarão à linguagem do labirinto de uma insuspeita roma, ascendente de todas as cidades. 

 

Estou quieto, com a noite negra do futuro e a peste estranha de um tempo. Minhas mãos sem carinho, minha boca de lábios secos e meu caderno de última página reciclada chegaram ao fim de semana. E o tecido leve do romantismo com vírgulas sobrevoou igual nuvem no afterglow rendido, insuperável como um poema, até que anoiteceu. Agora é esse o ponto, que dói fundo e sutil no escuro das canções, no quereres do desencontro, na dor aguda e quando espalha na doideira lúcida os planos dos pequenos kafkas no mundo do trabalho: e agora mais ainda por dentro de si a noite tem tudo perto, perto demais para não ser longe.  

 

Antonio dava play no The Police Every Breath You Take quando parou. Era mesmo ela, mesmo carro branco em frenagem, também, um paralelo do retrovisor. Aline parecia tirar dos braços um tecido, desses de mulher por nos ombros. Every single day quase reta da penha a fila andou, Aline ficou uns cinco metros atrás até vir novamente, parar ao lado. Os olhos imersos no trânsito e os gestos amplos para o viva voz atrás do volante mostravam sua regência protegida pelo ar condicionado. Antonio olhou por trás do seu outro vidro película negra, disperso da própria máscara azul escuro como quem terá um rosto de cavaleiro inexistente e medieval que não dialoga com a guitarra concisa e timbrada da música de 1983, a elegância do Sting etc. Mas o destino é um perfume num tecido fino: atravessava real e tempo, material e vivo como consequência dele, Antonio, ter escapado mais cedo da agência, às 17:00: a caminho do jogo de sinuca com os amigos no bar do Adamastor depois de anos sem aparecer. A música acabou, vem outra no spotify, I have stood here before inside the pouring rain: O olhar de ensaio sobre ela num roubo irreal, do impossível sorriso de Aline agora ornava a herança do homem na borda da tarde, surdo à sua voz rouca e com um canto próprio Ω Ela vinha dentro dele no vazio do peito como se nessa dor dali em diante ele voltasse inteiro nela dentro de sua voz que era o seu corpo e mais dentro de suas palavras que eram sua despedida, o que ela lhe dera numa gravação rápida, whatsapp então tchau. O sinal abriu e Antonio acelerou com a tropa de motoristas; o celular é só trilha sonora dos novos versos nada a ver com a rudeza dos homens ombro a ombro tangidos (ê,boi) na cidade. 

 

Da minha varanda a rua é o Rio de Cimento onde foram recapeados os blocos hexagonais do antigo mundo. De noroeste vem o vento, a memória dessa sexta-feira 11 de dezembro de 2020 impregna meu rosto e desvanece orvalho em meu cabelo quando afaga os novos fios de prata, luar que me olha bem dentro dos olhos. Noite que é respiração de um outro no mundo. Meu cabelo dilacerado acrescenta à rua algo tátil para a rajada fria inócua na história dos ombros pitorescos de homem sem asas por dentro, espantalho aquém da nuvem de astros, sem dormir ou sonhar que é vivo e andante ou que lê no celular as notícias de um antídoto, uma lei segura, um flit paralisante,

 

 

 


07 setembro 2020

anacronismo

acordo no quarto

e desde o inverno campeio o mundo

ornado como um deus

tomo sol na praça do cauê


do norte ecoa o som valvulado 

do dodge charger de meu pai


lá do futuro em sopro 

no outeiro vermelho se foi


.

venho em sonho

até ser desperto 


e apreendo a música de longe 

perto de mim escuto a tarde aprendo música nas coisas exatas

até perder a hora de morrer


livre como um lagarto

tomo sol na pedra bruta

que parece miniatura do pão de açúcar


.


desenho o carro

enquanto meu rosto descarna de si

o caleidoscópio de tantas idades me espera

passar pelo tempo do dia

este silêncio que é ser homem


a voz no meu canto é do campanário 

de uma única cidade que tange o mundo


e o inventa e o polui 


.


acendo as luzes 

nas imensidades da sala 

estão as festas que se apagaram 

e ando sozinho pela casa vazia de todos


no sonho de um mortal

reconheço em meu caminho

o real de sua arquitetura


que decifraria minha idade

se também em sonho meu corpo não fosse o de hoje


.



escolho palavras de um colóquio 

para minhas vozes de sublimar o vento 


as palavras únicas são as do poeta 

com seu uso da vida


o amor o sonho a perda o mundo

um mundo já está dito


porque as palavras tem mesmo nas mentiras 

uma música veraz 


.



espero o dia concluso

do nome entregue ao algoritmo 

e o resto é silêncio impossível 


olho a planície da avenida

na releitura das cartas ao mar

com as centenas de cantos perdidos


mas outro de um tempo

acendo o cosmo de pixels na cabeceira

mais do sampler que da arcádia 

e acordo aqui


.











29 julho 2020

amargem

canto a vagação do rio
mas a insuspeita música

o tempo não passa
já inexistido
como um sol acima da clave à margem
e o sonho dos homens em mim que os sou
terceira memória

tenho medo que a noite apague
e o escuro seja meu peito apenas
vasto homem lírico vórtice que translada
com o silêncio  da terra

e minhas palavras
resultaram pífias 
                               vírgulas 
                                             vozes polifônicas
gárgulas  
          medusas    noites        discos de orgasmo

e a coluna dórica e o promontório onírico em pó
fez-se névoa na praia 
                             conhas 
                    corais 
            litanias


as distopias impossíveis ao que crê

a citação 
              lúcida voz rouca 
        vírgula paulo 
                            é 
                 em minha carne
                               a boca 
                                   que lambe 
                          o sal   da terra
                                     o quan
                                     to aqui
                   com o sol impuro sem cura
no conhecimento 
                     dos es tatutos
                         desde meus ancestrais
       tenho vontade de partir
                             mas não
                                    sei  por onde


    venho cedo 

  estou 

       atrasado       para    a arenga  
                                     dos poetas 
                             no sol del etado p elo pixel contínuo 
                                                  em presente
                        e também 
                              da mesa 
                                     dos burgueses meu terno se apaga

com  o olhar  bonito
                      de um 
                    doutor givago omar sharif 
                                   agora explicava
                              como quem se greda 
                                         à uma classe de jovens                       o   fun cio namento preté rito e per feito 
                                                                                                          da cintilação 
                                                                                             solar
                                       sobre nossas vidas 
                           despedaçadas 
                                      pelo 

16 junho 2020

pés

acima as estrelas vem mortas de amar
e meus passos no chão da cozinha pra beber água

descarnam do sonho pisam a terra 
enquanto pego no filtro som oásis miragem mágoa

e sinto o real seixo madeira terra em mim
nos gestos e o riso no corpo de 4 da matina

é a nuca da musa sem rosto que apaga assim
e ando até a varanda num gole sou máquina

a rua sonha o cálculo do mundo à esquerda uns trinta graus 
e é como alucinação que os homens tem sem asas

quando olho os ombros dos prédios na direção do ventre
por onde à noite volto a exausta voz canto de trabalho

e passo dentro do carro a björk sem beijo techno love
e o thom o ritmo o novo é york o velho mundo da peste

tempo tempo tempo tempo sou plágio maduro above
tão sagrada a chuva é uma carta nua de amor que leste

quando olho até que ela se desvanece e dorme
e se vai curada de mim para dentro da escuridão 

abaixo dos pés a cerâmica o pó da terra informe
uma lucidez ama a pedra solta no espaço no chão

16 abril 2019

O carro

Ele dorme com lábios de pedra e a expressão de um homem que foi ao desmonte do mundo. Cabelo barba sem corte. Travesseiro de pluma voz rouca da memória as costas magras asas de um sonho largo nos ombros. O suor do corpo exausto da claustrofobia do dia anterior, da escrita do real.

De manhã o frentista do posto avisara, pneu furado é um parafuso tipo bitola 8mm, e a vista-velha no ray-ban negro que aparecera em seu rallye desde o posto 5 cortando a orla fez espremer os olhos. Decidido, trocou o pneu com a chuva nas costas, essa brisa que deixou nele palavras afônicas. E mais tarde no happye-hour, com os amigos que restam, estava mudo. Reescrevia na cabeça uma dedicatória e o presente de Julia a levaria como se fosse uma carta.

No outro dia sorveu a manhã com chá de gengibre. Ele já sabia que a voz iria acabar de vez no meio de alguma aula na qual desempenaria o aço de uma análise machadiana para uma classe absorta no celular ou na investigação sobre seu brinco indolente prata sob o cabelo desgrenhado calvo shampoo anticaspa e citação em francês da aluna sobre a politonalidade, changez tout não é professor? Sim, o contrabaixo noutro tom. -- No carro, depois, à toda na ponte, o vão central com aquele som do Otto bateu numa saudade de Julia, saudade de todo dia. Só que pior. 

Changez tout pour toi te lever no mundo que apaga sobre os livros abajur cabeceira sem camisa os olhos lentos óculos de perto e a janela fechada o vencimento do cartão entre a estante virtual dois Luiz Ruffato um Joca Reiners Terron um Michel Laub um Rubem Mauro Machado e quatro João Gilberto Noll. Apaga-se o dia, o papo reto prumo venal dos homens no bar inofensivo; seu carro e a lenda do Dodge Charger de seu pai, ainda carburado; sua alma de homem seu corpo de palavras pensadas, e sua voz impublicável distraída pra morte saindo do carro para a calçada, até ultrapassar chegar vir ao nome, que importa mais a chuva?, tinha uma vaga em frente e dessa vez não pensou duas vezes.  

Ele sonha que entra pelo prédio de Julia e sobe até a cobertura, onde a avista na beira da piscina. Rodeada por amigos para os quais ela orna um descontraído Aperol, gesto e sorriso alças finas de mulher. A mania de morder um pouco o lábio inferior que ele carrega para o sono também molha um pouco a pedra que o faz escultura perdida anônima planta noturna homem que pensa how to disappear completely nessa madrugada sem paz no antigo neandertal em silêncio até acordar com as costas suadas. 

Vim pela angústia de saber que tinha sonhado, depois do alinhamento eletrônico na oficina a avenida não acabava mais até que estacionei o carro tinha vaga bem em frente e chovia leve devastadoramente o elevador demorava o big bang e subi pelas escadas mesmo como se fosse atleta lembrava na hora daquela vez que estávamos de carro já quase noite e as nuvens um vestido roxo até que choveu forte sobre a cidade quando abri depressa a porta vermelha tinha um pessoal entrando no elevador que me olhou de relance e eu acho que demorei um pouco ali e não sabia muito o que estava fazendo não pensei num texto não pensei bem no Aperol que era amargo ou doce isso foi ontem

05 janeiro 2019

Ponte

201.

“Only our hearts, know how much love is there”
Paul McCartney


Sal que o trânsito nervoso rescende. Suor, pós-meio-dia, no posto Moby Dick com a bolsa cheia de papéis e uma garrafa de alumínio azul na lateral, e as contas molhadas por causa da chuva, as que estavam na mão junto com o livro, e clicando o streaming do Jeff Beck best of beck se lembrava, correndo pro Uber, debaixo da chuva carinho leve, que nunca fumou maconha na universidade. 

O motorista Kevin nome real surfa pela ponte na Play List The Police every break you take em dezembro e a belíssima canção da tarde agora vai descer do meio-dia demônio do eu com o poema do REM quando everybody hurts, no que o professor comenta; Mas Kevin, essa tua playlist tá mesmo fodástica; Tem que ser, Professor. Lá fora o mundo pode acabar que aqui tem ar condicionado e rock. E vem alive o Pearl Jam do lado de cá do vidro, e a aula sobre multiculturalismo acampa no tempo da cabeça do Professor, o hipocampo desguarnecido que a memória também habita, edita na face do homem-linguagem a lembrança dos alunos querendo nota pra passar de ano esquecendo vírgulas Erínias pústulas de uma mitologia que não se esquece num gosto de sol numa cidade estrangeira, Milton. É música junto com artes visuais, Professor? Sim Henrique, igual no seu celular. Afinal o Grafite é arte ou crime? Silêncio, classe.

Muitos azuis refratam granulados pelo vidro; essa multidão é um homem e lembra do engenho no muro da acrópole pixada com uma vulva em três riscos doces e um ponto numa foto. A consciência é uma voz no mural da história da Arte pelo copy and past do trabalho sobre Basquiat, e o vidro com insulfilme tem um corte do real que não cicatriza nem com chá de aroeira. Olha, daqui a cidade é alta, Professor. É mesmo, Kevin. O professor cogita o logos, reexiste enquanto Kevin fala da Play List; e na rádio-cabeça lembra daquela música, pensa em ligar para A sem saber o que dizer além da saudade de sua voz rouca e do ciúme de sua viagem até Roma. Olha a vista negra de película pro lado direito, o do oceano encantado de saudades de uma outra vida inexistida. Homem alado de cá do mundo.

Descendente do meio-dia a ponte é um In Rainbow de concreto e Kevin dirige rápido e brinca que foi Pinóquio quem disse que seja rico seja pobre o velhinho sempre vem. É dezembro, Kevin rs. O professor puxou a garrafa azul e bebeu um gole dágua com medo que o trânsito na ponte parasse e a angústia no peito da tarde fosse como uma asma no claustro do mundo bom enquanto Kevin contava que conseguiu ir com a namorada no show do Radiohead no Rio:, mas quando chegou lá, uma tal amiga da moça, uma que antes sempre tava sorrindo de repente fechou o tempo na balada, e ele teve que chamar o deixa disso, sair de cena mais pra geral. Eu já não entendo minha mulher agora tenho que não entender as amigas dela também, cara. Silêncio no carro. Na cabeça do professor o inteiro se parte na dor central da história um vão do sentimento fora de si. O ridículo da vida. Todas as coisas faladas para a turma do terceiro ano sobre a Nova Yorque década de 1970 e os recados de SAMO e as bandas de rock e o tempo adicto e a porrada da polícia e a avareza das galerias e a música no início de tudo e o quadril da Madonna e o Jazz de Dizzy Gillespie e o gênio de Miles.. tudo envelhecia no cenho do homem qual fechamento de pautas e a solidão de acreditar que daria tempo. 

A verdadeira solidão é a da fé, ela nos modifica o deserto. 100 Km/h: Acreditava que não ficaria preso no trânsito, o tempo avaro chegava ao vão do intervalo das aulas nas férias e lembrava de sua moral e cívica dos homens vitoriosos olhando o mar; ele mesmo fora um dia aluno do primário à pós-graduação num contínuo de moer cérebro organizar o cérebro dividir os lugares das perguntas como são os supostos lugares do cérebro como uma bolsa organizada e o plágio no desejo das pessoas escrevendo dissertações e teses cada vez mais uma deep web de si. Devaneava livre no corpo que voa por sobre o oceano os pelos das pernas por baixo do jeans velho da Levi’s, mais à Mulher que à Musa era um homem duro em seu súbito planalto, e se sentia nos braços tenros de A, e o volteio dos seus pela cintura que a fazia silhueta no vestido de abrir da Cantão, quando ela chegava o rosto perto do seu, e passando as mãos em seu cabelo, um vagar para trás das entradas do tempo de sua calvície de homem comum, e olhava bem em seus olhos, perfume exalado, mais como quem encontrava a mulher que para ele existisse do que quem o procurasse para dirimir o desejo num erro possível de aperceber, classificar. Professor, ali na Praça do Cauê pode estar engarrafado. Segue em frente, Kevin, vou te aplicar uma Play List também, Groove Armada, Massive Attack, Zero 7; Quem? É rock? Também. Então escuta The Cult, uma chamada American Horse. Essa eu conheço, Professor. 

Quem sabe um dia uma MPB; hehe isso acabou, Professor rs 

Depois do pedágio pago, o calor que aproxima o verão está como aquele filme lá fora, lá, outro lado do vidro o Baile Perfumado com Lenine e guitarra no Cinema Estação há eras, o Cinema de Retomada de Pernambuco, o Guimarães da diplomacia à literatura, o Radamés em sonho com o Guinga encordoado, o Chico maior do mundo e o Caetano genial antes de todos, e o Debussy no caminho de Tom Jobim quis pousar não deu voou, a matéria está dada.. A matéria vem de lá numa viola caipira até o Led Zeppelin e a viola amarantina e o Nelson Cavaquinho submundo do samba, e o ponto final o resumo desse samba em João Gilberto; Enfim Kevin..; Meu irmão também foi pra América, Professor.. o sr dá aula de quê? Tô pensando, pra viver em Vitória a gente tem



21 dezembro 2018

Vão central

200.

Pés sobre o piso e o vento na cara; o ar é pó de ferro é pau é pedra e peso uma coisa densa viscosa uma gosma pesada. Os pés quietos apertam comprimem dentro do All Star cinza Converse; vira pro lado sem querer ouvir a dona gorducha reclamar do tempo nublado no buzu, e o vento vista do mar quase de mentira e acima do pavor dos homens o suor gelado de Vanderlei em silêncio pro fundo do oceano pressão baixa e o peito sem ar como uma parada cardiomilitar, é quase vão central da ponte. Vanderlei é claustrofóbico e escuta a conversa das duas moças poltronas da frente cabeletas voando na sua cara de jovem homem quarenta e tantos na cabeça; além da avizinhada senhora que o espreme, simpática maledicente dos tempos; alfazema que se abalroa no ar com o Giovanna Baby de uma das duas personagens Netflix: o Mauro agora não manda mensagem; Ah, não..?; Não, o cheio de estória, acha que é; ...O gostosão..?; Você que tá dizendo por mim pó..; ...Amanda eu tô dizendo o que você...que esse otário gosta de fazer de gostosão. Sem saber quem é Mauro, Vanderlei escuta e o gelo da pressão baixa vira o caos com vista pro mar na solidão pretérita década 90 da Marina compositor Alvin L e uma Copacabana distante Toneleiros com fone de ouvido agora pra distrair da morte quando o ônibus freia com singeleza pausa de semibreve: é o trânsito, na descida, e a queda do diário da tarde martela um prego o sol de dezembro no resto do vento sul; balança o metal contra as nuvens e vem a legião urbana celular altivo da geral no aberto e dona Esperança diz que está atrasada e que não tem como nem espreguiçar a perna com bursite se for o caso de alguém tentar se matar hoje; mas não é isso, Vanderlei arrisca; Acho que já vai andar, foi o Gol 1.0 que.. É só o trânsito; engarrafamente pra si mesmo e muda de refrão no ai-Phone de ouvido Thom Yorque 50 tons, Kid A o caralho é melhor que tentar rádio universitária com algum desses artistas locais, Argh, lá, longe, um navio.. Vanderlei se concentra pra não vomitar letra complicada logo na primeira música como se voasse pássarodasqui desvanecido na gaiola até ser fóbico; gelo, dos braços, e pernas, vem, de lá, até o vão do peito, dela, queimar gasolina na ponte; lá; e seu perfume barato melhor imitação que tem do Boss exala do corte da camiseta Hering negra uma vaidade black tie antiga; o suor da estiva de ser homem no presente, que segundo São Bergson o passado impregna; isso é todo dia. Agora é devagar até o Cauê e achar aplicativo e baixar o Foro que pode, escutar podcast com a notícia que tudo acabou 

16 dezembro 2018

ἀκρόπολις

153.

Completa, a manhã acende e a mudez das nuvens acima da praia vem sobre os homens; uma falta desprega do cúmulo altivo ou sonho, quando o Poema cai granulaheidegger a nuvem distraída pra morte remix, por fim a chuva lava e acelero. Paro no posto pra recarregar encher o saco de ossos enfiar o tempo do oxigênio e os pneus inflam a motoneta com vaidades abissais outra era de poemas quando deslizam pela cidade o seco de borracha Pirelli até gastar na água; na poça o caminho que fica faltando nela. 

04 junho 2017

Der Erbe


Hoje é aniversário do meu pai. É um domingo calmo e a alvorada acendeu. Os pássaros e os carros despertaram, o som deles esvai longe do dó, ou si, ao sol como que de um outro tempo. Em meu escritório viajo nesse outro que convive, transijo também outra coisa do que fui, campeio o meu próprio campo, essa incógnita, esse terreno ermo que no final talvez me leve a um rio. – uma vez, andando pelo terreno em Chácara Parreiral nós estávamos, eu e meu pai, sob uma tarde de sol ainda alto que nos esmagava contra o chão árido, embora o dorso do parreiral em metáfora ou encantamento parecesse sonhar por nós um capítulo de livro. Ele me explicou que aquele rio que margeia o imenso terreno (que ele havia comprado há pouco tempo), antes fora de tal modo diverso em quase mesma topografia. E que por vezes ele e meu avô por ali estiveram, bem onde estávamos, onde a terra começava a descampar até a água, e tudo era um pouco diferente, um outro lugar.

05 abril 2017

Princípio

O dia amanheceu. Estou acordado desde três e meia, quando o despertador me arrancou do sono para o remédio. Estou no pouco da náusea. Não a sartreana, mas do antibiótico. O efeito desse tempo acordado em que pensei tanta maldade.

Não que fosse uma maldade minha. Pior que isso, da vida que se avizinha e é nossa em nossos atos. A luz do dia não tem dissimulações. O mal estar oferecido pela alopatia faz parte da melhora ignara que trará meu peito sedimentado pelo catarro ao ato esportista na esteira da praia de outono. Na clínica Santa Paula, a Dra Camila avisou que poderia ser um princípio de pneumonia e eu dessa vez me resignei, estou seguindo o tratamento.


Escrevo este recado para que você veja a cena, leitor. Estou sentado no sofá, ao lado do abajur desligado. O livro de Arte Moderna do Argan está no braço largo e deserto que me separa dos novos indexados rumos da arte contemporânea e visto meu moleton preto, descalço, com uma camiseta onde vai escrito I’m ready I’m ready I’m ready. Escute também os ônibus da avenida (chamo de avenida) e o contraponto dos pássaros nas árvores, é uma orquestra. Violoncelos e flautas. Um grande silêncio parece ter vindo.

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