29 novembro 2005

Admirável Mundo Novo de Darlan, Luci e Ariel

#1 As lojas de departamento ou as que se proliferam clonadas poderiam ser objeto de estudo de um desses TCC, trabalho de conclusão de curso, do pessoal do marketing (mas o marketing é um lugar sem desejo). (a) A gente compra o CD na Laser do Shopping Norte Sul, Jardim Camburi, chega em casa e abre: O encarte parece que foi feito ali na esquina, Marisa Monte está desfocada, as cifras acima das letras também. (b) Depois, o CD de Maria Rita comprado nas Lojas Americanas do Shopping Vitória veio todo amassado dentro do plástico que o lacrava, além do álbum estar com um preço de capa 36,90 e ser cobrado outro 39,90 no caixa. Claro que tudo isso é constatado depois. (c) E para trocar? Ah, o sistema não permite.

No auto-falante insuportável, a moça chamava por Darlan, Luci e Ariel; chamava-os de associados. Antes, pelo que eu sei, os trabalhadores, conhecidos como empregados, eram elevados à colaboradores. A perversão agora aumentou, viraram associados.

A moça do auto-falante das Lojas Americanas também falava para nós tomarmos cuidado, carregando bolsas e carteiras sempre fechadas; com voz pausada, articulava: “Afinal... uma bolsa aberta... é um convite ao furto...”... inacreditável, mas real.

Faltou apenas a valsa num compasso ternário, mas a anestesia desses lugares vem do caos. Isso Aldous Huxley não imaginou.

28 novembro 2005

Nikita

#1 É sempre ótimo rever o original de Nikita - 1990, de Luc Bresson, antes de mergulhar na série hollywoodiana. Esta, uma refilmagem do filme francês, feita por John Badham (A Assassina, 1993).

A versão nova, La Femme Nikita, baseada no original francês, tem uma trilha bonita:, Hednoize; Morphine; Morcheeba e o excelente Depeche Mode, mas a diferença do olhar é clara. Com a trama à frente do filme, a versão americana dá um passo na direção dos best selers da tv fechada. A loira do filme, sem a delicadeza de uma Anne Parillaud, tem mais intimidade com a pistola do que com a personagem. O sucesso de algumas séries parece ser a ausência de uma sensualidade sofisticada, assim como foi sofisticada a leitura de Luc Bresson de uma Nikita, criada para matar de prazer. A Nikita paga por assinatura não é histérica; não cansa do salto alto; não se assusta com a arma que usa tão bem; não sabe o que não fazer; não chora; não mata. Não é doce. Tio Sam prefere mulheres sem gosto.

#2 Terminei o arrebatador De fato e de ficçãoEnsaios contra a corrente, do Gore Vidal. Aliás, vi um filme chamado Gattaca, em que ele trabalha como ator. ...

23 novembro 2005

Severina Vuckovic

#1 Texto ótimo do Pedro Dória, sobre privacidade: “O filmete tem onze minutos de sexo explícito. A câmera não se move, não há zoom, está fincada num tripé ou apoiada num móvel. O casal está ofegante. Não há gritinhos; no máximo, murmúrios. A moça é estonteantemente bonita: uma morena de cabelos chanel, lábios espessos – às vezes, faz caretas que quase lembram dor, mas não são de dor. É uma estrela pop na Croácia, Severina Vuckovic, tem 32 anos. Em todas as imagens do filme pessoal gravado num quarto de hotel, o mais evidente é aquilo que nunca há em filmes pornográficos: um sorriso terno. Carinho assim, tão íntimo, desconcerta, não é para ser público. Mas não há buraco de fechadura ou risco de flagrante na indiscrição: o filme feito para consumo próprio caiu na rede. Nunca mais será apagado. A intimidade de Severina é pública. A privacidade dela acabou.” ...

#2 José Dirceu: "Não temo nada, não peço nem clemência nem misericórdia. Quero um julgamento justo”... “Não sou réu confesso e eles não apresentaram provas contra mim.” --- Só pra lembrar.

#3 Voltei a ler o Excepcional livro de Gore Vidal, De fato e de ficção – Ensaios contra a corrente, Companhia das Letras, tradução de Heloisa Jahn. Estou na página 162, do texto intitulado Letras Francesas: Teorias do novo romance. Vale a pena.

22 novembro 2005

A Música Silenciosa de Peter Gast

#1 Estou organizando uma série de desenhos feitos de 1995 a 2005 para uma exposição; preciso scanear todos eles depois de descobrir seus nomes. Mas scanear onde, como, e com qual resolução? Será o colorário do meu le temps retrouvé. ...

#2 Encontrei o título do meu livro de contos, ou crônicas. Enfim, do meu crônico livro. ... Terminei o de poemas. Mais um pra via crucis. ...

#3 Resolvi ser, também, um esportista. Parei de tentar voltar a acreditar que voltarei à natação (uma sublimação que não voltará da adolescência). Logo que o ranço fétido do Vital é ser feliz for desarmado de Camburi, vou correr igual um desesperado, pensando no mercado editorial, e outras coisas. Sangue.

#4 “Os ombros suportam o mundo”, Carlos Drummond de Andrade.

#5 Acordei enquanto sonhava com uma música de Caetano Veloso. Parecia que eu andava pela Urca de noite, olhava a luz incendiária da Praia de Botafogo. Éramos jovens, eternos, perdidos na noite e de repente acordamos 10 anos depois.

21 novembro 2005

Le pont aux trois arches

#1 Quando li A Ponte dos Três Arcos, de Ismail Kadaré, estava lendo também o Leviatan, de Paul Auster e terminando o excelente Se Um Viajante Numa Noite de Inverno, de Ítalo Calvino. Impossível não notar a sofisticação do livro de Kadaré, depois de alguns dias envolvido na beleza do livro de Ítalo Calvino, o que fez o Leviatan (Leviathan) parecer óbvio, apesar de bom. Ocorreu de eu estar em Ipanema, entrar num sebo chamado Livros, Livros e Livros, Rua Visconde de Pirajá, 207 –loja 104, e por lá achar a ponte no original. Assim como no original achar o Dubliners. Como resolvi aprender francês sozinho, estou começando de livros que já li, e gostei.

#2 Li O Livro dos Sonhos, de Jack Kerouac, L&PM. Achei uma droga. Não me deu a impressão de ser pela tradução (de Milton Persson), nada disso. Achei o livro chato; mas vou até o On The Road. Estou lendo tudo que posso da coleção ótima da L± no caso da minha outra des/releitura dO Retrato de Dorian Gray a tradução (de José Eduardo Ribeiro Moretzsohn) me pareceu bem legal. Minha vontade é ler os 200 e tantos livros da coleção, que conta com pérolas como O Cortiço, Aluísio Azevedo; Billy The Kid, Pat Garret; Eu e Outras Poesias, Augusto dos Anjos; O Desejo Pego Pelo Rabo, Pablo Picasso; Os Escravos, Castro Alves; Sem plumas, Woody Allen; O Livro da Selva, Rudyard Kipling; Fragmentos, Caio Fernando Abreu; Paraísos Artificiais, Charles Baudelaire;...

#3 Descobri que pelo menos um dos meus livros é considerado raridade. O Itinerário de Pasárgada, de Manuel Bandeira, Editora do Autor, 3˚ Edição, exemplar n˚ 2741 com desenho de Carlos Scliar na capa. ...

13 novembro 2005

Papel de Carta

(...) por isto venho aqui, amarro minhas mãos, estendo abdominais. Passeio muda pelo teu quarto, mas quero falar, falar até cansar. Escuto você respirar em sustain, tua contenção estudada, cheia de erros. Outros eros minúsculos. Percebo quando você está prestes a me telefonar, pensando uma desculpa. Escuto, lastimo, te avacalho. Torço, esfrego batom na boca, chupo. Quando tudo passa a noite me concentra, esvai em sangue, remói com as tuas, perfeitas. Venho de longe e de perto, uma Lua crescente, luta em classes e estudantes burgueses passeando lentamente com a vida ganha até a Candelária... curtindo uma onda depois do boteco em plena quarta. Engato a marcha no carro, insegura. Ele dentro do trânsito e eu dentro dele; você dentro de mim, furioso sem arrefecer até que morre e eu finjo a morte. Puta. Espero sem calma, quando você é silêncio e barba por fazer. Finjo que sou apenas tua e me apresento impecável. Tento te escrever cartas que você rasgaria. Sei que você lembra de detalhes que eu me esqueci, vencida por uma memória comum. Atribuo às tuas facilidades essa coisa certeira nos olhos, no jeito de falar, a palavra que molha. Deito sem rosto quando o escuro me abraça, lança para o alto, me penetra. Olho a estante de peroba clara, onde não estão teus livros, nem antigos vinis. Estou enclausurada no teu labirinto que eu não decifro nem espero, e tua falta me faz o abismo. Você foi a escolha errada da minha vida, a gênese do meu pai. Mas só para mim, nada além disso. Nem encana, a culpa sou eu que não sei no porque esperar o que seja você naquilo que eu não. Sou eu, que vou repetindo o gerúndio gasto até fazer doer de novo, mas não com a dor que eu gosto, só de ser mulher. Não, essa dor é outra e acontece no suporte do insuportável, no âmago do amargo; nada tem com a que nós, todas, desejamos ter lá no fundo. Essa, você me dá, me entrega e depois tira, meu Hermes. Meu Smart Thief. Meu Peri. Meu Mito.

08 novembro 2005

Palavras Cretinas

Luciana Gorda sempre me irritou. Não por ser burra, nem mesmo idiota. Era a gordura dela que espremia contra o armário de notas tristes. Aquele sorriso. Nada como um sorriso quando se trabalha na administração de empresas. Sorrir num lugar desses é a marca da suportabilidade amena. Hoje em dia, quem não quer uma amenidade? Todos vêem o quanto um ser humano mente quando ele sorri num escritório; levanta jogando a bola pro colega e atravessa o meio campo sem a pasta vermelha até perto da janela pra futucar no ar condicionado: Território do Reinaldo Santo. Ar condicionado era com ele. Mexia até conseguir gelar o cu do chefe.

Esse vivia andando pelo pátio, destemperado contra o vento, metido num jeans que desbotava em cima do saco de tanto pegar. Ah... a coloquial masturbação dos chefes, pensando ganhar dinheiro enquanto a mais velhinha varre o corredor emporcalhado de óleo, Chiclete Adams, isqueiro Bic. Quando o chefe passava bufando, Dona Francisquinha continuava a sina de Sísifo no pós-moderno. Assim que a porta batia de volta, Reinaldo Santo levantava da mesa, deixava as últimas horas a destrinchar um Excel maldito, caminhava com passos curtos de animal acuado até o tufão emparedado, tirava-lhe o botão: engatilhava o bicho pra gelar a eternidade. Voltava com a cara inocente.

Um dia Luciana Gorda embuchou. É... recebeu injeção, embarrigou, duplicou de tamanho de repente. A visão do inferno. Apareceu dias depois convidando pro casamento, no qual aliás, o pároco evocou a castidade, a seriedade, o compromisso com a virgindade. Ela toda sorrisos. O noivo, magro com seus dentes, avaliava o agregado todo como um bando demente. Ela apareceu no escritório meses depois pra acertar contas. Vestida com roupa feita pra mulher com menos 40 kg, continuava sorrindo. Parecia ter esquecido que fomos ao casamento. Que flertamos com a fortuna ao encararmo-nos quase todos uns aos outros na mesa da recepção bebendo Fanta Laranja, comendo pastel de frango e depois entupindo palavras com torta salgada. Secretárias nunca se lembram de casamentos.

O lugar dela foi ocupado por Reinaldo Santo. Legitimada a poli position tudo aquietou-se no trampo. Trabalhar é morrer um pouco a cada dia. É um pouco pior que a escola, onde também existem idiotas por todo lado, porque o trabalho a gente não pode esperar que acabe. O tipo do lugar que se te pegam com um livro na mão, é vagabundagem. Que jeito? --- Parar de ler. A mágoa é perigosa: abracei a idéia como louco; com o passar dos anos, quis fazer com que todos temessem livros. Seduzi a parar de ler, e completamente. Peões e universitários são muito parecidos, afinal: a procura desesperada pelo boteco mais próximo e o horror aos livros. Eu estava em casa. Era meu estratagema.

Não que lessem algo, não. Referia-me aos jornais. Comecei a infiltrar no cenho dos viciados que a leitura dos jornais poderia ser nociva ao Método, ao Sistema. Perda de tempo e trabalho. A hard Skinner man. Foi quando me alicercei na Qualidade Total para sobreviver; bebendo Coke, tentando desesperadamente transformar colegas de trabalho em colaboradores. Uma aventura sem precedentes, lucífuga. Era hora de escolher palavras cretinas.

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