... Noir...
... da cultura.
... do remix de Rita Lee.
A solidão dos jovens descobrindo
a Lua...
... nos livros na América Latina.
Da iluminação a festa...
Uma solidão de quem não sabe dançar.
... das putas de Camburi.
... que não quer a libertação.
... do auditório de domingo.
O luar despe carros vaporados
sem delicadeza. Eles rasgam a praia, seu horizonte de ferro.
A buzina do navio petroleiro...
Solidão Noir...
quase respiração das ninfas analfabetas;
mesma solução no mix de produto dos marketeiros.
... nos livros de Hammet.
Da pobreza intelectual da sala de não fumantes:
a solidão dos homens que pensaram ser Hamlet.
20 maio 2005
16 maio 2005
Pescadores
(...)
Em volta da mesa de cortar peixe a vila dos pescadores é real. Do bar em que estou, vejo as copas das castanheiras dançarem. O vento que nunca parou arrasta tudo para o poente. Os peixes cortados entram no mundo simples da vila. Na praça onde está a mesa, uma placa impede novos estacionamentos: um E com um X em vermelho e abaixo dele a palavra Fim.
Pode-se dizer que este é o fim do livro. Observo de uma mesa de plástico branco. Olho meu carro estacionado a dois metros de mim. Do outro lado da praça, o fim.
O pivete veio importado de outros livros. Como se fosse um Negrinho do Pastoreio. Já nem ouve o barulho do mar, perene demais para não ser anônimo.
A mesa em que estou não é essa. Aliás, agora que notei que nem é de plástico! Esta mesa é de outro restaurante, quase-mexicano. Sei que estou lá e é noite de sexta, distante desta quarta-feira. Estou sonhado que estou na vila de pescadores; aqui a tarde começa a cair, a qualquer momento devo acordar.
Quarta-feira. Estou só como se já fosse pai. Lembro da música de Cazuza em que ele conclama alguém para ir “lado a lado como dois gigantes enfrentando os ônibus”. Diz também, “e o menino triste quer ser um herói, mesmo um herói triste”. Lembro da Constante Ramos, e da irremediavelmente eterna Copacabana.
Lembro também que a noite onde estou neste restaurante quase-mexicano não é de quarta-feira. É tudo mentira. Talvez seja a noite desse dia que ainda não aconteceu. Se eu não acordar daqui a pouco, terei uma noite completamente desconhecida pela frente, igual a todas as demais que virão pelo resto da vida e que provavelmente me será cobrada em dobro pelo tempo.
Por enquanto, ao ver esses pescadores, estou perdido. Sou sua eternidade também espelhada em ritos que se desmontam ou estraçalham com esquecimentos dispersos e juntos a um bairro internacional: o azul do céu parece estar por sobre o descampado bruto que vai da Prado Junior à Rainha Elisabeth. Copacabana me engana que eu gosto. Nasci dentro dela num anonimato de palavras e músicas que vão apagando aos poucos na memória, deixando o peito nu.
Volto os olhos à vila, ao mar barrento e camaleônico da vila de pescadores que nunca acordasse, tão só, sem esperança, pedaço, magma, verdade. O vento frio e Sul que corta num rasgo o Nordeste que nunca parou de soprar ferrugem.
Em volta da mesa de cortar peixe a vila dos pescadores é real. Do bar em que estou, vejo as copas das castanheiras dançarem. O vento que nunca parou arrasta tudo para o poente. Os peixes cortados entram no mundo simples da vila. Na praça onde está a mesa, uma placa impede novos estacionamentos: um E com um X em vermelho e abaixo dele a palavra Fim.
Pode-se dizer que este é o fim do livro. Observo de uma mesa de plástico branco. Olho meu carro estacionado a dois metros de mim. Do outro lado da praça, o fim.
O pivete veio importado de outros livros. Como se fosse um Negrinho do Pastoreio. Já nem ouve o barulho do mar, perene demais para não ser anônimo.
A mesa em que estou não é essa. Aliás, agora que notei que nem é de plástico! Esta mesa é de outro restaurante, quase-mexicano. Sei que estou lá e é noite de sexta, distante desta quarta-feira. Estou sonhado que estou na vila de pescadores; aqui a tarde começa a cair, a qualquer momento devo acordar.
Quarta-feira. Estou só como se já fosse pai. Lembro da música de Cazuza em que ele conclama alguém para ir “lado a lado como dois gigantes enfrentando os ônibus”. Diz também, “e o menino triste quer ser um herói, mesmo um herói triste”. Lembro da Constante Ramos, e da irremediavelmente eterna Copacabana.
Lembro também que a noite onde estou neste restaurante quase-mexicano não é de quarta-feira. É tudo mentira. Talvez seja a noite desse dia que ainda não aconteceu. Se eu não acordar daqui a pouco, terei uma noite completamente desconhecida pela frente, igual a todas as demais que virão pelo resto da vida e que provavelmente me será cobrada em dobro pelo tempo.
Por enquanto, ao ver esses pescadores, estou perdido. Sou sua eternidade também espelhada em ritos que se desmontam ou estraçalham com esquecimentos dispersos e juntos a um bairro internacional: o azul do céu parece estar por sobre o descampado bruto que vai da Prado Junior à Rainha Elisabeth. Copacabana me engana que eu gosto. Nasci dentro dela num anonimato de palavras e músicas que vão apagando aos poucos na memória, deixando o peito nu.
Volto os olhos à vila, ao mar barrento e camaleônico da vila de pescadores que nunca acordasse, tão só, sem esperança, pedaço, magma, verdade. O vento frio e Sul que corta num rasgo o Nordeste que nunca parou de soprar ferrugem.
13 maio 2005
Corrente...
Recebi essa corrente da Isabel, e estou passando adiante. Para todos os aficcionados, apaixonados por livros. Tem até aquela da ilha deserta, ótima.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A Bíblia.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
O primeiro foi “O Gordo”, personagem de um livro chamado [O Gênio do Crime], de João Carlos Marinho Silva, leitura da 5º série. Sempre detestei a escola, mas esse livro valeu a pena. Também tem o narrador do [Trópico de Capricórnio], do Henry Miller, que abre o livro com o petardo: “Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos.” Li metade do livro na livraria Estação Botafogo, e o resto em casa. O barulho da Voluntários da Pátria me trouxe de volta ao Real.
Qual foi o último livro que compraste?
Dicionário do Folclore Brasileiro, do Luís da Câmara Cascudo, Edições de Ouro, de 1954, num sebo, e que era de um tal Antônio Inácio de Méllo, a quem serei sempre grato. Ainda não consegui ler muito, o pó dos dois livros me dá uma alergia ferrada.
Qual o último livro que leste?
[O Som e o Sentido], do José Miguel Wisnik; Cia das Letras. Explêndido, culto, magnífico.
Que livros estás a ler?
[Libertinagem], [Carnaval], [Estrela da Manhã], Manuel Bandeira; [As Elegias de Duino], Rainer Maria Rilke; [Poesias], Dante Milano; [A Condição Pós-Moderna], Jean-François Lyotard; [Investigações Filosóficas], Ludwig Wittgenstein.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
O Finnegans Wake; uma Bíblia; a biografia do Joyce escrita pelo Richard Ellman; O Tratado de Harmonia, de Schoemberg; um HQ de Milo Manara, bem urbano e vivo.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Paulo Bicarato, Nemo Nox, Fábio Sampaio, pela inventividade, inteligência, cultura, bom gosto.
Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
A Bíblia.
Já alguma vez ficaste apanhadinho(a) por um personagem de ficção?
O primeiro foi “O Gordo”, personagem de um livro chamado [O Gênio do Crime], de João Carlos Marinho Silva, leitura da 5º série. Sempre detestei a escola, mas esse livro valeu a pena. Também tem o narrador do [Trópico de Capricórnio], do Henry Miller, que abre o livro com o petardo: “Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos.” Li metade do livro na livraria Estação Botafogo, e o resto em casa. O barulho da Voluntários da Pátria me trouxe de volta ao Real.
Qual foi o último livro que compraste?
Dicionário do Folclore Brasileiro, do Luís da Câmara Cascudo, Edições de Ouro, de 1954, num sebo, e que era de um tal Antônio Inácio de Méllo, a quem serei sempre grato. Ainda não consegui ler muito, o pó dos dois livros me dá uma alergia ferrada.
Qual o último livro que leste?
[O Som e o Sentido], do José Miguel Wisnik; Cia das Letras. Explêndido, culto, magnífico.
Que livros estás a ler?
[Libertinagem], [Carnaval], [Estrela da Manhã], Manuel Bandeira; [As Elegias de Duino], Rainer Maria Rilke; [Poesias], Dante Milano; [A Condição Pós-Moderna], Jean-François Lyotard; [Investigações Filosóficas], Ludwig Wittgenstein.
Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
O Finnegans Wake; uma Bíblia; a biografia do Joyce escrita pelo Richard Ellman; O Tratado de Harmonia, de Schoemberg; um HQ de Milo Manara, bem urbano e vivo.
A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Paulo Bicarato, Nemo Nox, Fábio Sampaio, pela inventividade, inteligência, cultura, bom gosto.
04 maio 2005
Azul
Impenetrável
A palavra é clara
Sua lógica permanece mutável.
Há um silêncio devastador
Nos fonemas sem tragédia.
Seu significado à outra lavra.
É cor e, quase palavra
- ela é cara,
Impraticável.
A palavra é clara
Sua lógica permanece mutável.
Há um silêncio devastador
Nos fonemas sem tragédia.
Seu significado à outra lavra.
É cor e, quase palavra
- ela é cara,
Impraticável.
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