07 setembro 2020

anacronismo

acordo no quarto

e desde o inverno campeio o mundo

ornado como um deus

tomo sol na praça do cauê


do norte ecoa o som valvulado 

do dodge charger de meu pai


lá do futuro em sopro 

no outeiro vermelho se foi


.

venho em sonho

até ser desperto 


e apreendo a música de longe 

perto de mim escuto a tarde aprendo música nas coisas exatas

até perder a hora de morrer


livre como um lagarto

tomo sol na pedra bruta

que parece miniatura do pão de açúcar


.


desenho o carro

enquanto meu rosto descarna de si

o caleidoscópio de tantas idades me espera

passar pelo tempo do dia

este silêncio que é ser homem


a voz no meu canto é do campanário 

de uma única cidade que tange o mundo


e o inventa e o polui 


.


acendo as luzes 

nas imensidades da sala 

estão as festas que se apagaram 

e ando sozinho pela casa vazia de todos


no sonho de um mortal

reconheço em meu caminho

o real de sua arquitetura


que decifraria minha idade

se também em sonho meu corpo não fosse o de hoje


.



escolho palavras de um colóquio 

para minhas vozes de sublimar o vento 


as palavras únicas são as do poeta 

com seu uso da vida


o amor o sonho a perda o mundo

um mundo já está dito


porque as palavras tem mesmo nas mentiras 

uma música veraz 


.



espero o dia concluso

do nome entregue ao algoritmo 

e o resto é silêncio impossível 


olho a planície da avenida

na releitura das cartas ao mar

com as centenas de cantos perdidos


mas outro de um tempo

acendo o cosmo de pixels na cabeceira

mais do sampler que da arcádia 

e acordo aqui


.











,.