29 julho 2020

amargem

canto a vagação do rio
mas a insuspeita música

o tempo não passa
já inexistido
como um sol acima da clave à margem
e o sonho dos homens em mim que os sou
terceira memória

tenho medo que a noite apague
e o escuro seja meu peito apenas
vasto homem lírico vórtice que translada
com o silêncio  da terra

e minhas palavras
resultaram pífias 
                               vírgulas 
                                             vozes polifônicas
gárgulas  
          medusas    noites        discos de orgasmo

e a coluna dórica e o promontório onírico em pó
fez-se névoa na praia 
                             conhas 
                    corais 
            litanias


as distopias impossíveis ao que crê

a citação 
              lúcida voz rouca 
        vírgula paulo 
                            é 
                 em minha carne
                               a boca 
                                   que lambe 
                          o sal   da terra
                                     o quan
                                     to aqui
                   com o sol impuro sem cura
no conhecimento 
                     dos es tatutos
                         desde meus ancestrais
       tenho vontade de partir
                             mas não
                                    sei  por onde


    venho cedo 

  estou 

       atrasado       para    a arenga  
                                     dos poetas 
                             no sol del etado p elo pixel contínuo 
                                                  em presente
                        e também 
                              da mesa 
                                     dos burgueses meu terno se apaga

com  o olhar  bonito
                      de um 
                    doutor givago omar sharif 
                                   agora explicava
                              como quem se greda 
                                         à uma classe de jovens                       o   fun cio namento preté rito e per feito 
                                                                                                          da cintilação 
                                                                                             solar
                                       sobre nossas vidas 
                           despedaçadas 
                                      pelo 

16 junho 2020

pés

acima as estrelas vem mortas de amar
e meus passos no chão da cozinha pra beber água

descarnam do sonho pisam a terra 
enquanto pego no filtro som oásis miragem mágoa

e sinto o real seixo madeira terra em mim
nos gestos e o riso no corpo de 4 da matina

é a nuca da musa sem rosto que apaga assim
e ando até a varanda num gole sou máquina

a rua sonha o cálculo do mundo à esquerda uns trinta graus 
e é como alucinação que os homens tem sem asas

quando olho os ombros dos prédios na direção do ventre
por onde à noite volto a exausta voz canto de trabalho

e passo dentro do carro a björk sem beijo techno love
e o thom o ritmo o novo é york o velho mundo da peste

tempo tempo tempo tempo sou plágio maduro above
tão sagrada a chuva é uma carta nua de amor que leste

quando olho até que ela se desvanece e dorme
e se vai curada de mim para dentro da escuridão 

abaixo dos pés a cerâmica o pó da terra informe
uma lucidez ama a pedra solta no espaço no chão

16 abril 2019

O carro

Ele dorme com lábios de pedra e a expressão de um homem que foi ao desmonte do mundo. Cabelo barba sem corte. Travesseiro de pluma voz rouca da memória as costas magras asas de um sonho largo nos ombros. O suor do corpo exausto da claustrofobia do dia anterior, da escrita do real.

De manhã o frentista do posto avisara, pneu furado é um parafuso tipo bitola 8mm, e a vista-velha no ray-ban negro que aparecera em seu rallye desde o posto 5 cortando a orla fez espremer os olhos. Decidido, trocou o pneu com a chuva nas costas, essa brisa que deixou nele palavras afônicas. E mais tarde no happye-hour, com os amigos que restam, estava mudo. Reescrevia na cabeça uma dedicatória e o presente de Julia a levaria como se fosse uma carta.

No outro dia sorveu a manhã com chá de gengibre. Ele já sabia que a voz iria acabar de vez no meio de alguma aula na qual desempenaria o aço de uma análise machadiana para uma classe absorta no celular ou na investigação sobre seu brinco indolente prata sob o cabelo desgrenhado calvo shampoo anticaspa e citação em francês da aluna sobre a politonalidade, changez tout não é professor? Sim, o contrabaixo noutro tom. -- No carro, depois, à toda na ponte, o vão central com aquele som do Otto bateu numa saudade de Julia, saudade de todo dia. Só que pior. 

Changez tout pour toi te lever no mundo que apaga sobre os livros abajur cabeceira sem camisa os olhos lentos óculos de perto e a janela fechada o vencimento do cartão entre a estante virtual dois Luiz Ruffato um Joca Reiners Terron um Michel Laub um Rubem Mauro Machado e quatro João Gilberto Noll. Apaga-se o dia, o papo reto prumo venal dos homens no bar inofensivo; seu carro e a lenda do Dodge Charger de seu pai, ainda carburado; sua alma de homem seu corpo de palavras pensadas, e sua voz impublicável distraída pra morte saindo do carro para a calçada, até ultrapassar chegar vir ao nome, que importa mais a chuva?, tinha uma vaga em frente e dessa vez não pensou duas vezes.  

Ele sonha que entra pelo prédio de Julia e sobe até a cobertura, onde a avista na beira da piscina. Rodeada por amigos para os quais ela orna um descontraído Aperol, gesto e sorriso alças finas de mulher. A mania de morder um pouco o lábio inferior que ele carrega para o sono também molha um pouco a pedra que o faz escultura perdida anônima planta noturna homem que pensa how to disappear completely nessa madrugada sem paz no antigo neandertal em silêncio até acordar com as costas suadas. 

Vim pela angústia de saber que tinha sonhado, depois do alinhamento eletrônico na oficina a avenida não acabava mais até que estacionei o carro tinha vaga bem em frente e chovia leve devastadoramente o elevador demorava o big bang e subi pelas escadas mesmo como se fosse atleta lembrava na hora daquela vez que estávamos de carro já quase noite e as nuvens um vestido roxo até que choveu forte sobre a cidade quando abri depressa a porta vermelha tinha um pessoal entrando no elevador que me olhou de relance e eu acho que demorei um pouco ali e não sabia muito o que estava fazendo não pensei num texto não pensei bem no Aperol que era amargo ou doce isso foi ontem

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