06 agosto 2014

Alfa Romeo


A realidade é um lodo, pântano ou areia movediça. O real é inimaginável e impossível. É onde todas as coisas sucumbem.

Lá fora homens e mulheres estão continuando a civilização. É o trânsito que engarrafa a estratégia delivery dos comerciantes, o que debaixo do sol posto  ao meio dia também será esmagado.

Escrever o mundo é ser um Guriatã. É inventá-lo (o mundo) e absorver o real impossível de ser executado. A lucidez nos queda, de amenidade em amenidade, tudo da maior importância. E a vida segue. Era isso.

Na espera dessa entrega, vivemos. Uma coisa, outra e mais aquela. As horas, as tardes passam; seco o vento sul recorta a boca, e o Gaturamo Verdadeiro arremeda: canta, canta mais. Espera-se desesperando das academias, dos carros, das quintas-feiras, da razão tôla da mpb neopagã de gênios velozes. Do que se sabe, vem em nós, e por cada um deles nos chegará.

02 julho 2014

Língua


Quando é noite assim, vôo um pouco mais qual teu vento brejeiro e desconfio o alagado da nuvem. Sem cura varro as ruas tal onda transparente em transe no jorro, esse agreste no empirismo geométrico dos quarteirões que vieram da praia como passos do Titan egresso do atlântico a caminhar pelo continente até onde estou; e pedalo a bicicleta preto fosco, mais veloz, deixando para traz meu agigantado alter ego super eu homem lego, sumindo em mim na escuridão.

Se caminho pelo bairro respiro as estrelas, não as vejo além da iluminação banal das residências. Num passo firme vou pelos retângulos onde brotaram prédios que a classe média resolvida usa no fechamento de sacadas, e a noite para mim é silêncio, é música. Celular. Radiohead scatterbrain, Caetano deusa urbana, Massive Attack everywhen ou teardrop. Tua estrela me vem, assim tímida e única boca, teu gosto que a paixão indômita sabe e lembra que esta és, e estás.

Teu doce aquela tarde, teu beijo, tua voz. Desta és. E no transe disfarçado do obsessivo voando no vento o pássaro de asas translúcidas vaza no lirismo soprado pelos corredores de ruas; entre os prédios as janelas que escondem do meu bobo romanceiro impopular a paz mediana que a televisão padroeira estende sobre um país que não foi descoberto. Eu sei que je es’t on autre. No sonho digo e peço ao teu ouvido, e te escuto pequeno choro velado, e rir também, e ordeno declinações safadas em tua leitura daquele dicionário de latin com palavras obscenas, tenras, seminua e de bruços, enquanto finjo que compreendo o que desejo.

03 maio 2014

carta de roma


enquanto trocam de cenário, para a cena em que me revolto contra a paz, escrevo. é meu peito romanesco o liame ante a derrisão súbita, a norteadora adscrição às minhas próprias palavras para lhe acarinhar numa saudade sob a água na qual começo a ser lavado enquanto lhe escrevo uma carta de roma.

essa chuva sutil, brisa em minha língua e logo lava do vendaval que eriça tua nuvem como um bico de seio no céu. você vê que a chuva molhou todos os meus papéis. continuo escrevendo, no entrecenários, enquanto os contra-regras passam por mim, e carregam lanças, escudos, promontórios de gesso; puxam cavalos ou orientam imperadores substitutos e algumas dançarinas de dioniso com as quais contracenarei. seminuas, elas me olham obtusas. não lhe imaginam, mas sabem o quanto existes: porque tuas mãos em meu cabelo estão nos meus gestos, quando verifico a calva dos anos anódinos, e teu cabelo emaranhando o poente vence comigo a praia, desde minha juventude, quando fui motociclista. em minha voz, também estás, quando declino ou aceito o convite para o happye hour da nova trupe, no sarcarmo descolado da contemporary art, caras que não sabem o que significa um relógio de ponteiros no pulso esquerdo. por isso também, chapolim_oficial me acerta no peito, mas eu sobrevivo.

meu desolo que nunca secou por vc ter jogado na praia nossas fotografias é pó saudade; mútua, complexa, sem interpretações. o zero q vazará, várzea úmida. este amor, se alguém cantasse mais do que ninguém. esse, de tão sincero, mais que o silêncio e o grito, descrê uma época da inocência. é quando compreendo que te amo. porque de muitos longes diários da cidade observei tua silhueta, a pele clara de teus abraços de palavras com teus amigos, o senhor da banca de revista, amarildo, mesmo tuas amigas festivas do jogo de vôlei, os primos que lhe admiram, tua amiga silvia, que está feliz, tua irmã flora, pessoa fina, e que lhe é sensível. gente que pouco me sabe, menos ainda os tenho perto, mas cada qual para mim lhe evoca. distante, soprei meu carinho sobre eles, como fosse poeta, e se aparento um descolocado asperger soberbo em minha pouca retribuição aos que me são afetuosos, é por respeitar tua decisão de viajar para longe, assim de meu último bilhete, que não lhe encontrou em teu endereço; e também, confesso, pela causa da lança romana fincada em meu coração, quanto a quebre na ponta do marlboro cinzeiro bar, por sequer ter-me perguntado sobre minha encenação, na feira de variedades circences grotescas municipais, sim, há alguns anos, quando sonhara certo glamour, antes desse novo trabalho.

a chuva agora devasta, sonora. a morosa dor. volteei o bailado cego e som de nuvem na voz. mas longe vejo vir a civilização romana, e visto-me do paramento gaulês, escrevo estas linhas. o diretor conclama aos coadjuvantes, fecho meu moleskine e o celular para entrar nas guerras da gália: sei que não sou julio césar: sou um homem sem qualquer talento para a miopia, ao contrário, meus olhos lhe alcançam sem a minha permissão. (quando a lua tem um olhar triste, delineados olhos com lápis, sorridentes sem qualquer lembrança de mim, mesmo que haja nascente nítido reflexo do jorro de luz que eu lhe faço.)

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