02 julho 2014

Língua


Quando é noite assim, vôo um pouco mais qual teu vento brejeiro e desconfio o alagado da nuvem. Sem cura varro as ruas tal onda transparente em transe no jorro, esse agreste no empirismo geométrico dos quarteirões que vieram da praia como passos do Titan egresso do atlântico a caminhar pelo continente até onde estou; e pedalo a bicicleta preto fosco, mais veloz, deixando para traz meu agigantado alter ego super eu homem lego, sumindo em mim na escuridão.

Se caminho pelo bairro respiro as estrelas, não as vejo além da iluminação banal das residências. Num passo firme vou pelos retângulos onde brotaram prédios que a classe média resolvida usa no fechamento de sacadas, e a noite para mim é silêncio, é música. Celular. Radiohead scatterbrain, Caetano deusa urbana, Massive Attack everywhen ou teardrop. Tua estrela me vem, assim tímida e única boca, teu gosto que a paixão indômita sabe e lembra que esta és, e estás.

Teu doce aquela tarde, teu beijo, tua voz. Desta és. E no transe disfarçado do obsessivo voando no vento o pássaro de asas translúcidas vaza no lirismo soprado pelos corredores de ruas; entre os prédios as janelas que escondem do meu bobo romanceiro impopular a paz mediana que a televisão padroeira estende sobre um país que não foi descoberto. Eu sei que je es’t on autre. No sonho digo e peço ao teu ouvido, e te escuto pequeno choro velado, e rir também, e ordeno declinações safadas em tua leitura daquele dicionário de latin com palavras obscenas, tenras, seminua e de bruços, enquanto finjo que compreendo o que desejo.

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