18 fevereiro 2010

Facas

O mágico afia o sorriso, volta a cartola contra o abdome, despista os olhos azuis de Joana. Aperta com o pé esquerdo a ponta do botão: a moça que será cortada ao meio nesse momento deita lentamente e mostra ao advogado de terno cinza o contorno das coxas. Rubras flores vêm ao seu encontro, abertas, e tem perfume,.. quando despistam para o mágico a chave mestra da engenhoca que lhe cai à pragmática mão direita; ele a usa enfiada aos poucos e de lado, até forçar, numa mecânica previsível, pelo que a jovem grita. O instante de silêncio sofre na platéia e Joana também molha nas mãos de suor e curiosidade tímida, difícil. Então a moça se levanta e passeia incólume com a felicidade intumescida no semblante, até vir ao mágico novamente laçar o pescoço de seu dominador; ela sorri lépida enquanto a carnação brilha tesa, e esvaece na escuridão sob o pano.

09 fevereiro 2010

Vento

, primeira vez que passei na 3a ponte de moto, e ventava... na volta algo desprendeu no vão central, parecia uma placa amarela voando igual camisa jogada no vento que se pegasse um motociclista cortaria ao meio e o dia vasto, sem coração, trouxa e imaginário caía no real sem lenda intermunicipal, quando notei suas garras claras,.. era um imenso cabelo que desnovelava uma desescritura, gozo, declinação às desestórias no fim do mar, onde os navios pensam no por quê de nos saquearem, e continuam, surdos ao canto das sereias ardendo de dor pelos poetas num sacrifício de mentira enquanto gozam e depois. Esquecem,.. e seu esquecimento é também minha tarde em ventania aniquilada nos pelos dos braços quando a poeira vem cortando, mas depois no vento faz carinho passional, ... nesga da tarde-hoje quando a cidade é o presépio de merda e cal e sua derrisão sem cólera ensina anódinas gerações revolucionárias

08 fevereiro 2010

Bm

3
Flora, consultora da empreiteira Carvalhau Ltda, observa com olhar claro quando o trator arregaça o campanário e aterra a contrição do Galo. Depois fecha a janela de cortinas também claras, prossegue em sua palestra. Usa bota ponta fina e salta o degrau inoxidável enquanto uma calça de cambraia lhe trai a beleza da coxa. Tem a cintura bem feita e rara, e as costas de sonho macio sublevam o mundo objetivo das corporações. Os seios são palavras soltas em sutiãs blindados pela moda que desenfeita o cotidiano masculino.
2
Galos de terreiro conhecem o palmo certo, o inseto diário. Acertar inseto com o bico, não pensar. A bicada política, afeita ao fim. Reconheço esse um; campeiro de mosto agreste que agora comenta a tarde puída. Perdeu tudo quando a empreiteira começou a construção do condomínio. Fica por lá, andarilho e cisco entre bagulhos. Eleva penas pro ar.
1
Tem um galo que canta longe, perdido de tudo. É uma solidão aniquilada golpeando com insistência a tarde mesquinha. O solo baldio espera o sol caído em si descer, quando o escuro finalmente cobre tudo e todos sem alento, com sua parda definição.
4
O Narrador também contempla, respira o café copo de plástico no escritório, afere a conferência. A caraminhola no dedo aponta e indicador ao horizonte amarelo molhado que escapa e opõe o sol à B

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