14 dezembro 2007

Aconstrução

Escuto a sexta-feira, o início da tarde aceita o helicóptero. O Bem-te-vi pousa no fio de telefone, o aeroporto aceita o jato que aparenta segurança. A construção estagnada de um prédio em Jardim Camburi recomeçou; lá em cima o homem de azul e capacete amarelo martela. Acima de nós o céu sorriu de nossa decolagem. Aceitou-nos o ofício do sonho. Ícaro passa pela rua com duas latas de cera e um sorriso cheio de esperança, respira profundamente enquanto absorve a certeza do vôo do urubu. O rádio do vizinho vomita sobre ele o chão de hoje.

Poucos instantes, já não os observo. Contemplo em minha sala móveis de gerações diferentes. A escritura de todas as coisas esconde epifanias, esquinas, contudo as ondas sonoras graves nos atacam o corpo. A música dos outros nos espanca as vezes. Os pés de tênisAdidasretrô plantados no chão aceitam o silêncio da cerâmica; ouço passos na escada que intestina este prédio escrito; vejo a moça de vestido céu quando pisa descalça na varanda que existirá na construção além de mim, futuro cenário. E ela aceita meu vôo.

07 dezembro 2007

Heavy love

estou só Você está só Estamos todos sós E é sextafeira, circunspecta pornográfica As palavras cortadas por uma estocada O corte vermelho que a noite não fecha É crônica a respiração angustiada do desterro, mas de onde? Ser o estrangeiro e a imensidão de estrelas Tudo que era cinema e mentira, não existia de verdade mas nos convenceu O cerne do testamento do homem onde se escreveu seu nome A metalinguagem contemporânea torce o dorso; o decote sem personagem, sem história, sem talento..... sonho.... grito... suor.. chão.

29 novembro 2007

O personagem

(...)Passei semanas me perguntando onde estaria Tainá, e em que lugar eu poderia reencontrá-la, já que o curso de línguas não existia mais. Meus dias eram uma incógnita sem preço e de repente um flash de uma ou outra lembrança acontecia de passar pela minha cabeça, até que delineava lampejos de destino, a nova rota */Os homens não comentam o desejo obcecado por uma mulher/* Talvez você não lembre de meu cinema com ela, ou mesmo dela. Fico impressionado quando dizem que você tem boa memória, vou te dizer o que aconteceu: no momento em que saíamos do cinema e descíamos aquele único degrau que nos dá a calçada da Voluntários da Pátria, você estava na sala de espera do analista, naquele sobrado neoclássico do Jardim Botânico./. Aí foi o caos. A tarde caía, você a rasgava por dentro. Coisa de poeta, vida ganha. Acabou com meu programa. Começou a achar que nunca iria acontecer aquilo, que ela jamais iria ao meu apartamento. Você fumava um Marlboro sentado de pernas cruzadas, a Mata Atlântica molhava quando te chamaram com a voz suave, de semblante. Ao apagar o cigarro, olhando a voz que o tragava os olhos, você pensava que Tainá nunca subiria comigo ao oitavo andar do edifício e deixou cair sobre nós a noite do mês de setembro. Fiquei sem saber o que aconteceria!, ao largo disso algo me fazia ouvir suas palavras, lá... deitado no divã. Que fiasco! Um homem tão capaz... Inacreditável o que você fala naquele lugar.

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