01 janeiro 2015

silence

o fluxo do tempo não cessa o azul que é o céu, quando olha para cima e o orbe exato nos sustém todos. o dia é plástico e revigora na obstinada ilusão do calendário uma força sincera. meus olhos impregnam de realidade, estão opacos, mais que antes; e meus óculos de um grau se tornaram profetas de clarividente iluminação. eu seco aos poucos este caderno com palavras de risco e o corte de cada história a musa guardou no fim do mar, longe da imitação do canto do guriatã.

na agressiva academia o olimpo é exausto, e instalo meu problema sonoro. a interseção é uma questão para a vida. estou em ruínas depois do texto de douglas crimp, sou um museu de ossos modernistas de pedro nava. hoje estou mais velho. sou meu ancestral e também meu herdeiro.

a luz árida do sol à pino queimou meus braços gratuita e livre do meu afeto pelo verão. igual um steve macqueen dos carros e motos sinto em plena dante michelini o ponto nó de tensão que acende no ombro esquerdo e aos poucos alcança as pontas dos dedos. é no penúltimo sinal que me vem à janela o diretor enquanto troco o chemical brothers de swoon para escape velocity: vc tem que dirigir essa porsche com o semblante turvo, cansado, braço doendo por causa da pancada com o carro que vai ganhar a corrida...

é o momento que desperto no sinal verde e reinicio a reta imensa que se estende livro de john fante sobre mim no vinho da juventude. o texto em que disserto sobre os claustros palacianos do moderno e da contemporary art me vem num frame e lembro que sal sem carne(1975) é uma instalação concebida nos estados unidos e concretizada no brasil. antes de concluir meu artigo sinto a dor pousar em meu braço esquerdo igual sombra de palavras e gestos em segredada interseção numa dança de memórias e imaginações onde volto ao sul, com meu desejo, meu temor de jamais acordar desse sal

12 dezembro 2014

Unravel

E eu espero, como quem campeia o súbito ar infesto no céu, quando da janela jorro os olhos para os cúmulos exatos. A fúria dos homens me embrenha na lavra em que se extirpa do pensamento um memorial de vencimentos ao mesmo que do corpo nascem a falta de palavras: uma dor, um dizer em comentário, a contorção vocal dos bons dias no bombo fofo do peito, no entre-café que me leva qual peça requintada e odiada na esteira fordista até o inferno de minha mesa. Quinta-feira, ontem teve o joguinho com tira gosto e a cabeça do chefe rolou no boteco do pião de trecho, e na varanda fechada do coleguinha de escritório que chegou com a camisa do mengão pra comemorar o salário astrofísico que ele não ganha; o fluxo de caixa que afunda o Brasil pouco a pouco escangalha também com o início do quase-fim da semana, onde a pilha de procedimentos espera lançando mão de uma caneta bic para ticar a lista de verificação. Nessa altura, recostei na poltrona giratória com minha primeira dose de cafeína paga pelas responsabilidades da administração, e suspiro lentamente enquanto o computador Windows liga... se ao passar por vales da sombra da morte estendo o corpo e me arremeto o tórax posto sobre os demônios, a xícara de café recende espectral um sonho, qual pretencioso caminho de Swann que de minha última leitura respiro levemente.

Lá o fora vai lépido e fácil de ver para nuncas mais num plural que o erro da língua esvaece na mistura que as nuvens fazem quando se entram e separam, forçam o corpo e recuam esquecidas da pétrea ordenação do dia, se é que para sua lassidão coexistem dias. É por um acúmulo de cautelas que as venezianas são fechadas com sutileza e necessidade de que o sol, em seu ato mesmo de ser de si uma iluminação não venha a desviar o fluxo do escritório com sombreamento pouco convencional. Desde o pátio caiado de concreto, por onde caminhei resoluto ao adentrar nas imediações da empresa que me proponho também erigir, visei com o lince dos olhos minha própria janela arregaçada pela veneziana toda para o lado, como uma valisére aberta que me esperasse a chegada, na sutileza que o sexo da manhã faz ao sol da promessa uma espécie de motivo para os homens. Quando Musa és, manhã, faço-me do inglório o hérmes no que te roubo, mais adjetivo que substância nesse dia,  herói que é o ladrão a lhe ensinar palavras entrecortadas, se tua paisagem vinga na dor de existir quando teus braços em minhas costas fecham que não sei minha boca para onde dirijo meu reino, no qual estás palavra. É nessa mira que subo a primeira danação de escadas que me levará ao andar azul, onde também primeiros cumprimentos e meneios de cabeça introduzirão civilidades freestyle sob o entorno de fórmica pelo qual se vê a releitura da releitura de Kandinsky acontecer pela mão do cindicato de artistas plásticos, e dependurar na parede lateral um pouco da essência do mundo corporativo. Passo por esse estrume e admoestando no pensamento uma auto-ajuda secreta sigo na esteira produtiva do corredor até passar pelo vácuo da sala de reuniões, onde mais tarde me empenharei em orquestrar uma saga, arrancar valsa de uma polca. São Machado de Assis me vem em instantes, ao meu pleno desentendimento, eu que sou iconoclasta. Ao chegar em minha sala, a janela aberta está lá, e me espera do fora cáustico que me absorve fastasmo e livre quando me sei homem comum, qualquer um. Que a vida seja desencontrar-se, meu Peter Gast vaga em minha irrisória arregimentação consultando a agenda enquanto meu café começa a espalhar pela sala uma delicadeza, uma sorte que não existiu. Sei, por essa tela que a janela concentra, a imagem que me olha e atravessa meus segredos vislumbra minha incólume figura a denunciar uma reta que acende ao ponto do alvo que a quinta-feira apresenta; as armaduras vocais com as quais me ative antes de descer da motocicleta no pátio agora estão prontas, e na ponta da minha língua as considerações iniciais pelas quais se abre o dia para matar o próximo como a si mesmo. Essa imagem que me estuda e vem do céu aniquilado de nuvens magras com pouco sonho, que passeiam mansas viajando com a lentidão da vida besta dos vizinhos de ladeamento, agora percebo, me escreve também. Como quem me odeia e espera e sabe do meu amor. Seu olhar inclassificado me estuda e sabe, antes de qualquer retribuição.

06 agosto 2014

Alfa Romeo


A realidade é um lodo, pântano ou areia movediça. O real é inimaginável e impossível. É onde todas as coisas sucumbem.

Lá fora homens e mulheres estão continuando a civilização. É o trânsito que engarrafa a estratégia delivery dos comerciantes, o que debaixo do sol posto  ao meio dia também será esmagado.

Escrever o mundo é ser um Guriatã. É inventá-lo (o mundo) e absorver o real impossível de ser executado. A lucidez nos queda, de amenidade em amenidade, tudo da maior importância. E a vida segue. Era isso.

Na espera dessa entrega, vivemos. Uma coisa, outra e mais aquela. As horas, as tardes passam; seco o vento sul recorta a boca, e o Gaturamo Verdadeiro arremeda: canta, canta mais. Espera-se desesperando das academias, dos carros, das quintas-feiras, da razão tôla da mpb neopagã de gênios velozes. Do que se sabe, vem em nós, e por cada um deles nos chegará.

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