E eu espero, como quem
campeia o súbito ar infesto no céu, quando da janela jorro os olhos para os
cúmulos exatos. A fúria dos homens me embrenha na lavra em que se extirpa do
pensamento um memorial de vencimentos ao mesmo que do corpo nascem a falta de
palavras: uma dor, um dizer em comentário, a contorção vocal dos bons dias no
bombo fofo do peito, no entre-café que me leva qual peça requintada e odiada na
esteira fordista até o inferno de minha mesa. Quinta-feira, ontem teve o
joguinho com tira gosto e a cabeça do chefe rolou no boteco do pião de trecho,
e na varanda fechada do coleguinha de escritório que chegou com a camisa do
mengão pra comemorar o salário astrofísico que ele não ganha; o fluxo de caixa
que afunda o Brasil pouco a pouco escangalha também com o início do quase-fim
da semana, onde a pilha de procedimentos espera lançando mão de uma caneta bic
para ticar a lista de verificação. Nessa altura, recostei na poltrona giratória
com minha primeira dose de cafeína paga pelas responsabilidades da
administração, e suspiro lentamente enquanto o computador Windows liga... se ao
passar por vales da sombra da morte estendo o corpo e me arremeto o tórax posto sobre
os demônios, a xícara de café recende espectral um sonho, qual pretencioso
caminho de Swann que de minha última leitura respiro levemente.
Lá o fora vai lépido e
fácil de ver para nuncas mais num plural que o erro da língua esvaece na
mistura que as nuvens fazem quando se entram e separam, forçam o corpo e recuam
esquecidas da pétrea ordenação do dia, se é que para sua lassidão coexistem
dias. É por um acúmulo de cautelas que as venezianas são fechadas com sutileza
e necessidade de que o sol, em seu ato mesmo de ser de si uma iluminação não
venha a desviar o fluxo do escritório com sombreamento pouco convencional.
Desde o pátio caiado de concreto, por onde caminhei resoluto ao adentrar nas
imediações da empresa que me proponho também erigir, visei com o lince dos
olhos minha própria janela arregaçada pela veneziana toda para o lado, como uma
valisére aberta que me esperasse a chegada, na sutileza que o sexo da manhã faz
ao sol da promessa uma espécie de motivo para os homens. Quando Musa és, manhã, faço-me do inglório o hérmes no que te roubo,
mais adjetivo que substância nesse dia, herói que é o ladrão a lhe ensinar palavras
entrecortadas, se tua paisagem vinga na dor de existir quando teus braços em
minhas costas fecham que não sei minha boca para onde dirijo meu reino, no qual
estás palavra. É nessa mira que subo a primeira danação de escadas que me
levará ao andar azul, onde também primeiros cumprimentos e meneios de cabeça
introduzirão civilidades freestyle sob o entorno de fórmica pelo qual se vê a
releitura da releitura de Kandinsky acontecer pela mão do cindicato de artistas
plásticos, e dependurar na parede lateral um pouco da essência do mundo
corporativo. Passo por esse estrume e admoestando no pensamento uma auto-ajuda
secreta sigo na esteira produtiva do corredor até passar pelo vácuo da sala de
reuniões, onde mais tarde me empenharei em orquestrar uma saga, arrancar valsa
de uma polca. São Machado de Assis me vem em instantes, ao meu pleno
desentendimento, eu que sou iconoclasta. Ao chegar em minha sala, a janela
aberta está lá, e me espera do fora cáustico que me absorve fastasmo e livre quando
me sei homem comum, qualquer um. Que a vida seja desencontrar-se, meu Peter
Gast vaga em minha irrisória arregimentação consultando a agenda enquanto meu
café começa a espalhar pela sala uma delicadeza, uma sorte que não existiu. Sei,
por essa tela que a janela concentra, a imagem que me olha e atravessa meus
segredos vislumbra minha incólume figura a denunciar uma reta que acende ao
ponto do alvo que a quinta-feira apresenta; as armaduras vocais com as quais me
ative antes de descer da motocicleta no pátio agora estão prontas, e na ponta
da minha língua as considerações iniciais pelas quais se abre o dia para matar
o próximo como a si mesmo. Essa imagem que me estuda e vem do céu aniquilado de
nuvens magras com pouco sonho, que passeiam mansas viajando com a lentidão da
vida besta dos vizinhos de ladeamento, agora percebo, me escreve também. Como
quem me odeia e espera e sabe do meu amor. Seu olhar inclassificado me estuda e
sabe, antes de qualquer retribuição.