12 dezembro 2014

Unravel

E eu espero, como quem campeia o súbito ar infesto no céu, quando da janela jorro os olhos para os cúmulos exatos. A fúria dos homens me embrenha na lavra em que se extirpa do pensamento um memorial de vencimentos ao mesmo que do corpo nascem a falta de palavras: uma dor, um dizer em comentário, a contorção vocal dos bons dias no bombo fofo do peito, no entre-café que me leva qual peça requintada e odiada na esteira fordista até o inferno de minha mesa. Quinta-feira, ontem teve o joguinho com tira gosto e a cabeça do chefe rolou no boteco do pião de trecho, e na varanda fechada do coleguinha de escritório que chegou com a camisa do mengão pra comemorar o salário astrofísico que ele não ganha; o fluxo de caixa que afunda o Brasil pouco a pouco escangalha também com o início do quase-fim da semana, onde a pilha de procedimentos espera lançando mão de uma caneta bic para ticar a lista de verificação. Nessa altura, recostei na poltrona giratória com minha primeira dose de cafeína paga pelas responsabilidades da administração, e suspiro lentamente enquanto o computador Windows liga... se ao passar por vales da sombra da morte estendo o corpo e me arremeto o tórax posto sobre os demônios, a xícara de café recende espectral um sonho, qual pretencioso caminho de Swann que de minha última leitura respiro levemente.

Lá o fora vai lépido e fácil de ver para nuncas mais num plural que o erro da língua esvaece na mistura que as nuvens fazem quando se entram e separam, forçam o corpo e recuam esquecidas da pétrea ordenação do dia, se é que para sua lassidão coexistem dias. É por um acúmulo de cautelas que as venezianas são fechadas com sutileza e necessidade de que o sol, em seu ato mesmo de ser de si uma iluminação não venha a desviar o fluxo do escritório com sombreamento pouco convencional. Desde o pátio caiado de concreto, por onde caminhei resoluto ao adentrar nas imediações da empresa que me proponho também erigir, visei com o lince dos olhos minha própria janela arregaçada pela veneziana toda para o lado, como uma valisére aberta que me esperasse a chegada, na sutileza que o sexo da manhã faz ao sol da promessa uma espécie de motivo para os homens. Quando Musa és, manhã, faço-me do inglório o hérmes no que te roubo, mais adjetivo que substância nesse dia,  herói que é o ladrão a lhe ensinar palavras entrecortadas, se tua paisagem vinga na dor de existir quando teus braços em minhas costas fecham que não sei minha boca para onde dirijo meu reino, no qual estás palavra. É nessa mira que subo a primeira danação de escadas que me levará ao andar azul, onde também primeiros cumprimentos e meneios de cabeça introduzirão civilidades freestyle sob o entorno de fórmica pelo qual se vê a releitura da releitura de Kandinsky acontecer pela mão do cindicato de artistas plásticos, e dependurar na parede lateral um pouco da essência do mundo corporativo. Passo por esse estrume e admoestando no pensamento uma auto-ajuda secreta sigo na esteira produtiva do corredor até passar pelo vácuo da sala de reuniões, onde mais tarde me empenharei em orquestrar uma saga, arrancar valsa de uma polca. São Machado de Assis me vem em instantes, ao meu pleno desentendimento, eu que sou iconoclasta. Ao chegar em minha sala, a janela aberta está lá, e me espera do fora cáustico que me absorve fastasmo e livre quando me sei homem comum, qualquer um. Que a vida seja desencontrar-se, meu Peter Gast vaga em minha irrisória arregimentação consultando a agenda enquanto meu café começa a espalhar pela sala uma delicadeza, uma sorte que não existiu. Sei, por essa tela que a janela concentra, a imagem que me olha e atravessa meus segredos vislumbra minha incólume figura a denunciar uma reta que acende ao ponto do alvo que a quinta-feira apresenta; as armaduras vocais com as quais me ative antes de descer da motocicleta no pátio agora estão prontas, e na ponta da minha língua as considerações iniciais pelas quais se abre o dia para matar o próximo como a si mesmo. Essa imagem que me estuda e vem do céu aniquilado de nuvens magras com pouco sonho, que passeiam mansas viajando com a lentidão da vida besta dos vizinhos de ladeamento, agora percebo, me escreve também. Como quem me odeia e espera e sabe do meu amor. Seu olhar inclassificado me estuda e sabe, antes de qualquer retribuição.

06 agosto 2014

Alfa Romeo


A realidade é um lodo, pântano ou areia movediça. O real é inimaginável e impossível. É onde todas as coisas sucumbem.

Lá fora homens e mulheres estão continuando a civilização. É o trânsito que engarrafa a estratégia delivery dos comerciantes, o que debaixo do sol posto  ao meio dia também será esmagado.

Escrever o mundo é ser um Guriatã. É inventá-lo (o mundo) e absorver o real impossível de ser executado. A lucidez nos queda, de amenidade em amenidade, tudo da maior importância. E a vida segue. Era isso.

Na espera dessa entrega, vivemos. Uma coisa, outra e mais aquela. As horas, as tardes passam; seco o vento sul recorta a boca, e o Gaturamo Verdadeiro arremeda: canta, canta mais. Espera-se desesperando das academias, dos carros, das quintas-feiras, da razão tôla da mpb neopagã de gênios velozes. Do que se sabe, vem em nós, e por cada um deles nos chegará.

02 julho 2014

Língua


Quando é noite assim, vôo um pouco mais qual teu vento brejeiro e desconfio o alagado da nuvem. Sem cura varro as ruas tal onda transparente em transe no jorro, esse agreste no empirismo geométrico dos quarteirões que vieram da praia como passos do Titan egresso do atlântico a caminhar pelo continente até onde estou; e pedalo a bicicleta preto fosco, mais veloz, deixando para traz meu agigantado alter ego super eu homem lego, sumindo em mim na escuridão.

Se caminho pelo bairro respiro as estrelas, não as vejo além da iluminação banal das residências. Num passo firme vou pelos retângulos onde brotaram prédios que a classe média resolvida usa no fechamento de sacadas, e a noite para mim é silêncio, é música. Celular. Radiohead scatterbrain, Caetano deusa urbana, Massive Attack everywhen ou teardrop. Tua estrela me vem, assim tímida e única boca, teu gosto que a paixão indômita sabe e lembra que esta és, e estás.

Teu doce aquela tarde, teu beijo, tua voz. Desta és. E no transe disfarçado do obsessivo voando no vento o pássaro de asas translúcidas vaza no lirismo soprado pelos corredores de ruas; entre os prédios as janelas que escondem do meu bobo romanceiro impopular a paz mediana que a televisão padroeira estende sobre um país que não foi descoberto. Eu sei que je es’t on autre. No sonho digo e peço ao teu ouvido, e te escuto pequeno choro velado, e rir também, e ordeno declinações safadas em tua leitura daquele dicionário de latin com palavras obscenas, tenras, seminua e de bruços, enquanto finjo que compreendo o que desejo.

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