09 fevereiro 2010

Vento

, primeira vez que passei na 3a ponte de moto, e ventava... na volta algo desprendeu no vão central, parecia uma placa amarela voando igual camisa jogada no vento que se pegasse um motociclista cortaria ao meio e o dia vasto, sem coração, trouxa e imaginário caía no real sem lenda intermunicipal, quando notei suas garras claras,.. era um imenso cabelo que desnovelava uma desescritura, gozo, declinação às desestórias no fim do mar, onde os navios pensam no por quê de nos saquearem, e continuam, surdos ao canto das sereias ardendo de dor pelos poetas num sacrifício de mentira enquanto gozam e depois. Esquecem,.. e seu esquecimento é também minha tarde em ventania aniquilada nos pelos dos braços quando a poeira vem cortando, mas depois no vento faz carinho passional, ... nesga da tarde-hoje quando a cidade é o presépio de merda e cal e sua derrisão sem cólera ensina anódinas gerações revolucionárias

08 fevereiro 2010

Bm

3
Flora, consultora da empreiteira Carvalhau Ltda, observa com olhar claro quando o trator arregaça o campanário e aterra a contrição do Galo. Depois fecha a janela de cortinas também claras, prossegue em sua palestra. Usa bota ponta fina e salta o degrau inoxidável enquanto uma calça de cambraia lhe trai a beleza da coxa. Tem a cintura bem feita e rara, e as costas de sonho macio sublevam o mundo objetivo das corporações. Os seios são palavras soltas em sutiãs blindados pela moda que desenfeita o cotidiano masculino.
2
Galos de terreiro conhecem o palmo certo, o inseto diário. Acertar inseto com o bico, não pensar. A bicada política, afeita ao fim. Reconheço esse um; campeiro de mosto agreste que agora comenta a tarde puída. Perdeu tudo quando a empreiteira começou a construção do condomínio. Fica por lá, andarilho e cisco entre bagulhos. Eleva penas pro ar.
1
Tem um galo que canta longe, perdido de tudo. É uma solidão aniquilada golpeando com insistência a tarde mesquinha. O solo baldio espera o sol caído em si descer, quando o escuro finalmente cobre tudo e todos sem alento, com sua parda definição.
4
O Narrador também contempla, respira o café copo de plástico no escritório, afere a conferência. A caraminhola no dedo aponta e indicador ao horizonte amarelo molhado que escapa e opõe o sol à B

25 janeiro 2010

Épistémè

Dona Joana, recebi já há muito tuas últimas flores, aquelas que chegavam com certa freqüência, transportadas ainda com lembrança de teu perfume, e de mim mesmo sabiam, assim como hoje podem intuir minha angústia pela tua distância. Essas tulipas nuas perfilavam minha mesa ao lado do porta-lápis em marchetaria para assistir minha mecânica de escriturário ou geômetra, abrigavam meu carinho pelo afeto de tua chegada, estando em minha ordenação faminta de tuas palavras languidas e desprotegidas contra minha admiração. Em teus bilhetes que acompanhavam o colorido natural nunca encontrei receio de que um dia me fizessem saudade; assim desvelo a calma intensa de um novelo de palavras mudas até que um corte rosa me escapa em sonho e acordo o avesso, transpiro as costas da noite de treva e caminho trôpego até um oásis de água gelada, o calor impregna meu corpo de ossos enquanto chego à sacada gorda, respiro consternações no céu; não reclamo, absorto em prazer e cosmo, faço declinações em que lhe torturo até o choro de torpor azul, depois volto a mim.

,.