28 outubro 2008

A história de Jesiel

Jesiel voltou de Londres com cabelo pintado. Sem dinheiro, bêbado, só. Seus postais mostraram a cidade cinza e interessante, gotas de sonho no inverno. Viajara com sua trupe nessas fotografias, numa montagem de Hamlet: Nos últimos sete anos Jesiel fora contra-regra de um velho teatro inglês, que fechou para ser demolido.

De volta à Recife, onde seu cabelo roxo amanheceu na classe econômica, Jesiel trouxe lembranças. Uma caixa, cinqüenta e dois pocket books e sua velha jaqueta. Esquecera de rasgar fotos do cibercafé, onde trabalhou ano inteiro, depois do teatro ir ao chão. Lavava os banheiros unisex do mundo Adidas. Jesiel abriu e fechou portas em Londres; nenhuma delas a porta certa.

Chegou, pôs-se a procurar emprego. Seu pai, por dever um favor ao Azevedo Rodrigues, antigo sócio, disse que o jovem estava disponível para trabalhar em sua empresa, que depois de apenas dez anos prosperara. Jesiel não recusou a oportunidade, atirou-se.

Sempre disse que queria morrer no trabalho. Ainda deprimido pela falta que a cidade fria lhe fizera; consumido pela dor de ter deixado os amigos, uma trupe de interesseiros; asfixiado pelo calor belíssimo que faz a carne viva no sol duro, marchou a descorar o rosto no hall de entrada do que em secreto apelidara de ColdHell - Materiais, Tarugos e Encanamentos. Lá dentro, a temperatura gelada do ar condicionado lembrava Londres. A entrevista transcorreu bem depois de quatro horas de espera.

Dedicou-se para ver a empresa crescer ainda mais, especializar-se em tecnologia e serviços de manutenção, esquecer a doença do teatro.

Jesiel, os pobres não tem como pensar em Arte. Restou para você essa mesa, esse cartão de pontos. Este setor.

Azevedo Rodrigues é um homem que sabe o que quer: Você vai cuidar do Marketing, garoto... eu gosto de gente assim... sabe que é uma tendência no Marketing, gente que veio do teatro? Você pode vir a ser um consultor algum dia, você trabalhou em Londres. Jesiel sempre ouviu resignado as palavras do Azevedo Rodrigues, palavras que o vento levou para o terreno ermo em que ele fez penetrar uma nova sede da empresa com os estatutos da Qualidade Total.

Nas tardes de sexta, quando o descampado em frente ao pátio dos tarugos faz a miragem em que o sol desmama o sonho, Jesiel lembra com um ponto de pavor na alma o que fora sua existência de mendigo em Londres. A felicidade entreabre uma nova porta como delírio colorido, êxtase de ácido derramado, a cara de Michael Jackson, o Leviatan de Paul Auster. O trabalho forçado de Oscar Wilde. É a lembrança que faz de repente cena bonita em sua cabeça, breve folha que plana depois de morta vinda de uma árvore esquecida pelos tratores.

Gosto de ver você assim, Jesiel... olhando firme para o horizonte, vendo outras filiais? Quando éramos jovens, eu e seu pai, pensamos em muitas formas de negócio, mas nos separamos; ele continuou dedicando-se ao Direito, eu resolvi partir para a iniciativa privada e aí está... sim senhor... aí está.

Jesiel ouve atento. Espera o milagre sem justiça. Escuta as palavras soltas, leves, impunes. A seqüência de mentiras nasce de manhã e engana justos, venera corruptos. No fim do dia, Jesiel apenas agradece. Ajoelha e agradece. Não pela fama, que não tem; nem pelo reconhecimento de seu talento. Como um observador secreto, Jesiel agradece por estar vivo em Londres.

01 setembro 2008

Amantes à mesa

Will se impacienta com o narrador, mas aceita resignado o mote fugidio. Encontra com Paula Maria, nutricionista de 30 anos cevada na academia da Avenida Rio Negro, perto do Café Tatoo, onde Jonas Peixe, surfista carioca, se aventura na iniciativa privada para servi-los de sucos naturais. O local dá com a fronte para o antigo restaurante italiano que já foi loja de decoração década e meia atrás, e nesse tempo refletia das vitrines o corpo de Laura, ainda adolescente a caminho do curso de inglês. Esse curso de inglês vem recordado junto à casa antiga que o abrigava bem ao lado do restaurante, hoje vizinho do prédio um por andar que nasceu de sua morte, possibilitando o assentimento da obra, e acalentará assim o encontro fantasmático da pretérita loja e seu antigo ladeamento. Sem saber disso, num dos últimos andares do prédio erguido, Monica acaba de entrar em casa e caminha para o quarto, orbe geminado ao do irmão, Paulo Eduardo, estudante da FGV saindo no gerúndio silencioso pela garagem do prédio com o Golf azulado para a rua, quando vira à direita, acelera e passa em frente ao Café Tatoo sem ver Juliana, ex-namorada que acabou de chegar de uma viagem desconhecida pelo narrador. Ela recebe pelo celular um torpedo da amiga Monica, a irmã de Paulo Eduardo agora sentada na cama tirando o jeans da Zoomp enquanto espera entediada o PC reinicializar em nova língua. Mas isso é aos poucos substituído por novo roteiro turvo, desaparece. No Café Tatoo, dentro de sua bolsa descolada, remexe o maxixe insuspeito do celular de Juliana até quando a moça o envolve com os dedos e à palma da mão o aperta, depois puxa para trás todo o corpo devagar até acender ereto. Enquanto pede suco de siriguela ao garçom sem nome e descruza as coxas de saia leve, ignora a ligação de Monica, e espera o sinal do celular trazer a voz de Paulo Eduardo, que não quer atendê-la nunca mais. Já perto do aeroporto, rasgando a praia com o carro azulado a caminho da felicidade suíte master periférica à cidade presépio, o futuro executivo não percebe quando a namorada, Aline, pega seu telefone entre os bancos de couro preto e atende. Contudo, antes das duas amigas de infância se reconhecerem, esse momento escrito é também posto de lado e novo itinerário de texto a tudo atordoa e assalta de outra ligação, não para Paulo Eduardo, que já é passado, mas para o próprio narrador. Os olhos azuis de Juliana sorriem para ele, que não sabe o que fazer, e assim permanece. Na despedida, a moça roça o seio esquerdo em seu antebraço e some do texto. É quando, em frente ao prédio, Laura estaciona seu carro numa vaga com a ajuda do flanelinha que também não tem nome, assim como o garçom do Café Tatoo e João Batista, gari que sete horas da manhã limpou, entre insetos desertados, o pedaço de rua que a todos acolhe. Rapaz de 18 anos, o flanelinha ignora que a mulher que sai do carro já estudou inglês ali em frente antes dele nascer. Esse um, como os outros, menos o narrador, desconhece que exista mundo acontecido antes, assim como outro que viria depois de ser ele mesmo o presente. Laura, por exemplo, desmemoriada de romantismos, geralmente não se lembra, nem do curso de inglês, nem de qualquer coisa que haja em passado nele; frase, palavra, qualquer encontro banal com Luís Glauco, soberbo cdf que nunca a esqueceu. Do Café Tatoo, o súbito soslaio de olhar que puxa Will para o outro lado da rua também a vê e prende em seu seio a boca da atenção por um momento, sem saber de onde sua forma, seu contorno ou movimento ecoam, e pelo que deram ou negaram seu desfecho final no epicentro da situação com Paula Maria, enquanto esta da mesa o observa, e fuzila a mulher flanando pela calçada oposta, essa mulher absorta em qualquer coisa para a qual não existirá uma história.

07 agosto 2008

...quando o Sol sarar

Boulevard. Escuto uma música década de 70, meu cancioneiro Barro Vermelho contorce. E essas mesas de granito impessoal, frias igual consultório médico. No Boulevard a décadence é um lugar, material literário. Ao lado um casal de namorados decide como consertar uma sombrinha cinza claro. Discutem mansamente, citam a internet. Lá fora a chuva rala afronta o motociclista que sai com uma Suzuki. Antes disso, olha para mim e diz: chuva e motocicleta não combinam. Sorrio concordando.

Não lembro da endoscopia. Impressionante o efeito da anestesia, um delete dado ao leque de pequenas amenidades, o não ver da paragem lúcida, oh mundo vasto imundo. O embrulho da vinheta nos vela, é das 7, esporra da televisão penduricalhada. Saio, volto ao portal de onde se vê que a avenida está cheia de escravos. Respiro, sinto o Real.

Anoitece e espero o aluno classe média alta. O ventilador Venti-Delta, a porta semi aberta; a escala maior. O Canário do Reino que o vizinho homem de bem colocou pra passear pendurado no muro. É uma gaiola pequena, assim como é pequeno nosso mundo.

Sinto apenas meu corpo, tenho esperança. Numa sintaxe sem decência, a inflexão de seu modo escolhe pensamentos, compõe histórias. Em jejum, espero a endoscopia amanhecer o próximo sol. Aqui um mosquito revoa cantando desafinado. Minha cara crivada de palavras não parece saber o que foi o retrato Dorian Gray.

Silêncio da noite, vago agosto-2008, em que escuto eletrodomésticos, sua vida útil. Sonho o real retrouvé. Leitor de Milo Manara, com a perversão urbana espectral quase Bom Marché, desvendo receitas que devo seguir. Recebo os vencimentos da civilização, leio blogs de reacionários pedantes, desentendo ao mesmo vento o Brasil. Tampouco estendo à caligrafia azul. Agora meu livro (orações...) está editado e resta o vazio,.. as feiras de livro, a internet, os sebos..

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