04 novembro 2016

Concha

Meu peito explodir com a noite, como um sonho que se acaba, uma pedra de muitas sílabas, a palavra que faz semifusas e o verbo que transige. Para o cosmos, além da gravidade que nos ilude com tempo, como uma bomba quando jorra a angústia para longe das coisas que eu sei. Meu coração rasgar de uma vez, e a tinta acrílica manchar o Caderno de Camburi e a ressaca do fim do ano for estancada pelo corte epistemológico do Terceiro Píer e os fãs que te gostavam até o disco furar virarem titãs politizados e lindos que deletam tua saudade. Para o céu com asas, negras de um abismo que o presente aceita e os livros inventam histórias onde somos a flautista de leitura implacável e o pianista que toca de ouvido; subversivos de todas as marchas, porém diplomáticos no compasso ternário das valsas triviais das escolas. Tanto mais elegantes nas declinações moralistas de girondinas fugas de Bach quanto enlevados nas tardes de inverno na praia, onde o pó preto de nuvens de ferro chove na classe média sem dor as ondas de um Béla Bartók eco dos cantadores em folguedos populares.


Se hoje não tenho uma história escrita, com minha vida a inventei para falar ao Verbo; hoje não quero carinho em meu cabelo e a conversa na ponta da faca é minha caneta azul. O fundo do mar a recebe. Também a esta folha diária que por um instante exercita na praia uma flutuação, sem querer saber da mecânica dos fluidos de Isaac Newton. Hoje perdi toda uma engrenagem mecânica no drible do baile do corpo que todo homem aprende a saber suportar. No supermercado Carone acolho a Stella Artois que uma voz [recitando um poema] disse não ser, de modo algum, uma cerveja feminina. Sou um homem do tempo dos motores carburados e se na rua a César Hilal é uma orquestra, amparo a fronte sob o sol lendo a escuta do livro bíblico seguinte, quando somos atravessados pelas palavras sapienciais, e fonemas também. Gostar do outro é a pior coisa dessa vida, não existe peça de reposição e sábado de manhã vou à oficina do Jairo, e brigo com o Zé por causa dos mesmos retentores de óleo. Que importa isso?, essa porra? A sequência, a série sistêmica de erros, suas noites e interpretações? Não há uma história em meu quase-livro. E sem uma história não se faz um romance. – mas o que é um romance? Somos todos História, prevalecemos, existimos, nossos segredos são publicados, nascemos e morremos em nós mesmos cada dia sem sobreviver ao que em outro irá descalcificar uma concha. Desse mar. Esse diário que se expande no tempo com sua capa de ar azul e que aos poucos dissipa no silêncio até que eu...

28 julho 2016

Black.

Por vezes o tempo também está fotografado na memória em labirinto, mas qual? Se for o nosso, se for o do amor, o invisível laberinto que a cidade arma, desarma nos caminhos por onde atravessaremos, e que num segredo majestoso nos acarinhou no vento dos dias de inverno. O passado... talvez ele nunca acabe.

– Por mais que nos doa o sol, é também por essa história (essa memória) que estamos vivos sob a iluminação artificial se ela se apaga nas manhãs. Quando o coração de pedra não resiste às últimas e mínimas agulhas, nas banalidades descartadas. Heineken, como eu sofro por uma bobagem. É hora de vestir novamente meu black tie para festas, encarar a banca, saber que fui vaziø. - ou que este foi um lampejo do que há de mais bonito e que qual poema apagaremos escritos no vento em indefeso cantares durante algumas tardes fazendo música.


A força que essa fotografia nos impregna é menos exata do que antes pensávamos ser; está na bruma de um filtro, é o romance feito na cidade invisível. Com saudade, olor, imaginação, raiva, desejo, amor e carinho.

13 junho 2016

heptágono 46.

1.
aos poetas, cordelistas, escritores sem livro, cantores com microfone sabotado, escultores de vísceras, artistas do circo que fechou. aos produtores musicais maestros do sampler, equilibristas de alegrias banais, aos caricaturistas com a taça de vinho de baudelaire, pichadores, desenhistas que trazem o desenho cego do futuro.

3.
alados multi-instrumentistas do ouvido absoluto, aos que arranham a topologia na banda de moëbius e  andam de bike deixando coisas para os outros. aos andarilhos que não sabem se chegarão ao palco, às crianças de rua com malabares contra os motoristas nos sinais de jardim limoeiro.  

6.
videomakers da mídia ninja tanto quanto diretores anônimos, roteiristas cansados da globo, declamadores da amnésica dor. performers das pestes exógenas à felicidade da classe média. aos desbravadores da experiência que furtam a vida das tardes e amam, aos que herdam a indesejada das gentes. aos amarildos.

2.
aos pintores de códices maravilhosos com a paixão dos escritores de diários perdidos, que os apaixonados sem futuro imitam na vida, geração de ciclistas de camburi quando a chamará araceli. aos anjos da cidade vestidos mendigos com o sacerdócio do anonimato, aos que estão no presente.  

7.
todos os pesquisadores do vento sejam perturbados por um beijo da musa,.. gente do futuro que deseja e aos poucos esculpe o próprio tato nas artes visuais, materializa uma ideia ou saudade, a carne sonora das palavras. gente que vai acreditar na arte até a morte.

4.
aos fotógrafos de instagram na autobiografia do real, aos atores e rapsodos persistentes sob o sol, ao cantador analfabeto e rude que irrita os guitarristas subsumidos no tempo da harmonia funcional. aos compositores da música concreta, aos que tocam garrafas com água sem esperar uma escuta.  

5.
trago em minha oração também a voz dos os bardos cancionistas de clichês. e aos maestros de uma música inscrita no corpo lanço meu caderno, e aos engenheiros do som que desanestesia o mundo, celebro. aos que de alguma forma acham a vida insuportável sem arte.  


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