13 junho 2016

heptágono 46.

1.
aos poetas, cordelistas, escritores sem livro, cantores com microfone sabotado, escultores de vísceras, artistas do circo que fechou. aos produtores musicais maestros do sampler, equilibristas de alegrias banais, aos caricaturistas com a taça de vinho de baudelaire, pichadores, desenhistas que trazem o desenho cego do futuro.

3.
alados multi-instrumentistas do ouvido absoluto, aos que arranham a topologia na banda de moëbius e  andam de bike deixando coisas para os outros. aos andarilhos que não sabem se chegarão ao palco, às crianças de rua com malabares contra os motoristas nos sinais de jardim limoeiro.  

6.
videomakers da mídia ninja tanto quanto diretores anônimos, roteiristas cansados da globo, declamadores da amnésica dor. performers das pestes exógenas à felicidade da classe média. aos desbravadores da experiência que furtam a vida das tardes e amam, aos que herdam a indesejada das gentes. aos amarildos.

2.
aos pintores de códices maravilhosos com a paixão dos escritores de diários perdidos, que os apaixonados sem futuro imitam na vida, geração de ciclistas de camburi quando a chamará araceli. aos anjos da cidade vestidos mendigos com o sacerdócio do anonimato, aos que estão no presente.  

7.
todos os pesquisadores do vento sejam perturbados por um beijo da musa,.. gente do futuro que deseja e aos poucos esculpe o próprio tato nas artes visuais, materializa uma ideia ou saudade, a carne sonora das palavras. gente que vai acreditar na arte até a morte.

4.
aos fotógrafos de instagram na autobiografia do real, aos atores e rapsodos persistentes sob o sol, ao cantador analfabeto e rude que irrita os guitarristas subsumidos no tempo da harmonia funcional. aos compositores da música concreta, aos que tocam garrafas com água sem esperar uma escuta.  

5.
trago em minha oração também a voz dos os bardos cancionistas de clichês. e aos maestros de uma música inscrita no corpo lanço meu caderno, e aos engenheiros do som que desanestesia o mundo, celebro. aos que de alguma forma acham a vida insuportável sem arte.  


05 maio 2016

ilha sonora

semibreve roxa
teu carinho sensível
colore-me a lâmina no coldre
de homem do parreiral.
∑rro no campo
sem o teu erro
na tarde floral,
la mélange fort, inesquecível.

semileve e terra
és o gosto de uma lua,
és meu rosto no sol.
a invenção sem partitura
que a tarde gravará
nas coisas simples.
(everyday we find the way).

os discos, os outros remixes
do eclesiastes,
los libros de la noche
que la ciudad habita
nos dizem outros, estandartes.
a letra que o amor edita

11 abril 2016

Canção em voz baixa

Na descida da Gama Rosa você estava na calçada daquele bar e conversava numa mesa com o Antônio das Mortes Mirim, e a Moça tatuada nas costas. Glauber erigia do antro de luz rosada e gesticulava, Heineken na mão, voltava para a mesa de vocês, onde também estava aquele rapaz cineasta. A Cidade Alta acesa na última noite de inverno até que passei pela Professor Baltazar, onde um carro branco com um adesivo de sol acendia a luz de freio encarnada. Na aragem malévola da queda, ergui os olhos para os prédios de Maria do Carmo Schwab entre a mansidão dos alvéolos de Sylvia Plath, um Salmo ou as capas de ar que o pássaro de asas negras desvela em noite profunda, escura como as janelas de jacarandá da casa do Barro Vermelho que me vem sobre o capacete negro quando giro e giro e giro num acidental espaço encantado, Boi-Tatá de esperanças gastas de homem rude, baio, vasto promontório, manco, beijo na boca ou viola de arame, e as bengalas prateadas dos amortecedores da moto se irrompiam sem mais tempo numa doce escoliose e desferiam-me facas quando os retentores de óleo em vazamento ou poema me entravam pelo abdome. Assim, no campo aberto do Parreiral decadente das eras me voei tempo verbal de angustioso chão ou simples pássaro flutuara negro e leve sobre a noite, já sobre uma Camburi devastada pela poluição das próximas gerações até que acordei sem volta, e cá estava. Agora, no escritório, escrevo-reescrevo o grande formulário de impropérios acadêmicos, mas o contratexto vem no cenho tal sexteto de cordas, tuas palavras na ponta avara da tua língua: é o escuro desse palavreado que musico sem querer, no quanto te sorvo com a língua a cintura, as costas, e tua voz rouca; e se na escuta dessa orquestra imaginada em meu texto estanco e impregno de café qual viciado com caneca de ágata, depois novamente exato na leitura bíblica aceito os óculos com mãos que atravessaram o deserto e neles pensam tocar a réplica de um jarro d’água, que Heidegger esvaziou. Corpo cansado que nunca mais. Venho de muito longe na vida, tempo de outras cantorias, outros afazeres me encontraram no corpo sem baile e se de súbito me acordam para o real aquém do onírico sou o démodé das gentes, noutro tempo em que o centro histórico da cidade nem era a história que nos desarma e deflui a essência das línguas dos tempos e tanto a cidade quanto o interior que nos habita em segredo inventam o mundo e o cheiro da terra, e o piano velho, a voz arranhada do João Barro, a cachoeira deslizando eira nem beira num sábado, a avenida que noutra metrópole é fluxo de nascente interpretação da argila, a asa do verbo que nos vem ainda misericórdia ao mesmo que nos arranca do outro a paz do silêncio: meus passos na ponte sobre o escuro estão à caminho da linguagem em cima do vidro. Ao largo disso, o abominável presente me faz o abismo; aos poucos amanhece uma lâmina e absorvo o dia com um corte quando evoco os melismas sonoros de um Elomar lançado ao bucho do céu que se abre terceiro e margem como o rio que é meu pai na escrita de Guimarães. No seco dos dicionários não encontro palavra para mim. Sou o homem do interior, o motociclista urbano, a casa com varanda e rede, a voz que corta quanto mais é baixa toada, oração, sacanagem. A cidade não se deu por minha morte, ontem, hoje, no Eclesiastes depois de amanhã. Estou livre    


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