Pois não, senhor.
Traga também alguns croissans
Sim, senhor.
Juan, você...
Nem me fala dessa porra, eu não quero saber...
(mastigando azeitonas, sem caroços)
Juan, não se resolve o negócio desta forma
Não se resolve o negócio desta forma... (fazendo chacota)
Quanto ela quer
Eu sei lá, eu não paguei. Aquela piranha não..
(volta o maitre, observa com olhos azuis)
O Château Litour, senhor.
Espere. Acho que posso resistir ao Latour. Traga uma de minhas garrafas
Ótima escolha, senhor.
Ótima escolha, senhor. (fazendo beiço) Esse cara só sabe puxar?..
Ele é pago para isto, Juan. Pode ir Ricardo
Com licença, senhor.
(des-rindo para janela e vitrais; estalando a boca; anchovas) Estou cansado desse clube, Márcio.
Você se cansa das coisas com facilidade
Tudo isso.., que merda...
Seu palavreado é um lixo, você anda pela rua da lama e acha um grande lugar
..; me passa um desses...
(vem o maitre servir) Aqui está, senhor. (serve os filetes de madeira para acender o Montecristo)
Márcio, (baforando na cara do maitre)
Sim... (baforando também; agradecimento)
Márcio.., (degustando devagar, voltando a querer falar sobre Suz) ... aquela...
(com o bouquet na mão direita, quase), Você não sabe tratar uma mulher
Márcio, ela é uma piranha.
Naturalmente
(o maitre agora serve Juan. Satisfação e masoquismo; garrafa de particular de Chateau Lafite, fenomenal) Algo mais, senhores?
Pode ir.
Com sua permissão.
Márcio, que estrupício é esse?
É um dos melhores de São Paulo, não me irrite
Ricardo não é nome de maitre..; que merda é essa?
Eu prefiro assim
Daqui a pouco eu encontro um xará na cozinha..,
Você nunca vai à cozinha
Ainda bem.
Não emita qualquer observação sobre o vinho
Eu o conheço muito bem, não ligo pra esse negócio.
Para que negócios você liga
Os meus vão muito bem, obrigado.
Com quatro advogados comprando tudo, é claro que vão
(rindo) Eu nem sempre pago por tudo, Marcito.
Não repita isto
Tudo bem, eu...
Deveria pagar. Comece pela sua mulher
Suz é uma piranha
Excelente observação
Você está começando a falar como o maitre.
Diplomata e maitre; em alguns momentos mesmos senhores requerem mesmos modos, você sabe disso tanto quanto eu
Eu estou cagando...
Aliás você não deveria descurar de sua imagem, isto aqui é São Paulo, não Mônaco
Ah... você lembra;; certamente. Pena Suz ser aqui como não é lá.
Com dinheiro, o amor se torna compassivo. Não espere de sua mulher o que ela não pode
Márcio, seu crápula..,
Não beba depressa, esta garrafa..; você sabe o que ela significa
Sei muito bem. Se você não tivesse aceitado os presentes do Secretário, ainda em Mônaco...
Nós não tínhamos relações tão sólidas com a subjetiva interpretação do Embaixador ao olhar as deficiências e interesses da América latina
Não me venha com esse lixo, Márcio. Eu estou falando da Suz..; em Mônaco...
Todos sabem que sua esposa tem um amante. Que ele seja de Mônaco conta a seu favor
(uma pequena pontuação do maitre servindo mais vinho) Com licença, senhores.
Ela quer que eu volte. Piranha.
Toda mulher deseja um retorno, mesmo sem ter lido Proust
A Suz conhece toda a...
Naturalmente. As mulheres realmente perigosas fingem ter lido Proust
O senhor aceita outro aperitivo? (o maitre, indagando à Juan)
Aceito que você se foda, naturalmente.
Com licença, senhor.
Você não se lembra mais do declínio de Roma; usa demais a maldade
Foda-se Roma, Márcio. Quero que Roma se...
Foi em Roma que Suz começou a traí-lo com homens de baixo calão
E você vem me falar de relações subjetivas, interpretações da América Latina...
Diga-me Juan, quando você prestou o concurso? O Brasil não se furta ao meu espanto
(meio riso) Você não acha que eu sou tão bem relacionado, não é mesmo?..
Acho que você é um corno
(silêncio e mastigando)
... Você sabia (agora iniciando uma digressão) e concordava com aquelas orgias
E você não? Vai dar uma de santo agora, seu escroto.
Calma. Todos nós comemos a sua mulher, naturalmente. Que mal há nisto
(silêncio, ódio e respeito)
... Digo-lhe, com louvor. Agora, estas garrafas que nós bebemos de forma aprazível
Márcio (fazendo sinal para o maitre, que vem prontamente entre as poltronas de couro), a Suz; minha...
É uma boa mulher, traga-a de Mônaco. Mas deixe-a passar mais alguns dias por lá. Eu conheço o rapaz
Pois não, senhor?..
Traga uma Perrier.
Sim, senhor.
O que você acha? Pondere
(pensamentos...)
Vamos falar do que nos trás aqui, Juan
O que me trás aqui é seu conhecimento desse rapaz.
(silêncio quase Godard)
Não
(silêncio aparentemente sem direção)
Meu conhecimento desse rapaz é, para você, inalcançável. Contudo, para mim, um cheque pastor
O enxadrismo não me interessa quando estou bebendo, Márcio. Nem o considero um jogo.
Finalmente uma lembrança do homem que você foi
(silêncio que resgata a inteligência)
Você sabe que eu tenho intenção de comprar o Vacheron
É por issssso?
A Perrier, senhor.
(aponta as taças rapidamente, sem olhar) Márcio, vá se foder.
(rosto lívido, leve cansaço) Saboreie um pouco... o Château Lafite
O Vacheron não está à venda.
Como eu dizia antes, estas garrafas que nós bebemos de forma aprazível me foram dadas como presente
Agrados do Secretário; para você calar a sua boca sobre o remanejamento.
Remanejamento..? Que palavra é esta, Juan
Tudo bem, na prática o protocolo tinha suas idiossincrasias, qualquer porra. Era simplesmente ir ou não ir; ser ou não convidado para um recital. Cacete, um recital...
Um recital em um castelo não tão desconhecido por todos nós
Tudo bem, beba essas doze garrafinhas, eu te ajudo.
Vamos beber as duas que estão na casa, por que não
Nem tente fazer isto, Márcio.
Eu sei que você gosta de beber, por que não aceitar uma delas, presente meu
Márcio, já te mandaram tomar no meio do cu?
(Márcio reacendeu o seu Montecristo)
Juan, meu amigo.., todos nós lembramos daquele jantar. Eu mesmo não pude, entre as maravilhas dele, esquecer o Vacheron. Sei que foi praticamente um presente, arrematado, digamos, usando quatro ases
Onde você quer chegar?
Deixe-me vê-lo
Deixe-me saber sobre o rapaz.
Sei que ele é de 1778
Tão velho assim? (rindo...)
O Vacheron, naturalmente (baforando seu Montecristo com elegância)
Os cubanos servem, afinal... (rindo para ou de Márcio)
Sim, todos os ditadores nos são exemplos de algo. Quando não são, restam suas manufaturas
Quem é o rapaz?
O filho de um armador francês
É um dos seus homens de baixo calão?
É um bon vivant. E somente por estar onde estava podemos saber que é erudito
O que ele tem com a Suz?
Sexo
Mas não existem filhos?
Essa versão nos foi ofertada como estratégia para desviar sua atenção daquela noite, quando jantamos no castelo
Mas... foi apenas uma celebração.
Você não pode continuar se embebedando em jantares formais; alguns deles terminam louvando a Dioniso, não à Baco
Pensei que fossem o mesmo.....
Não são (levantar de sobrancelhas)
Você e suas entrelinhas.
O armador é irmão do Secretário
(espanto e admiração)
Este, ao me presentear as doze garrafas de Château-Lafite, recomendou discrição ao acompanhar o caso de algumas concessões; e em sua conseqüência, também de articulações financeiras de amigos, membros de uma sociedade
Essas sociedades são mito, Márcio.
Você sabe que elas existem, Juan. Mesmo num país deselegante como o Brasil
Mas estávamos do outro lado do Atlântico.
Aqui é São Paulo
Diga-me sobre o rapaz.
Suz levou o filho do armador ao porão, onde se desenvolveu o acontecido
(silêncio pasmo)
Sim, é o rapaz
Aquele rapaz é sobrinho do Secretário, e amante de minha mulher?
Calma. Ocorre de o Secretário, estando conosco no porão, onde naturalmente estávamos todos, ter sido capturado pela magnitude do Vacheron
(Juan reclina a cabeça um pouco para trás. Amassa seu Montecristo no cristal, sorve o resto da água)
Estou me fazendo compreender
Sim. Prossiga, por favor.
Vejo que aos poucos você recupera adereços e talentos de um homem de realizações internacionais
Com licença Márcio, preciso de mais água (levanta a mão esquerda, faz a aliança brilhar chamando o maitre. Escapa de sua abotoadeira dourada a esplêndida pulseira do Vacheron)
(últimas tragadas, o leve sorriso das relações) Sim
Pois não, senhor.
Traga rápido. (apontando a garrafinha de Perrier)
Imediatamente, senhor.
Por favor, prossiga meu amigo...
Todos encontrávamos satisfação com o que nos participava a reunião até seu ocaso, amanhecido o dia
Sim...
E, também participante, o Secretário pôde observar, não sem grande admiração, dois espetáculos
Compreendo agora parcialmente o que você quer dizer. Um deles, minha esposa.
Exatamente, e quanto a isto podemos saber qual destino os enredou naquela mesma noite
O outro foi...
... ele mesmo
Em verdade, não é de 1778 e sim de 1777.
(silêncio de ambos)
Meu caro Márcio, fale-me sobre o rapaz.
Tem todos os atributos de um jovem promissor
Presumo que sim. Não o reconheço como um dos homens baixos que você citou.
Ele não é burguês como a lamentável família que tem. Segue os preceitos do tio, que conhecemos
O Secretário... .. .
(o momento)
Juan, os acontecimentos daquela noite, mesmo sendo vigorosos o bastante, não puderam ocultar ao olhar refinado de alguns amigos o valor do Vacheron
Prossiga, meu amigo. Esclareça também sobre o motivo de estarmos aqui, ao sabor desta magnífica garrafa.
(rouge)
Sim
O que aquele rapaz tem com toda sua explanação?
Sendo o Secretário homem finíssimo e sagaz, depois de observar nossa reunião e propósitos, pôde concluir o quanto seu sobrinho causara admiração, e em alguns casos afeição
Já não duvido disto.
O Vacheron foi notado, também, por alguns de seus amigos, os quais pediram sua colaboração para encontrá-lo. Por este motivo o Secretário me procurou
Você deve..,
Sou um homem rico, não milionário. Farei o possível para que possamos fazer negócios frutíferos
O Secretário deseja possuir o Vacheron?
Amigos do Secretário o desejam
Amigos?
Sim
(rubor e destreza; regência de Karajan)
Quem são esses homens? Estavam conosco?
Sim, e desejaram desde então não se identificar, pedindo ao Secretário sua colaboração
Com respeito, Márcio... qual o motivo de sua participação? Por que eles não me...
Porque você negaria.
Então por que prosseguirmos?
Porque o Secretário pode
O Secretário é milionário.
Certamente. E também é tio do rapaz
Prossiga, meu amigo. Como posso ajudar?
Tendo o Secretário observado tanto em Suz quanto em você uma natural e sincera afeição por seu sobrinho, disse-me que pode apresentá-lo à sua pessoa
(síncope e contenção)
Estou ouvindo,..
Eu disse que faria a mediação por minha conta, com prazer
E o que pretende?
Comprar o Vacheron, de meu próprio bolso
Mas o que te faria..?
Motivos, Juan... todos os temos e as vezes tememos, podemos fazer com que a satisfação venha sobre nós por esta causa, o que me diz
Sim, por tudo o que disse, compreendo que poderia ser acertado, notadamente acertado.
Desta mesa, podemos finalizar a empreitada. Aqui está o telefone
Aqui está o Vacheron (desabotoando a manga esquerda; elegância; Juan o revolve lentamente)
(segundos)
Diga-me.
Você impõe as condições, eu efetuo o pagamento
Poderemos realizar o negócio em Euros.
Acertado, você sabe o quanto desprezo o dólar
Posso assegurar que por 480 mil ficaremos felizes.
(a maldade na hora certa)
Compreendo o valor de uma jóia; também sei o de um desejo. Ao equilibrá-los na medida de um mesmo negócio, julgo poder fazer um leve declínio, de 80 mil
(o fumo perfeito do capital)
É minha intenção ponderar, afim de nossa felicidade; assim como a de nossos amigos.
Estamos já em felicidade, (chama o maitre, leveza) diga-me seu número
Fale-me sobre todas as partes, Márcio.
Pois não, senhor.
Traga minha outra garrafa
De imediato, senhor.
Você dirá; todo o tempo é seu quanto a isto
(enquanto telefona) Diga-me o número da conta
(pausa de torpor, fúria, vigor)
Com licença, senhores.
(gesticula um pedido à Juan para que faça o bouquet)
Nunca me cansarei do Château Lafite, Márcio. Em muito supera todos os de maior excelência!
Comemoremos
Aqui está o Vacheron, meu amigo.
(silêncio; Wittgenstein)
Será preciso aguardar alguns dias, até que Suz venha de Mônaco com seu amante
E quanto ao rapaz, como é seu nome?
Dolmancé
29 outubro 2004
25 outubro 2004
Arcoverde
(re)pare como são belos esses rostos. São monstros. Eles aparecem em todos os lugares, estão sorrindo para nós. A graça tediosa deles tem uma aparência perfeita. Nas revistas, jornais, canais da TV por assinatura. Uma grande rede é tudo. É a classe média na fita achando que faz o bem mantendo os pobres lá longe, comendo a filha da empregada pelo quarto de trás. A poluição que desce sobre nós e esparrama ansiedade e segredo, uma saudade do happy hour que ainda virárma-gedom. Columbine total. As formigas andam pelo chão num trabalho cego. Cláudio Lúcio avança para a direita, cansado do transito impossível, irrecuperável como a juventude. Dá seta, pede, xinga, coça. O caminhão amarelo sorri de pena. A coisa urbana não é mais toda tão certa, nem nunca foi, era mentira aquela beleza esperta. A coisa é uma máquina envenenada, esse Dodge Charger que deitava o banco todo pra namorar no descampado com o tapa gostoso que dói. Nada disso. Agora amétrica a rima descura um outro tempo contrapondo, e sem lendas ou lembrares faz destino conta gotas até a esquina próxima, onde é preciso entrar à direita.
Pic pic,.. das primeiras gotas, o sortilégio das lágrimas exteriores. Cláudio Lúcio lembrando dos tempos do Charger, fodedor. Agora sim, dentro desse carro mil com ar condicionado indo fundo ao abismo da placa, desde o túnel em que Roberto Carlos passou de helicóptero foi preciso o nascimento que mostrou a miragem do mar por instantes, ocorrendo esse para não ser atropelado pelo fluxo de competidores desesperados deixando pairar atrás de si um rabo dançante de outros.
O primeiro dia no emprego foi uma navalha na carne de segunda. E de lá pra cá foi pra te farejar que disseram cuidado com a cuca que a cuca te pega. Cássia Eller cantando no cd de painel, o 3º da série robauto. Quem é bom? “Bom mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” Nascer de novo é todo dia, mas pessoas inteligentes geralmente querem acreditar na matemática. A placa da Toneleiros avisando que o arco íris verde e múltiplo vai abrir depois que ele descer ao metrô de Copacabana e subir noutro lugar, atravessar a cidade como um tiro. Estacionar o carro antes.
“Je est une autre”. Escapa a exceção de ruídos compondo uma música cretina, despedaçada. É quase sem adjetivo essa manhã de Cláudio Lúcio tentando entrar na Toneleiros, sentindo a barata de Gregor Samsa achatada no entrelivros que a vida passou a ferro. Sentindo a carne de Laura de balance ao trocar o cd, enfiando um Van Halen no painel do Clio, histórico nos meandros urbanos; era sinal fechado e dava tempo de mexer ali.., ele ainda jovem jogava o cabelo para trás do tempo, acelerava parado experimentando o motor teso. Quando abriu o sinal miserável, um pulo de gato jogou contra o táxi ao lado direito até entrar todo na Toneleiros rasgando até o posto de gasolina, onde Ed Van Halen destruía lembranças. O frentista perguntou se podia completar. Cláudio Lúcio lembrou da transa com Laura, numa madrugada vestida de frio, alguns quarteirões à frente dali. É sempre possível esquecer Laura; gosto, pelos, mas não o olor. Cláudio Lúcio nunca soube identificar se do cabelo, pele ou do ar que a circundava.
Charger, vendido ao ferro entrou velho de ferrugem lá por Belfort Roxo e nunca mais. Aqueles bancos, seu horizonte que alicerçaria a fantasia nos filmes mostrando o Alto da Tijuca. Tchau carros da Sousa Ramos; tchau coleção completa da 4 Rodas; tchau-tchau pornochanchada loura. Os poemas novos a cidade mostra nos Outdoors que drogam ambições, misturam fazendo vitamina sem álcool politicamente correta.
Imaginando onde estacionar o carro para vencer o centro de metrô, também deslindava um destino para aquela noite, perdida de suas vidas desde que se apaixonaram pela terceira vez. A estação Arcoverde olhava esses delírios com devoção e crueldade, ali perto do lendário 200 fazia sonetos ruídos de vícios e travestis dormindo. Cláudio Lúcio tentava apenas imaginar, lembrava perfeitamente. Saíam pela cidade, andarilhos pela inexistência que anoitecia, quando entravam nas casas noturnas a procurar por outros amores sutis e falsos, despiam de si a bondade para entregarem-se um ao outro frente a outros que mentiam também e os ensinavam. Assinando o cheque à janela do carro, como apoiara nas mesas de casas-Copacabana(s), às portas das 4 da night, levando à sua um casal de pombos a empalhar manhã e cama de sono com gemidos e migalhas de comida da matinal geladeira Brastemp. Corpo prateado sem lua. O corpo de Laura desvanecera pelos anos que se passaram; retornava do sublimado ao real inanimado que campeia as manhãs executivas.
Pic pic,.. das primeiras gotas, o sortilégio das lágrimas exteriores. Cláudio Lúcio lembrando dos tempos do Charger, fodedor. Agora sim, dentro desse carro mil com ar condicionado indo fundo ao abismo da placa, desde o túnel em que Roberto Carlos passou de helicóptero foi preciso o nascimento que mostrou a miragem do mar por instantes, ocorrendo esse para não ser atropelado pelo fluxo de competidores desesperados deixando pairar atrás de si um rabo dançante de outros.
O primeiro dia no emprego foi uma navalha na carne de segunda. E de lá pra cá foi pra te farejar que disseram cuidado com a cuca que a cuca te pega. Cássia Eller cantando no cd de painel, o 3º da série robauto. Quem é bom? “Bom mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?” Nascer de novo é todo dia, mas pessoas inteligentes geralmente querem acreditar na matemática. A placa da Toneleiros avisando que o arco íris verde e múltiplo vai abrir depois que ele descer ao metrô de Copacabana e subir noutro lugar, atravessar a cidade como um tiro. Estacionar o carro antes.
“Je est une autre”. Escapa a exceção de ruídos compondo uma música cretina, despedaçada. É quase sem adjetivo essa manhã de Cláudio Lúcio tentando entrar na Toneleiros, sentindo a barata de Gregor Samsa achatada no entrelivros que a vida passou a ferro. Sentindo a carne de Laura de balance ao trocar o cd, enfiando um Van Halen no painel do Clio, histórico nos meandros urbanos; era sinal fechado e dava tempo de mexer ali.., ele ainda jovem jogava o cabelo para trás do tempo, acelerava parado experimentando o motor teso. Quando abriu o sinal miserável, um pulo de gato jogou contra o táxi ao lado direito até entrar todo na Toneleiros rasgando até o posto de gasolina, onde Ed Van Halen destruía lembranças. O frentista perguntou se podia completar. Cláudio Lúcio lembrou da transa com Laura, numa madrugada vestida de frio, alguns quarteirões à frente dali. É sempre possível esquecer Laura; gosto, pelos, mas não o olor. Cláudio Lúcio nunca soube identificar se do cabelo, pele ou do ar que a circundava.
Charger, vendido ao ferro entrou velho de ferrugem lá por Belfort Roxo e nunca mais. Aqueles bancos, seu horizonte que alicerçaria a fantasia nos filmes mostrando o Alto da Tijuca. Tchau carros da Sousa Ramos; tchau coleção completa da 4 Rodas; tchau-tchau pornochanchada loura. Os poemas novos a cidade mostra nos Outdoors que drogam ambições, misturam fazendo vitamina sem álcool politicamente correta.
Imaginando onde estacionar o carro para vencer o centro de metrô, também deslindava um destino para aquela noite, perdida de suas vidas desde que se apaixonaram pela terceira vez. A estação Arcoverde olhava esses delírios com devoção e crueldade, ali perto do lendário 200 fazia sonetos ruídos de vícios e travestis dormindo. Cláudio Lúcio tentava apenas imaginar, lembrava perfeitamente. Saíam pela cidade, andarilhos pela inexistência que anoitecia, quando entravam nas casas noturnas a procurar por outros amores sutis e falsos, despiam de si a bondade para entregarem-se um ao outro frente a outros que mentiam também e os ensinavam. Assinando o cheque à janela do carro, como apoiara nas mesas de casas-Copacabana(s), às portas das 4 da night, levando à sua um casal de pombos a empalhar manhã e cama de sono com gemidos e migalhas de comida da matinal geladeira Brastemp. Corpo prateado sem lua. O corpo de Laura desvanecera pelos anos que se passaram; retornava do sublimado ao real inanimado que campeia as manhãs executivas.
18 outubro 2004
7 pecados capitais
::: ; inveja; elaborado com feromônio; aumente suas chances; o paraíso é aqui; quer seduzir todas as mulheres?; a famosa loja gourmet de todo o mundo, a Fauchon; empregos, esportes, homem, humor; teste de personalidade, descubra qual é sua idade mental; Polishop, emagreça até 7kg em um mês!; preguiça; Fastshop, H. Theater 5.1 Canais 400W; divirta-se; exército americano nega que tenha havido erro; Minnesota vence Lakers e empata...; Razão Social: empresas socialmente responsáveis; Brasil recebe emissões tóxicas geradas por...; campeonato brasileiro; aumente o tamanho do seu pênis; Palocci anuncia mudanças na tabela do IR para 2005; Novela Roque Santeiro deve virar filme; Lula fecha 14 acordos; Capital Inicial fala sobre Renato Russo; Conexão Disney: pais e filhos brincam juntos. Assine já; novo cd da Alanis Morrissete, 34,90; baixe novos tons para o seu telefone; alma gêmea: envie sua história de amor; da casca ao suco, aproveite o limão; Festival de Cannes, críticas aos EUA conquistam a França; câm. digital em 12x; Lula lá; aeroporto de Paris é fechado por causa de novas rachaduras; Silêncio Q Precede o Esporro, 16,90; leve 2 dvds por 34,90; luxúria; Nasdaq 0.82%, Dow Jones 0.29%; violência em Bagdá, choques com EUA matam 18 iraquianos; empregos, encontre o seu aqui!; emagreça dormindo; experimenta!; Mel Lisboa nua: você acha que viu tudo em Presença de Anita?; você merece ser feliz; seus sonhos foram atendidos, Juliana Paes...; Arte da Guerra para Mulheres, de R$ 21,70 por R$ 21,00 à vista; câncer de mama aumenta entre homens no país; concorra a 10 viagens para a Itália; orgulho; celulares com câm. digital, só R$ 789,00; EUA querem forças de paz no Iraque por mais um ano; após 8 meses a limpeza da estátua de Michelângelo é concluída; veja o que os astros prometem para você; veja o casamento do príncipe espanhol; você usará luvas até o fim de semana?; passe o seu tempo aqui; impostos pesam mais no orçamento de pobres no Brasil; Kelly Key fecha com a Band; chega de ficar, quero namorar; Diários de Motocicleta levou outros prêmios; baleias protegem o mar; pai carrega corpo de filho em carrinho de compras; Quentin Tarantino critica Diários de Motocicleta; mais dois empresários da máfia do sangue são presos; avareza; mais de 120 mil empregos em todo Brasil; EU quero mais; sempre que você pode, escolhe o melhor; roda e avisa; seus problemas acabaram; o Grand Clio é a celebração máxima da publicidade mundial; Lojão dos Parafusos, estacionamento para clientes; a megafortuna de Paulo Maluf no exterior; classificados eróticos, anúncios, fotos, contos eróticos e fantasias; vaca louca pode ser mais comum em seres humanos; cuidar bem do corpo faz bem à carreira; para garotas que têm atitude; as melhores coisas da vida; economia e negócios para quem é líder; gula; exclusivo para assinantes; :::
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