16 junho 2020

pés

acima as estrelas vem mortas de amar
e meus passos no chão da cozinha pra beber água

descarnam do sonho pisam a terra 
enquanto pego no filtro som oásis miragem mágoa

e sinto o real seixo madeira terra em mim
nos gestos e o riso no corpo de 4 da matina

é a nuca da musa sem rosto que apaga assim
e ando até a varanda num gole sou máquina

a rua sonha o cálculo do mundo à esquerda uns trinta graus 
e é como alucinação que os homens tem sem asas

quando olho os ombros dos prédios na direção do ventre
por onde à noite volto a exausta voz canto de trabalho

e passo dentro do carro a björk sem beijo techno love
e o thom o ritmo o novo é york o velho mundo da peste

tempo tempo tempo tempo sou plágio maduro above
tão sagrada a chuva é uma carta nua de amor que leste

quando olho até que ela se desvanece e dorme
e se vai curada de mim para dentro da escuridão 

abaixo dos pés a cerâmica o pó da terra informe
uma lucidez ama a pedra solta no espaço no chão

16 abril 2019

O carro

Ele dorme com lábios de pedra e a expressão de um homem que foi ao desmonte do mundo. Cabelo barba sem corte. Travesseiro de pluma voz rouca da memória as costas magras asas de um sonho largo nos ombros. O suor do corpo exausto da claustrofobia do dia anterior, da escrita do real.

De manhã o frentista do posto avisara, pneu furado é um parafuso tipo bitola 8mm, e a vista-velha no ray-ban negro que aparecera em seu rallye desde o posto 5 cortando a orla fez espremer os olhos. Decidido, trocou o pneu com a chuva nas costas, essa brisa que deixou nele palavras afônicas. E mais tarde no happye-hour, com os amigos que restam, estava mudo. Reescrevia na cabeça uma dedicatória e o presente de Julia a levaria como se fosse uma carta.

No outro dia sorveu a manhã com chá de gengibre. Ele já sabia que a voz iria acabar de vez no meio de alguma aula na qual desempenaria o aço de uma análise machadiana para uma classe absorta no celular ou na investigação sobre seu brinco indolente prata sob o cabelo desgrenhado calvo shampoo anticaspa e citação em francês da aluna sobre a politonalidade, changez tout não é professor? Sim, o contrabaixo noutro tom. -- No carro, depois, à toda na ponte, o vão central com aquele som do Otto bateu numa saudade de Julia, saudade de todo dia. Só que pior. 

Changez tout pour toi te lever no mundo que apaga sobre os livros abajur cabeceira sem camisa os olhos lentos óculos de perto e a janela fechada o vencimento do cartão entre a estante virtual dois Luiz Ruffato um Joca Reiners Terron um Michel Laub um Rubem Mauro Machado e quatro João Gilberto Noll. Apaga-se o dia, o papo reto prumo venal dos homens no bar inofensivo; seu carro e a lenda do Dodge Charger de seu pai, ainda carburado; sua alma de homem seu corpo de palavras pensadas, e sua voz impublicável distraída pra morte saindo do carro para a calçada, até ultrapassar chegar vir ao nome, que importa mais a chuva?, tinha uma vaga em frente e dessa vez não pensou duas vezes.  

Ele sonha que entra pelo prédio de Julia e sobe até a cobertura, onde a avista na beira da piscina. Rodeada por amigos para os quais ela orna um descontraído Aperol, gesto e sorriso alças finas de mulher. A mania de morder um pouco o lábio inferior que ele carrega para o sono também molha um pouco a pedra que o faz escultura perdida anônima planta noturna homem que pensa how to disappear completely nessa madrugada sem paz no antigo neandertal em silêncio até acordar com as costas suadas. 

Vim pela angústia de saber que tinha sonhado, depois do alinhamento eletrônico na oficina a avenida não acabava mais até que estacionei o carro tinha vaga bem em frente e chovia leve devastadoramente o elevador demorava o big bang e subi pelas escadas mesmo como se fosse atleta lembrava na hora daquela vez que estávamos de carro já quase noite e as nuvens um vestido roxo até que choveu forte sobre a cidade quando abri depressa a porta vermelha tinha um pessoal entrando no elevador que me olhou de relance e eu acho que demorei um pouco ali e não sabia muito o que estava fazendo não pensei num texto não pensei bem no Aperol que era amargo ou doce isso foi ontem

05 janeiro 2019

Ponte

201.

“Only our hearts, know how much love is there”
Paul McCartney


Sal que o trânsito nervoso rescende. Suor, pós-meio-dia, no posto Moby Dick com a bolsa cheia de papéis e uma garrafa de alumínio azul na lateral, e as contas molhadas por causa da chuva, as que estavam na mão junto com o livro, e clicando o streaming do Jeff Beck best of beck se lembrava, correndo pro Uber, debaixo da chuva carinho leve, que nunca fumou maconha na universidade. 

O motorista Kevin nome real surfa pela ponte na Play List The Police every break you take em dezembro e a belíssima canção da tarde agora vai descer do meio-dia demônio do eu com o poema do REM quando everybody hurts, no que o professor comenta; Mas Kevin, essa tua playlist tá mesmo fodástica; Tem que ser, Professor. Lá fora o mundo pode acabar que aqui tem ar condicionado e rock. E vem alive o Pearl Jam do lado de cá do vidro, e a aula sobre multiculturalismo acampa no tempo da cabeça do Professor, o hipocampo desguarnecido que a memória também habita, edita na face do homem-linguagem a lembrança dos alunos querendo nota pra passar de ano esquecendo vírgulas Erínias pústulas de uma mitologia que não se esquece num gosto de sol numa cidade estrangeira, Milton. É música junto com artes visuais, Professor? Sim Henrique, igual no seu celular. Afinal o Grafite é arte ou crime? Silêncio, classe.

Muitos azuis refratam granulados pelo vidro; essa multidão é um homem e lembra do engenho no muro da acrópole pixada com uma vulva em três riscos doces e um ponto numa foto. A consciência é uma voz no mural da história da Arte pelo copy and past do trabalho sobre Basquiat, e o vidro com insulfilme tem um corte do real que não cicatriza nem com chá de aroeira. Olha, daqui a cidade é alta, Professor. É mesmo, Kevin. O professor cogita o logos, reexiste enquanto Kevin fala da Play List; e na rádio-cabeça lembra daquela música, pensa em ligar para A sem saber o que dizer além da saudade de sua voz rouca e do ciúme de sua viagem até Roma. Olha a vista negra de película pro lado direito, o do oceano encantado de saudades de uma outra vida inexistida. Homem alado de cá do mundo.

Descendente do meio-dia a ponte é um In Rainbow de concreto e Kevin dirige rápido e brinca que foi Pinóquio quem disse que seja rico seja pobre o velhinho sempre vem. É dezembro, Kevin rs. O professor puxou a garrafa azul e bebeu um gole dágua com medo que o trânsito na ponte parasse e a angústia no peito da tarde fosse como uma asma no claustro do mundo bom enquanto Kevin contava que conseguiu ir com a namorada no show do Radiohead no Rio:, mas quando chegou lá, uma tal amiga da moça, uma que antes sempre tava sorrindo de repente fechou o tempo na balada, e ele teve que chamar o deixa disso, sair de cena mais pra geral. Eu já não entendo minha mulher agora tenho que não entender as amigas dela também, cara. Silêncio no carro. Na cabeça do professor o inteiro se parte na dor central da história um vão do sentimento fora de si. O ridículo da vida. Todas as coisas faladas para a turma do terceiro ano sobre a Nova Yorque década de 1970 e os recados de SAMO e as bandas de rock e o tempo adicto e a porrada da polícia e a avareza das galerias e a música no início de tudo e o quadril da Madonna e o Jazz de Dizzy Gillespie e o gênio de Miles.. tudo envelhecia no cenho do homem qual fechamento de pautas e a solidão de acreditar que daria tempo. 

A verdadeira solidão é a da fé, ela nos modifica o deserto. 100 Km/h: Acreditava que não ficaria preso no trânsito, o tempo avaro chegava ao vão do intervalo das aulas nas férias e lembrava de sua moral e cívica dos homens vitoriosos olhando o mar; ele mesmo fora um dia aluno do primário à pós-graduação num contínuo de moer cérebro organizar o cérebro dividir os lugares das perguntas como são os supostos lugares do cérebro como uma bolsa organizada e o plágio no desejo das pessoas escrevendo dissertações e teses cada vez mais uma deep web de si. Devaneava livre no corpo que voa por sobre o oceano os pelos das pernas por baixo do jeans velho da Levi’s, mais à Mulher que à Musa era um homem duro em seu súbito planalto, e se sentia nos braços tenros de A, e o volteio dos seus pela cintura que a fazia silhueta no vestido de abrir da Cantão, quando ela chegava o rosto perto do seu, e passando as mãos em seu cabelo, um vagar para trás das entradas do tempo de sua calvície de homem comum, e olhava bem em seus olhos, perfume exalado, mais como quem encontrava a mulher que para ele existisse do que quem o procurasse para dirimir o desejo num erro possível de aperceber, classificar. Professor, ali na Praça do Cauê pode estar engarrafado. Segue em frente, Kevin, vou te aplicar uma Play List também, Groove Armada, Massive Attack, Zero 7; Quem? É rock? Também. Então escuta The Cult, uma chamada American Horse. Essa eu conheço, Professor. 

Quem sabe um dia uma MPB; hehe isso acabou, Professor rs 

Depois do pedágio pago, o calor que aproxima o verão está como aquele filme lá fora, lá, outro lado do vidro o Baile Perfumado com Lenine e guitarra no Cinema Estação há eras, o Cinema de Retomada de Pernambuco, o Guimarães da diplomacia à literatura, o Radamés em sonho com o Guinga encordoado, o Chico maior do mundo e o Caetano genial antes de todos, e o Debussy no caminho de Tom Jobim quis pousar não deu voou, a matéria está dada.. A matéria vem de lá numa viola caipira até o Led Zeppelin e a viola amarantina e o Nelson Cavaquinho submundo do samba, e o ponto final o resumo desse samba em João Gilberto; Enfim Kevin..; Meu irmão também foi pra América, Professor.. o sr dá aula de quê? Tô pensando, pra viver em Vitória a gente tem



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