05 maio 2016

ilha sonora

semibreve roxa
teu carinho sensível
colore-me a lâmina no coldre
de homem do parreiral.
∑rro no campo
sem o teu erro
na tarde floral,
la mélange fort, inesquecível.

semileve e terra
és o gosto de uma lua,
és meu rosto no sol.
a invenção sem partitura
que a tarde gravará
nas coisas simples.
(everyday we find the way).

os discos, os outros remixes
do eclesiastes,
los libros de la noche
que la ciudad habita
nos dizem outros, estandartes.
a letra que o amor edita

11 abril 2016

Canção em voz baixa

Na descida da Gama Rosa você estava na calçada daquele bar e conversava numa mesa com o Antônio das Mortes Mirim, e a Moça tatuada nas costas. Glauber erigia do antro de luz rosada e gesticulava, Heineken na mão, voltava para a mesa de vocês, onde também estava aquele rapaz cineasta. A Cidade Alta acesa na última noite de inverno até que passei pela Professor Baltazar, onde um carro branco com um adesivo de sol acendia a luz de freio encarnada. Na aragem malévola da queda, ergui os olhos para os prédios de Maria do Carmo Schwab entre a mansidão dos alvéolos de Sylvia Plath, um Salmo ou as capas de ar que o pássaro de asas negras desvela em noite profunda, escura como as janelas de jacarandá da casa do Barro Vermelho que me vem sobre o capacete negro quando giro e giro e giro num acidental espaço encantado, Boi-Tatá de esperanças gastas de homem rude, baio, vasto promontório, manco, beijo na boca ou viola de arame, e as bengalas prateadas dos amortecedores da moto se irrompiam sem mais tempo numa doce escoliose e desferiam-me facas quando os retentores de óleo em vazamento ou poema me entravam pelo abdome. Assim, no campo aberto do Parreiral decadente das eras me voei tempo verbal de angustioso chão ou simples pássaro flutuara negro e leve sobre a noite, já sobre uma Camburi devastada pela poluição das próximas gerações até que acordei sem volta, e cá estava. Agora, no escritório, escrevo-reescrevo o grande formulário de impropérios acadêmicos, mas o contratexto vem no cenho tal sexteto de cordas, tuas palavras na ponta avara da tua língua: é o escuro desse palavreado que musico sem querer, no quanto te sorvo com a língua a cintura, as costas, e tua voz rouca; e se na escuta dessa orquestra imaginada em meu texto estanco e impregno de café qual viciado com caneca de ágata, depois novamente exato na leitura bíblica aceito os óculos com mãos que atravessaram o deserto e neles pensam tocar a réplica de um jarro d’água, que Heidegger esvaziou. Corpo cansado que nunca mais. Venho de muito longe na vida, tempo de outras cantorias, outros afazeres me encontraram no corpo sem baile e se de súbito me acordam para o real aquém do onírico sou o démodé das gentes, noutro tempo em que o centro histórico da cidade nem era a história que nos desarma e deflui a essência das línguas dos tempos e tanto a cidade quanto o interior que nos habita em segredo inventam o mundo e o cheiro da terra, e o piano velho, a voz arranhada do João Barro, a cachoeira deslizando eira nem beira num sábado, a avenida que noutra metrópole é fluxo de nascente interpretação da argila, a asa do verbo que nos vem ainda misericórdia ao mesmo que nos arranca do outro a paz do silêncio: meus passos na ponte sobre o escuro estão à caminho da linguagem em cima do vidro. Ao largo disso, o abominável presente me faz o abismo; aos poucos amanhece uma lâmina e absorvo o dia com um corte quando evoco os melismas sonoros de um Elomar lançado ao bucho do céu que se abre terceiro e margem como o rio que é meu pai na escrita de Guimarães. No seco dos dicionários não encontro palavra para mim. Sou o homem do interior, o motociclista urbano, a casa com varanda e rede, a voz que corta quanto mais é baixa toada, oração, sacanagem. A cidade não se deu por minha morte, ontem, hoje, no Eclesiastes depois de amanhã. Estou livre    


18 janeiro 2016

Escrita

Equilibro na poltrona giratória, rapsodo sem lua, e a devastação da noite deixa uma ferida sem trova. Urbano, meu corpo magro é provado na engenharia de Dédalo e a noite sonora é vocálica beleza a qual desvia o fluxo dos carros da Av. Cézar Hilal, quando das nuvens a sobrevoo rasante com as asas negras abertas. Noite enfeitada pelas voltas ou círculos acima do trânsito que de cor e som se amalgama e me pensa pássaro quando vejo o trajeto da avenida em luminares.

É minha escrita semibreve, e também longa notação que toma o compasso luíssima voz; quem sou o cantador envolto em mistérios recordadores da história dos errantes, o passo heroico e andrajoso, o coloquial que a viola de arame ponteia no vento inculto dos bardos ou a sagração de uma vocalize a perecer no presente ao mesmo que é nele viva e domina a letra. Óh, homem vestígio dos violeiros, o ermo que se esvai no vazio do mundo, és alfabeto a ser ventado de esquecimento em si mesmo lembrança; homem velho e futuro, que o sopro terral lambe os pelos das pernas se a noite escura da praia aponta para o interior de um Brasil. Amanhece e se apaga a última Stella Artois, agora ando perdido na orla sobre as conchas; noutra cena corro sob o sol do Eclesiastes, suado corpo que sai, e estanco no píer a desidratar em fotografia uma cantiga de pescadores.


Em minha jornada meu nome é também escritura desértica de lendas perdidas enquanto repito para o mundo a oração com vícios entronizados: Rude e singela é a noite na terra, e as estrelas habitam um céu logaritmo natural; de maneira multiplicada também eu me disperso, vôo por sobre o descampado da cidade. Como um Ícaro noturno espero a alvorada para ir cair por sobre o mar. Em minha humilíssima biblioteca giro na poltrona e rapto nos livros uma interjeição, teu fonema. Não existe nada nos livros além de nós mesmos. Vasto é o chão que a terra não me desvele no que se encrustará minha Alexandria particular; enquanto escrevo entre as estantes brancas o pássaro noturno sobrevoa a Cidade Alta: a Professor Baltazar pela contra-mão, a Gama Rosa e o tobogan de cimento dos motociclistas, a Cel Monjardim e o aristocrático Ed. Fabíola. Do alto vejo personagens do meu livro nos bares quando se divertem sem saber de sua presença coadjuvante em nossa soir historique. Sou o homem da terra, tal é a exatidão do quanto descolocado está o sonho no ar; sinto o gosto tenro da carnação da lua na boca. O campanário em minha mesa aos poucos desvanece no real contínuo do trabalho, da gesta, da exclusão dos vencidos pelos historiadores, da surdez ao canto em eco dos velálicas cansados, do desconforto ante à altivez rural dos cantadores.

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