Equilibro na poltrona
giratória, rapsodo sem lua, e a devastação da noite deixa uma ferida sem trova.
Urbano, meu corpo magro é provado na engenharia de Dédalo e a noite sonora é
vocálica beleza a qual desvia o fluxo dos carros da Av. Cézar Hilal, quando das
nuvens a sobrevoo rasante com as asas negras abertas. Noite enfeitada pelas
voltas ou círculos acima do trânsito que de cor e som se amalgama e me pensa
pássaro quando vejo o trajeto da avenida em luminares.
É minha escrita semibreve, e
também longa notação que toma o compasso luíssima voz; quem sou o cantador
envolto em mistérios recordadores da história dos errantes, o passo heroico e
andrajoso, o coloquial que a viola de arame ponteia no vento inculto dos bardos
ou a sagração de uma vocalize a perecer no presente ao mesmo que é nele viva e
domina a letra. Óh, homem vestígio dos violeiros, o ermo que se esvai no vazio
do mundo, és alfabeto a ser ventado de esquecimento em si mesmo lembrança;
homem velho e futuro, que o sopro terral lambe os pelos das pernas se a noite
escura da praia aponta para o interior de um Brasil. Amanhece e se apaga a
última Stella Artois, agora ando perdido na orla sobre as conchas; noutra cena
corro sob o sol do Eclesiastes, suado corpo que sai, e estanco no píer a
desidratar em fotografia uma cantiga de pescadores.
Em minha jornada meu nome é
também escritura desértica de lendas perdidas enquanto repito para o mundo a
oração com vícios entronizados: Rude e singela é a noite na terra, e as
estrelas habitam um céu logaritmo natural; de maneira multiplicada também eu me
disperso, vôo por sobre o descampado da cidade. Como um Ícaro noturno espero a
alvorada para ir cair por sobre o mar. Em minha humilíssima biblioteca giro na
poltrona e rapto nos livros uma interjeição, teu fonema. Não existe nada nos
livros além de nós mesmos. Vasto é o chão que a terra não me desvele no que se
encrustará minha Alexandria particular; enquanto escrevo entre as estantes
brancas o pássaro noturno sobrevoa a Cidade Alta: a Professor Baltazar pela contra-mão,
a Gama Rosa e o tobogan de cimento dos motociclistas, a Cel Monjardim e o
aristocrático Ed. Fabíola. Do alto vejo personagens do meu livro nos bares
quando se divertem sem saber de sua presença coadjuvante em nossa soir
historique. Sou o homem da terra, tal é a exatidão do quanto descolocado está o
sonho no ar; sinto o gosto tenro da carnação da lua na boca. O campanário em
minha mesa aos poucos desvanece no real contínuo do trabalho, da gesta, da
exclusão dos vencidos pelos historiadores, da surdez ao canto em eco dos
velálicas cansados, do desconforto ante à altivez rural dos cantadores.