do
café eu lhe escrevo outro e tempo. última folha que eu tinha. o pretérito
perfeito macunaíma roubou fingindo ser o saci, estou entre aposentados
telespectadores. hoje não tem chuva, é um sol que o real queima em hélio e
hidrogênio e que tua silhueta à noite refletirá a luz num delay encarnarnado na
praça. também finjo que não sei que o centro da praia é decadente e que estou
velho, e vou ficar mais. ao flanelinha que pouco se importa com minha moto na
contramão, digo que logo voltarei, iniciando o errático retorno dum círculo das
quintas com acordes vagantes na cabeça, Dm | Am | C | Em. a afinidade entre
tonalidades, o carinho. acabei adormecido na rede verdemusgo, aquém de onde a
semibreve rosa da tarde campeava embaralhando teu cabelo na praia jovem, bela
num drible, e em meu memorial particular causaria aquele poema de baudelaire
modernista, ta tête, ton geste, ton air. deixo de usar aspas por nutrir a
cafeína de uma esperança de que o novo século me venha na veia: nada me livra
do tears for fears: e do pretérito monte com as antenas de tv, onde eu e meus
amigos iríamos contemplar o poente da cidade, outra e esma cidade. pois que
cheguei ao castelo e minha malha de aço me fazia o deserto sob o sol da tarde.
sabendo que na sequência iria ao próximo jogo de sinuca eu me preparava para o
entroncamento de palavras de kaspar hauser, a vaidade de jonny, as críticas
politizadas de marlon, os comentários precisos de ulisses. esses odiernos,
quanto substituem aqueles amigos de juventude que admoestando a trilha arguta
desmascarada por renato russo se tornariam advogados tributaristas, financistas
em manhattan, diplomatas, empresários do turismo, engenheiros ex-alunos de meu
pai, poliglotas analistas de sistemas para grandes corporações dominando o
leste europeu. e todos geniais. everybody wants to rule the world. sim carlos,
eu que não sou poeta também vim ser gauche na vida. e hoje a noite é a
preparação da oficina de desenho ou de música, que no meio, eu sei, citará o
apud do eco joyceano de um sintoma devastado às sextas-feiras, amanhãs
amanharás. empunhando minha correspondência fui em direção à passarela que
levava ao promontório. o jovem guardião colocou uma caneta bic no balcão, vai
escrever alguma coisa? rapidamente olhei o papel pardo, argumentei,.. eu escrevi,
está aqui o nome, é... ah, sim.. a calma de quem não vê palavra alguma, e sabe
que elas faltarão. indaguei o nome desse arauto no momento em que uma dona com
botox veio em busca do pavimento em que encontraria o consultório da
dermatologista, que eu conhecia. agradeci um valeu que voltou quando eu já
estava no entreelevadores por onde subiam lordes e novas madames e passei
novamente pelas tábuas de imbuia da ponte suspensa que deixava para trás as
paredes largas de pedra. o dia estava lindo, olhei pra cima e contei as janelas
na vertical, depois seguindo com os olhos para a direita fui avançando até o
ponto em que acordei: estávamos no cinema, as poltronas vermelhas nos
assistiam: na imensa tela em uma outra tarde andávamos na praia, sobre a qual
discutíamos com palavras doces, cada um arrazoando saber exatamente qual o
logradouro. com o gps do meu celular eu te mostrei onde estávamos e você, sem
qualquer argumento além da felicidade, disse que não. como eu estivesse à tua
frente e contra o vento você arou nos dedos meu cabelo todo para trás das
entradas da testa, o olhar direto. perfume. chegou bem perto e disse que não
iria tirar a venda dos meus olhos agora.
19 fevereiro 2013
31 janeiro 2013
o olhar
a
rua aquieta assim, noturna, o resto de ginga é década décadence avec elegante.
coisa da minha geração. saio no sinal, presente do indicativo making mirrors de
gotye, se acelero no entanto o trenzinho caipira me vem uma devastação cantiga
de rodamoinho. entro pela contramão até acertar a garagem da cel monjardim,
olho acima do vale do carmo e a lua cheia que pende o cimo do meu olhar incauto
é qual luminária balançando no vento. dança. a cara de mármore do prédio dos
meus pais me espera com a nostalgia das salas enormes que perderam querelas
festas de madrugar madeira de lei na tábua corrida, o jacarandava pra sonhar um
futuro naquela biblioteca, e hoje que estou triste não sei que lhe escrevo
pássaroavuô daqui do mac sobre a peroba mica até teu chá rosa, perto da mesa
bonita de demolição. e quando também lhe fizer serenata da praça a música
pópular brasileira não me acorda do brasil, tanto menos do texto destrinchando
o olhar na companhia das letras difíceis. auto
inexistente verde musgo, carro do qual lhe vi a regressar da planície onde
galopavas com outras musas também raptadas por corcéis encantados, vc e outras amazonas que
não desejam domar a força de uma doce síndrome de estocolmo. atravessavas a
rua contra o tempo. chuva. tua voz, que não vou comentar, eu também decorei,
mesmo com o grito em muting meu stand by retórico não deu conta e voltei
atrapalhando o trânsito. ali pela outra rua onde alguém pichou que nieztsche
está morto. se não me engano morto sem o s. como não lhe encontrasse, velei
pelo meu caminho um desvio arrancando de chronos nova tentativa de chegar ao
castelo longíncuo em que talvez habitasses aquela mesma tarde, radiante de nós
por algumas horas. nosso desencontro é pura ilusão. pela coleção de sonhos em que
insurges tuas frases certeiras as vezes me lançam inesperado jongo de raíz
quando acarinham no apogeu uma citação dos ramones. conversa rápida. chovia e
vc parou de falar, só me olhou bem fundo. vc perguntou assim na lata o que era,
porque eu estava assim baudelaire desbotado da ellus. se era o tempo. se eu
queria trocar a música que não ouvíamos enquanto chovia sobre bento ferreira.
água desesperada mas dentro do carro chet baker cantava com um silêncio de
beijo, um som que depois de um tempo eu te disse, aquele gosto azul é rosa
também. chuchuchuchu lá fora. vc revidou, vc e seus vestidos, dizendo que meus
lábios são secos, mas eu gosto de sorrir. que eu sou egocêntrico. que eu não
tenho como prender toda essa tristeza, e aquelas noites de festa e os móveis, o
piano que aos cães desafina. que o olhar agudo dessa noite é bem maior que nós.
que vc gostou quando me viu chegar.
24 janeiro 2013
canção que vai chegar
discurso com gestos de glauber bermuda
jeans até os joelhos com os pelos das pernas desenhados pela água enquanto lhe
explico sob a chuva rala, as maserati tem o emblemático tridente da lança de
netuno no radiador. o ronco é mesmo igual à do filme em que o homem que só tem cabeça
sorri, bonito e jovem esportista radical do século passado. intocável. tirando
o resto de franja da testa aponto navio faço cara origem da tragédia e por
momento a nietzschiana filologia dos out doors é sinistro poema neoconcreto. o
pássaro de asas negras rasga a praia qual filme enquanto anoitece trilha sonora
de ennio morricone e num pedestal de areia desnovelo amenidades do trânsito,
comento o futuro de uma cidade anódina, de outro tempo trago a tez da geração
sem dor ou arte, embrenho as mãos nas nuvens ao reger a fabulosa orquestra que atravessa
ao poente nos desvelamentos à caminho da linguagem que o desejo atonal apraia,
derrama até o colorário rosado ser a tônica de gosto e sal. o ar ferroso nos
envolve a morte certa dessa tarde, o segredo bonito que ela tem enquanto o
choro do vento sul arranha minhas costas com o carinho de medo nas unhas superficiais.
não é sonho. vôo camisa preta mangas compridas etiqueta fora do jeans velho
magrelo, sinto de couro marrom de fivelas prateadas, cabelo desgrenhado desde
aquela década, carta náutica de uma última viagem noite de lua: sobre as
cidades, onde os falsos problemas esvaem e o sr. whitman joga folhas na relva
dos telhados das casas burguesas já demolidas, silenciadas, modernas, perdidas.
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