19 fevereiro 2013

quinta-feira


do café eu lhe escrevo outro e tempo. última folha que eu tinha. o pretérito perfeito macunaíma roubou fingindo ser o saci, estou entre aposentados telespectadores. hoje não tem chuva, é um sol que o real queima em hélio e hidrogênio e que tua silhueta à noite refletirá a luz num delay encarnarnado na praça. também finjo que não sei que o centro da praia é decadente e que estou velho, e vou ficar mais. ao flanelinha que pouco se importa com minha moto na contramão, digo que logo voltarei, iniciando o errático retorno dum círculo das quintas com acordes vagantes na cabeça, Dm | Am | C | Em. a afinidade entre tonalidades, o carinho. acabei adormecido na rede verdemusgo, aquém de onde a semibreve rosa da tarde campeava embaralhando teu cabelo na praia jovem, bela num drible, e em meu memorial particular causaria aquele poema de baudelaire modernista, ta tête, ton geste, ton air. deixo de usar aspas por nutrir a cafeína de uma esperança de que o novo século me venha na veia: nada me livra do tears for fears: e do pretérito monte com as antenas de tv, onde eu e meus amigos iríamos contemplar o poente da cidade, outra e esma cidade. pois que cheguei ao castelo e minha malha de aço me fazia o deserto sob o sol da tarde. sabendo que na sequência iria ao próximo jogo de sinuca eu me preparava para o entroncamento de palavras de kaspar hauser, a vaidade de jonny, as críticas politizadas de marlon, os comentários precisos de ulisses. esses odiernos, quanto substituem aqueles amigos de juventude que admoestando a trilha arguta desmascarada por renato russo se tornariam advogados tributaristas, financistas em manhattan, diplomatas, empresários do turismo, engenheiros ex-alunos de meu pai, poliglotas analistas de sistemas para grandes corporações dominando o leste europeu. e todos geniais. everybody wants to rule the world. sim carlos, eu que não sou poeta também vim ser gauche na vida. e hoje a noite é a preparação da oficina de desenho ou de música, que no meio, eu sei, citará o apud do eco joyceano de um sintoma devastado às sextas-feiras, amanhãs amanharás. empunhando minha correspondência fui em direção à passarela que levava ao promontório. o jovem guardião colocou uma caneta bic no balcão, vai escrever alguma coisa? rapidamente olhei o papel pardo, argumentei,.. eu escrevi, está aqui o nome, é... ah, sim.. a calma de quem não vê palavra alguma, e sabe que elas faltarão. indaguei o nome desse arauto no momento em que uma dona com botox veio em busca do pavimento em que encontraria o consultório da dermatologista, que eu conhecia. agradeci um valeu que voltou quando eu já estava no entreelevadores por onde subiam lordes e novas madames e passei novamente pelas tábuas de imbuia da ponte suspensa que deixava para trás as paredes largas de pedra. o dia estava lindo, olhei pra cima e contei as janelas na vertical, depois seguindo com os olhos para a direita fui avançando até o ponto em que acordei: estávamos no cinema, as poltronas vermelhas nos assistiam: na imensa tela em uma outra tarde andávamos na praia, sobre a qual discutíamos com palavras doces, cada um arrazoando saber exatamente qual o logradouro. com o gps do meu celular eu te mostrei onde estávamos e você, sem qualquer argumento além da felicidade, disse que não. como eu estivesse à tua frente e contra o vento você arou nos dedos meu cabelo todo para trás das entradas da testa, o olhar direto. perfume. chegou bem perto e disse que não iria tirar a venda dos meus olhos agora. 

31 janeiro 2013

o olhar


a rua aquieta assim, noturna, o resto de ginga é década décadence avec elegante. coisa da minha geração. saio no sinal, presente do indicativo making mirrors de gotye, se acelero no entanto o trenzinho caipira me vem uma devastação cantiga de rodamoinho. entro pela contramão até acertar a garagem da cel monjardim, olho acima do vale do carmo e a lua cheia que pende o cimo do meu olhar incauto é qual luminária balançando no vento. dança. a cara de mármore do prédio dos meus pais me espera com a nostalgia das salas enormes que perderam querelas festas de madrugar madeira de lei na tábua corrida, o jacarandava pra sonhar um futuro naquela biblioteca, e hoje que estou triste não sei que lhe escrevo pássaroavuô daqui do mac sobre a peroba mica até teu chá rosa, perto da mesa bonita de demolição. e quando também lhe fizer serenata da praça a música pópular brasileira não me acorda do brasil, tanto menos do texto destrinchando o olhar na companhia das letras difíceis. auto inexistente verde musgo, carro do qual lhe vi a regressar da planície onde galopavas com outras musas também raptadas por  corcéis encantados, vc e outras amazonas que não desejam domar a força de uma doce síndrome de estocolmo. atravessavas a rua contra o tempo. chuva. tua voz, que não vou comentar, eu também decorei, mesmo com o grito em muting meu stand by retórico não deu conta e voltei atrapalhando o trânsito. ali pela outra rua onde alguém pichou que nieztsche está morto. se não me engano morto sem o s. como não lhe encontrasse, velei pelo meu caminho um desvio arrancando de chronos nova tentativa de chegar ao castelo longíncuo em que talvez habitasses aquela mesma tarde, radiante de nós por algumas horas. nosso desencontro é pura ilusão. pela coleção de sonhos em que insurges tuas frases certeiras as vezes me lançam inesperado jongo de raíz quando acarinham no apogeu uma citação dos ramones. conversa rápida. chovia e vc parou de falar, só me olhou bem fundo. vc perguntou assim na lata o que era, porque eu estava assim baudelaire desbotado da ellus. se era o tempo. se eu queria trocar a música que não ouvíamos enquanto chovia sobre bento ferreira. água desesperada mas dentro do carro chet baker cantava com um silêncio de beijo, um som que depois de um tempo eu te disse, aquele gosto azul é rosa também. chuchuchuchu lá fora. vc revidou, vc e seus vestidos, dizendo que meus lábios são secos, mas eu gosto de sorrir. que eu sou egocêntrico. que eu não tenho como prender toda essa tristeza, e aquelas noites de festa e os móveis, o piano que aos cães desafina. que o olhar agudo dessa noite é bem maior que nós. que vc gostou quando me viu chegar.

24 janeiro 2013

canção que vai chegar


discurso com gestos de glauber bermuda jeans até os joelhos com os pelos das pernas desenhados pela água enquanto lhe explico sob a chuva rala, as maserati tem o emblemático tridente da lança de netuno no radiador. o ronco é mesmo igual à do filme em que o homem que só tem cabeça sorri, bonito e jovem esportista radical do século passado. intocável. tirando o resto de franja da testa aponto navio faço cara origem da tragédia e por momento a nietzschiana filologia dos out doors é sinistro poema neoconcreto. o pássaro de asas negras rasga a praia qual filme enquanto anoitece trilha sonora de ennio morricone e num pedestal de areia desnovelo amenidades do trânsito, comento o futuro de uma cidade anódina, de outro tempo trago a tez da geração sem dor ou arte, embrenho as mãos nas nuvens ao reger a fabulosa orquestra que atravessa ao poente nos desvelamentos à caminho da linguagem que o desejo atonal apraia, derrama até o colorário rosado ser a tônica de gosto e sal. o ar ferroso nos envolve a morte certa dessa tarde, o segredo bonito que ela tem enquanto o choro do vento sul arranha minhas costas com o carinho de medo nas unhas superficiais. não é sonho. vôo camisa preta mangas compridas etiqueta fora do jeans velho magrelo, sinto de couro marrom de fivelas prateadas, cabelo desgrenhado desde aquela década, carta náutica de uma última viagem noite de lua: sobre as cidades, onde os falsos problemas esvaem e o sr. whitman joga folhas na relva dos telhados das casas burguesas já demolidas, silenciadas, modernas, perdidas.

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