25 novembro 2010

Tengo una canción para mostrarte

sou nada
irei passar
quando o tempo vão voltar

sou água
chuva e verbos
banais que irão faltar

sou água
pedra par
café corte e horário fraco

sou pedro
galo e estilo
cabelo de joão batista

joão doce
ou moisés de azilo
sou o tesão capitalista

componho
sou o que cantei
fiz você chorar

apolíneo blá blá
boi dormir
sou pra você dar

eu sei
antevi sei que dói
sou a novela de baco

quando vens
sou no veludo erudito
selvagem surto arte revista

memória desejo
depois teu riso pra mim
sou do muito desde o naco

ou cosmo
do monstro que me habito
sou machista

onde dançavas
tuas palavras outra língua
sou exato praia ar

contemplo
nuances que a lua míngua
sou e não tenho lugar

24 novembro 2010

Instrução colateral

Corroer pela lei do cão no mosto. Exortar ao dia nublado em francês. Sanar o poder dos galos do terreiro. Respirar a voz doce dos hipócritas. Reverter o cursor na rosa dos ventos. Disparar a metáfora nos homens rudes. Ouvir as palavras do léxico pífio. Desligar o alarme cozendo a fronteira hirta. Cumprimentar a toa os que amanhã não retribuirão. Admitir a ajuda dos gerentes cegos que riem da cosmovisão na escuta. Apetecer o sorriso meneio de calva em arquivo dos corvos experientes sem terno Hugo Boss. Desmontar a estrutura de melismas e vocalizes. Pintar a sinceridade kitsch no signo das mercadorias. Revelar o sonho das copas das árvores. Conter o tufão violento no claustro. Meter o grito da Musa lá dentro do acorde vagante. Reprisar os filmes de John Ford. Depurar a etiqueta em declínio em respeito aos frangos sem esporas. Volver exausto pelo caminho sem pedras. Enaltecer o riso mesquinho dos bondosos que vieram mentir para nós no casual day. Extinguir a fala quando o Sol da tarde campeia terrível. Aspergir um verbo transitivo sobre o descampado de outro texto. Elaborar o fechamento de um simulacro com horas treinadas. Avançar pelo pulso na escola das facas.

23 novembro 2010

the dead

Sempre detestei dormir. Aceitar o efeito do tempo, o horário que nos sobreviverá. Sempre perguntei aos jornais, aos amigos que se foram e dormem, ao silêncio.

...A casa grande, o quintal cheio de mangueiras, as janelas modernistas daquela arquitetura. O barro vermelho que nos lavava do pó ao pó quando chovia. E estávamos quietos... bicicleta Monark, Dodge Charger capota preta do meu pai, o autorama Revell de colecionador, os livros, enciclopédias, os discos de Beethoven...

A infância sem fazenda do menino urbano retroage o signo sal efêmero da terra e o meu Beto Guedes cantará quando entrar setembro. Sempre perguntei aos jornais onde eu estaria, esses periódicos que em mim habitam porque os edito em meu amor ganancioso enquanto me esqueces, rua esquálida... desmemoriada de nossas casas, enquanto calas meus desejos e vícios para entregá-los em ausência às novas gerações e seus transeuntes, que não poderão saber de nossa história.

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