19 abril 2008

O contrário inteiro vasto

Experimentando guache escuto a tarde olho encadernações e LP’s.. O vento nordeste passa o rosto no pelo das árvores abre atravessa.. A tinta lava e borra tão gostoso que dá êxtase em algum lugar eu li agite antes de usar depois enfiei o dedo todo na tinta rosa e saí espalhando cor no papel canson.. Em seguida fiz um café forte, pensando usar tinta acrílica nuns traços com mais certeza da matéria até inchar fosco, crescer, vir fora.. Noutros lugares lápis aquarelado, coisa mais doce, menos intelectual.. mas só depois de usar cera negra em cima do guache branco e lavar com água... dar efeito de filme em negativo.. Queria esse, feito na vida Real.. Espalhar por sobre a cidade um negativo exato; o contrário inteiro vasto. Para o que é ilha um continente. Para a bondade o que é decente

08 abril 2008

Corações Vespertinos

Espero. A calmaria da tarde. O implacável motor da 125 do homem vizinho. Porteiro do prédio comendo pão da tarde. E as pradarias que transam no muro do condomínio não sofrem. A senhora que procura o Sr. Eliseu. Orelhão perto do bebedouro Masterfrio. Adolescente de 35 anos que sai para malhar. Camisa do colégio americano. Paz da tarde. Paz mortal. Rabisca no cahier d’artiste o cenário Art Dèco, o pós heavylove, a falta de inspiração. O aluno que não está, este será o seu nome, não surge por encantamento na portaria. Encantos não existem mais e Mark Twain fique lá. Onde o Magaiver não me ensina a desatar os nós, e a força borromeana que empurra o homem velho até o bloco k é uma ninfa. A dona gorda que fuma dentro do Corsa velho, a chapa retangular no chão é da companhia de telefone, tudo é texto, personagem. O motoboy que chega (Tiago, da contabilidade) é tão provável que dá a esperança da clarividência. Meu cabelo comprido voa louco e joga nas costas o vento que as musas gostam de pegar com sal. Enquanto me contam estórias decifro-as a dor. Depois faço dormir, levanto. Olho para o céu

02 abril 2008

Cobaia

Seu Basílio falava conosco como a vida era difícil. Nós não acreditávamos em nada além dos verões. Quando Seu Basílio fazia café no apartamento ao lado, logo se ouvia a campainha, sabíamos que era o velho simpático, aposentado pela Companhia. Aceitávamos o convite atravessando o corredor do prédio até a cozinha geminada. Tínhamos a noção exata de uma prece, mas nos perdemos. Nossos pedidos foram aos poucos esmorecendo e ficamos arredios aos sonhos que não vinham colar realidades com remendos fantásticos, adjetivos que inventamos para juntar o que espalhado está na pouca substância do vento. Tudo o que não deixamos ir embora voltará. Foi quando Isabela começou a ler A Idade da Razão que essa antipatia intelectual começou a se espalhar entre nós como doença. Essa mania das histéricas de quererem ser intelectuais porque acham que um artista precisa de uma mulher assim, neurótica. Toda mulher bonita e inteligente pode ser complicada, não gostar de ser bonita, achar que tem coragem. Enfim, dar pra homens mais velhos tentando decorar romarias. Perguntar-se, o que estou fazendo com esse barrigudo? Ah, a memória é um istmo que algema várias liberdades a uma só prisão; na hora certa cortam mais um cenário com estilete. O rosto de Seu Basílio por vezes enrugava mais do que podíamos suportar, voltávamos então ao apartamento de Isabela, onde sua mãe estava a reclamar dos pés, a cara de aristocrática medusa sem perdoar meu brinco de prata. Eu queria sair dali e não ser a cobaia da classe média levando estocadas da televisão. Do outro lado da parede, Seu Basílio vivia sozinho com suas reclamações, a tentativa moral dos ex fumantes. Tinha feito alguns filhos que não o visitavam demais, algumas filhas que foram fora para não doer de lhe apresentar algum homem. É sempre o mesmo homem, não é? Naqueles dias, minhas impressões limitavam-se às chegadas, furtivas depois de ter acelerado em meu carro a lembrança heavylove de quando namorava outra musa, e atravessava a zona norte para vê-la, pisava no acelerador até encontrá-la; outra musa que eu não amava.

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