Seu Basílio falava conosco como a vida era difícil. Nós não acreditávamos em nada além dos verões. Quando Seu Basílio fazia café no apartamento ao lado, logo se ouvia a campainha, sabíamos que era o velho simpático, aposentado pela Companhia. Aceitávamos o convite atravessando o corredor do prédio até a cozinha geminada. Tínhamos a noção exata de uma prece, mas nos perdemos. Nossos pedidos foram aos poucos esmorecendo e ficamos arredios aos sonhos que não vinham colar realidades com remendos fantásticos, adjetivos que inventamos para juntar o que espalhado está na pouca substância do vento. Tudo o que não deixamos ir embora voltará. Foi quando Isabela começou a ler A Idade da Razão que essa antipatia intelectual começou a se espalhar entre nós como doença. Essa mania das histéricas de quererem ser intelectuais porque acham que um artista precisa de uma mulher assim, neurótica. Toda mulher bonita e inteligente pode ser complicada, não gostar de ser bonita, achar que tem coragem. Enfim, dar pra homens mais velhos tentando decorar romarias. Perguntar-se, o que estou fazendo com esse barrigudo? Ah, a memória é um istmo que algema várias liberdades a uma só prisão; na hora certa cortam mais um cenário com estilete. O rosto de Seu Basílio por vezes enrugava mais do que podíamos suportar, voltávamos então ao apartamento de Isabela, onde sua mãe estava a reclamar dos pés, a cara de aristocrática medusa sem perdoar meu brinco de prata. Eu queria sair dali e não ser a cobaia da classe média levando estocadas da televisão. Do outro lado da parede, Seu Basílio vivia sozinho com suas reclamações, a tentativa moral dos ex fumantes. Tinha feito alguns filhos que não o visitavam demais, algumas filhas que foram fora para não doer de lhe apresentar algum homem. É sempre o mesmo homem, não é? Naqueles dias, minhas impressões limitavam-se às chegadas, furtivas depois de ter acelerado em meu carro a lembrança heavylove de quando namorava outra musa, e atravessava a zona norte para vê-la, pisava no acelerador até encontrá-la; outra musa que eu não amava.
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