20 março 2008

Sujeitos

o nome ocultado quer prender o sujeito. Mas o verbo desconjurado ganha. O substantivo enluarado em ajetivo é frase flexionada, está no corpo. E a rapariga de vestido laranja tem um fogo submerso. Abusa de ser boa, rebola num gosto de manjericão o corte de texto que o poeta depois imprime, sente com a boca. Novesfora, uma matemática desesperançada reclama pontuação, pede força onde dói. Mas o carinho perpétuo das mãos sem alma faz de maldade o caminho de um barbeador no rosto. Sem letra maiúscula uma vírgula diz no ouvido que assim morre, que é bom errar, deixar o tempo vir. Ao largo de acadêmicos letrados, a construção do texto requer uma semântica de sonho, solo de guitarra, tudo que professores tentam tapar. Sem ensinamento possível, a beleza do encontro com a loucura escapa, faz o corpo, a carne, a língua sorverem o avesso de toda classificação, abandona os dois pontos fatais. Sem esperar critérios, a boca pensa poder dizer palavras. Traída pelos fonemas, reclama inexprimível, numa língua fugaz. Por cima dos livros na mesa, até derrubá-los no chão, o homem iletrável equilibra pensamentos de ponto e vírgula, faz contorcer o espaço entretexto até a moça chorar. Quando isso acontece, mesmo vencidas as reticências sem mais assunto, uma verdade ilumina do escuro, aceita versos brancos, respira o fundo possível dos pontos finais.

22 fevereiro 2008

Cine Lapa

...Joana passou por mim, mexeu no cabelo, disse que amanhã de tarde poderíamos andar no calçadão. Fiz que sim. Algo em suas palavras remetia ao mundo real que eu havia deixado; Meu apartamento, do outro lado da cidade, no escuro impenetrável, como se fosse o escuro de onde Joana apareceu, vestida para matar. Sua saia oferecia a meia calça preta, olor das profissionais. Por que você faz isto, um dia eu perguntei, estávamos na janela do meu quarto cinco da tarde e São Domingos ainda cantarolava o hino, devia ser terça-feira. É a vocação de toda mulher, disse.

Entrei e encarei a moça. Sua alienação ouvia o hino de São Domingos, eram umas oito da noite. O santo assanhando a plebéia. Ela recepcionista há meses, sempre com revistas de novela, pelas quais seguia capítulos antes de acontecerem; Ouvia o papo deputado do zelador. Uns caras seguindo até a porta: a canalhada; olhei para trás, num pavor, de ainda estarem ali, e estavam. O santo disse meia dúzia de rasgos, até coçarem sabendo que eu era do local. Olhei para ele, o rosto de agradecimento que tem os moradores da classe média quando vão ao circo pela primeira vez e encaram um elefante. Pisei no primeiro dos três degraus que elevam à escuridão do corredor de onde sairá Joana, vestida de puta. A moça deixará claro que é bem nascida. Deixará clara a minha pergunta, que farei um mês depois: por que você faz isso?

Entrou um homem gordinho chamado Domingos. A moça das revistas o informou que eu era inquilino do número 4. São Domingos limpava o corredor nas terças e quintas-feiras, cantarolava o hino nacional e recolhia o lixo. O apelido santo veio depois de sua intervenção na rinha em que Joana levaria na cara. Domingos chegava umas quatro da tarde na pensão. As vezes ficava mais cercando a moça. Era 1993, minha geração limpa; A eleição do Collor, alguns anos antes, havia lavado de vez tudo aquilo que não estudáramos na escola.

13 fevereiro 2008

Oficina de canções

A solidão de antes da aula é grande. Trago livros, mais do que o necessário, livros que não serão abertos. Cheguei completamente molhado de suor, depois de atravessar a praia de bicicleta, minha camisa cinza esquálida desidratando as férias. Assim com o ventilador (Venti-Delta) ligado, um tufão despregado de uma costa distante varre o continente mesquinho do mais mesquinho da região sudeste. Os violões, pendurados na parede como carne de açougue esperaram por todo mês de janeiro. Eu rio. Discretamente uma ganância me conforta. Quero voltar pela praia.

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