O narrador demora a perceber que não tem uma estória. Finalmente acende um cigarro, ele que não fuma mais. Dentro do texto o homem de 40 anos traga a noite, anda pelado por um corredor, acende três da matina uma metrópole.
Nada mudou o texto, ponteiros e relógios. A persistência da memória ataca. Demente depois de surfar por inocentes leblonianos. O narrador observa. Fã que era das novelas de Gilberto Braga. Esperava o desfecho quando Ana Regina apareceu. Ela e sua antiga rival imaginária. Mulheres que hoje também esperam. Grávidas, amalgamadas.
O narrador luta com o editor de texto, não aceita palavrões. Respira com peito de galo olhar imperial, depois arremete até a sala. Mete no fundo o bastão de pau rosa na bengaleira com chapéus. Lembra que as fãs do personagem adoram a roupa de toureiro que o pobre ainda não sabe que terá. Todos esperam algo, estão partindo.
Amanhã o homem de 40 anos se olha o espelho. A barba Nikon, o Pretobarba Hugo Boss Nº 1. O dia começa uma estória ou coisa sem protagonista. O discurso do romance contemporâneo não suporta mocinhos,.. as raparigas sem sombra de dúvida jogam respostas enviando flores e cartas, querem a lei do abate lá dentro da narrativa. O narrador não sabe por que o homem de 40 anos as recebe; se lhes responde? ensinará, mostrará a dor dos fonemas com letra minúscula? Não.
09 junho 2006
30 abril 2006
Blood Mary
Maria da Encarnação exalava perfume, respirava com o coração na boca. Seu vestido leve deslizava na poltrona hardcore. Esses carros alemães têm os limpadores de pára-brisa silenciosos.
O bólido negro atravessava o Leblon sob a chuva rala. Ligou o som da Madonna, Bad Girl. Viu que estava trêmula, queria se arrepender. Mas lembrava de Ives, também queria ir ao seu encontro.
Pedro disse que precisava beber alguma coisa, virou em direção à praia. Tirou uma das mãos do volante e descansou sobre o vestido leve cobalto, ornava a coxa da mulher. Depois puxou um pouco, até sentir a pele. Enquanto o sinal não abria decidiram voltar alguns quarteirões e estacionar no edifício garagem. Por que não vamos ao cinema? falta muito para as onze...
Enquanto Pedro pegava o ticket do estacionamento e o carro negro subia pelo elevador em silêncio, Mary olhava a rua encarnada. O vestido cobalto era o hippye discreto chique algo haver com os tempos do Sujinho, na UFRJ. (O embate da psicologia com a engenharia era sexual). Quando Pedro veio ao seu encontro a chuva aumentou e o porteiro do edifício chamou um táxi que os poderia levar cem metros adiante. Mas o carro avançou por muitas ruas levando homem e mulher antes que decidissem onde ficariam. Desceram quase meia hora depois, perto do restaurante.
Após ser servido o segundo drink dela, e enquanto saboreava uma taça de um Parej Barolo 1999, Pedro perguntou à esposa se queria desistir. (Pausa) Maria da Encarnação disse estar com uma calcinha vermelha, bem pequena.
O bólido negro atravessava o Leblon sob a chuva rala. Ligou o som da Madonna, Bad Girl. Viu que estava trêmula, queria se arrepender. Mas lembrava de Ives, também queria ir ao seu encontro.
Pedro disse que precisava beber alguma coisa, virou em direção à praia. Tirou uma das mãos do volante e descansou sobre o vestido leve cobalto, ornava a coxa da mulher. Depois puxou um pouco, até sentir a pele. Enquanto o sinal não abria decidiram voltar alguns quarteirões e estacionar no edifício garagem. Por que não vamos ao cinema? falta muito para as onze...
Enquanto Pedro pegava o ticket do estacionamento e o carro negro subia pelo elevador em silêncio, Mary olhava a rua encarnada. O vestido cobalto era o hippye discreto chique algo haver com os tempos do Sujinho, na UFRJ. (O embate da psicologia com a engenharia era sexual). Quando Pedro veio ao seu encontro a chuva aumentou e o porteiro do edifício chamou um táxi que os poderia levar cem metros adiante. Mas o carro avançou por muitas ruas levando homem e mulher antes que decidissem onde ficariam. Desceram quase meia hora depois, perto do restaurante.
Após ser servido o segundo drink dela, e enquanto saboreava uma taça de um Parej Barolo 1999, Pedro perguntou à esposa se queria desistir. (Pausa) Maria da Encarnação disse estar com uma calcinha vermelha, bem pequena.
18 março 2006
Espere, não insista
; os pássaros
calam
vôo e braços
desenho entre restos
escapam devotas
a imensa boca
para sempre
algumas ficam
se reviram
nuas revoltam
pelo ar
azul
até as costas
do horizonte
se eram livres
e não saibam
escrever
asas trêmulas
de língua
e gozo às pernas
do livro
se eram
plásticas e não
sejam
esses pássaros
tão gaivotas
lhes ensinem
dor e silêncio
calam
vôo e braços
desenho entre restos
escapam devotas
a imensa boca
para sempre
algumas ficam
se reviram
nuas revoltam
pelo ar
azul
até as costas
do horizonte
se eram livres
e não saibam
escrever
asas trêmulas
de língua
e gozo às pernas
do livro
se eram
plásticas e não
sejam
esses pássaros
tão gaivotas
lhes ensinem
dor e silêncio
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