09 junho 2006

Démodé

O narrador demora a perceber que não tem uma estória. Finalmente acende um cigarro, ele que não fuma mais. Dentro do texto o homem de 40 anos traga a noite, anda pelado por um corredor, acende três da matina uma metrópole.

Nada mudou o texto, ponteiros e relógios. A persistência da memória ataca. Demente depois de surfar por inocentes leblonianos. O narrador observa. Fã que era das novelas de Gilberto Braga. Esperava o desfecho quando Ana Regina apareceu. Ela e sua antiga rival imaginária. Mulheres que hoje também esperam. Grávidas, amalgamadas.

O narrador luta com o editor de texto, não aceita palavrões. Respira com peito de galo olhar imperial, depois arremete até a sala. Mete no fundo o bastão de pau rosa na bengaleira com chapéus. Lembra que as fãs do personagem adoram a roupa de toureiro que o pobre ainda não sabe que terá. Todos esperam algo, estão partindo.

Amanhã o homem de 40 anos se olha o espelho. A barba Nikon, o Pretobarba Hugo Boss Nº 1. O dia começa uma estória ou coisa sem protagonista. O discurso do romance contemporâneo não suporta mocinhos,.. as raparigas sem sombra de dúvida jogam respostas enviando flores e cartas, querem a lei do abate lá dentro da narrativa. O narrador não sabe por que o homem de 40 anos as recebe; se lhes responde? ensinará, mostrará a dor dos fonemas com letra minúscula? Não.

,.