18 março 2014

Stella


28 fev 2014    
O sol abre a manhã e o homem mortal se arvora e decide. O fluxo dos carros afere nas avenidas o punho da luz cega desligando as estrelas. A intensidade de uma ganância feliz o constela num céu que acende a civilidade e assim, apagando desejos brilhantes num sonho, o fazem outro ópio na própria história da carne. Densa abóboda azul que o veraneio dos sentidos abraça e mostra, na manhã coerciva, serás força crua de estrada pó, a cegueira de uma forma de engenho, a dureza explícita de um calendário. Assim que engarrafa a avenida Dante Micheline é o calor infesto de um terror objetivo o que transmite pela rádio uma outra cabeça, quando a praia devastada cospe na areia o lixo das finitudes. Lá na frente o semáfaro estancara o trajeto obrigando a contemplação sem cálculo sob a luz sem subjetividade; olho para o mar e atravesso os esportistas que passam ao futuro do presente o indicativo gerencial da liberdade cronometrada no pulso. De dentro dos autos somos engarrafado lançamento ao oceano como improvável carta, ainda mais de ser lida, em dias de pura decisão. Navegamos por um correio que acima das águas flutua com palavras de fogo lambendo a fonte de sal através da transparência do vidro. Muito além dos esportistas e dos burocratas estamos indo ao mar alto das aniquilações solares, dos ínfimos reflexos das nuvens de uma sede entranhada que se divaga propagando timidamente, quase em técnico segredo, o som solto sensível das águas áridas que precedem tormentas perdidas atrás do horizonte. Esse, que por instante nos vinga até que o sinal da Adalberto Simão Nader novamente dá o corte expesso porre epistemológico, e fátuos voltamos ao trânsito; traidores apenas de nós mesmos; vendidos como O Albatroz de um baudelaire.

7 março 2014
A praia lírica pede um Debussy, de l’aube à midi sur la mer quando a fotografo de vestido amarelo. A maré doce é o vazamento constante num recuo, como anunciasse um tsunami contravindo do outro lado da tela do meu mundo de luz projetada. Essa vazante é também ausência que no entanto não se dissipa da falta na areia úmida. Aos meus pés me vaza também para seu corpo. E as vozes da praia,  numa tetrafonia me chegam ao pensamento, se a componho e traduzo o contraponto água, pedra, poema, música concreta ao romantismo de um beijo. Minha fotografia é música, que eu mesmo escuto do eco da praia e de seu amor translírico. Sei que por detrás do céu cego brilha a estrela que norteia minha nave de arcos sonoros, semibreves despudoradas, que às vagas exatas joga meu bateau ivre et autres poèmes. Singrar esse mar sem se afogar é um naufrágio de saudade, trânsito, terra, gosto, desejo. É preço alto, quanto mais alto mar.

24 fev 2014
A luz vem do espaço, mas acho que ela está no mar, que ao contrário, a executa no escuro profundo. O mar é um fluxo de angústias literárias e literais. Ah, homem do mar. Boca seca de um deserto, empurro o carrinho até o balcão de carnes, onde Manuel faz o corte. É filé de novo, patrão? – Quero inteiro, pesa como está. – Tá de moto, patrão? falô ta vaparada 7 meis.. – To sim. - O vazamento, patrão, era mesmo no pisto? - Não; era no pneu Michelin, no aro todo, dos dois lados, em toda a roda

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