28
fev 2014
O
sol abre a manhã e o homem mortal se arvora e decide. O fluxo dos carros afere nas
avenidas o punho da luz cega desligando as estrelas. A intensidade de uma
ganância feliz o constela num céu que acende a civilidade e assim, apagando desejos
brilhantes num sonho, o fazem outro ópio na própria história da carne. Densa
abóboda azul que o veraneio dos sentidos abraça e mostra, na manhã coerciva,
serás força crua de estrada pó, a cegueira de uma forma de engenho, a dureza
explícita de um calendário. Assim que engarrafa a avenida Dante Micheline é o
calor infesto de um terror objetivo o que transmite pela rádio uma outra
cabeça, quando a praia devastada cospe na areia o lixo das finitudes. Lá na
frente o semáfaro estancara o trajeto obrigando a contemplação sem cálculo sob
a luz sem subjetividade; olho para o mar e atravesso os esportistas que passam
ao futuro do presente o indicativo gerencial da liberdade cronometrada no
pulso. De dentro dos autos somos engarrafado lançamento ao oceano como
improvável carta, ainda mais de ser lida, em dias de pura decisão. Navegamos
por um correio que acima das águas flutua com palavras de fogo lambendo a fonte
de sal através da transparência do vidro. Muito além dos esportistas e dos
burocratas estamos indo ao mar alto das aniquilações solares, dos ínfimos
reflexos das nuvens de uma sede entranhada que se divaga propagando
timidamente, quase em técnico segredo, o som solto sensível das águas áridas
que precedem tormentas perdidas atrás do horizonte. Esse, que por instante nos
vinga até que o sinal da Adalberto Simão Nader novamente dá o corte expesso porre
epistemológico, e fátuos voltamos ao trânsito; traidores apenas de nós mesmos;
vendidos como O Albatroz de um baudelaire.
7
março 2014
A
praia lírica pede um Debussy, de l’aube à midi sur la mer quando a fotografo de
vestido amarelo. A maré doce é o vazamento constante num recuo, como anunciasse
um tsunami contravindo do outro lado da tela do meu mundo de luz projetada.
Essa vazante é também ausência que no entanto não se dissipa da falta na areia
úmida. Aos meus pés me vaza também para seu corpo. E as vozes da praia, numa tetrafonia me chegam ao
pensamento, se a componho e traduzo o contraponto água, pedra, poema, música concreta
ao romantismo de um beijo. Minha fotografia é música, que eu mesmo escuto do
eco da praia e de seu amor translírico. Sei que por detrás do céu cego brilha a
estrela que norteia minha nave de arcos sonoros, semibreves despudoradas, que
às vagas exatas joga meu bateau ivre et autres poèmes. Singrar esse mar sem se
afogar é um naufrágio de saudade, trânsito, terra, gosto, desejo. É preço alto,
quanto mais alto mar.
24
fev 2014
A
luz vem do espaço, mas acho que ela está no mar, que ao contrário, a executa no
escuro profundo. O mar é um fluxo de angústias literárias e literais. Ah, homem
do mar. Boca seca de um deserto, empurro o carrinho até o balcão de carnes,
onde Manuel faz o corte. É filé de novo, patrão? – Quero inteiro, pesa como
está. – Tá de moto, patrão? falô ta vaparada 7 meis.. – To sim. - O vazamento,
patrão, era mesmo no pisto? - Não; era no pneu Michelin, no aro todo, dos dois
lados, em toda a roda