24 novembro 2011

Arado interior

O homem olhou tudo com detalhes, deu parabéns pelo campanário vasto. Considerei que ele fizesse leitura da situação, avaliação de negociante acostumado à psicologia da compra e da venda. O complexo de matéria e nuvem em conjunto com o sonho dos homens evanesce do chão fofo que lentamente é batido, batizado. Olho até o campo implacável que o dia faz e me acumulo eus lavrados, jogo o corpo sobre o arado das gestas perdidas. Sou o tempo que me rouba fios de memória com o que ficou, persisto em meu passo pondo força a mais até chegar com aparente domínio ao epicentro, e abro com as mãos um arco de compasso em que gesticulo aos limites da cercania, como se a mim obedecessem ou a quem em meu lugar estivesse a lhes falar não viessem impor seu lodo murado. Depois ponteio de silêncio minha explanação avaliando também a lixa fina de metal que é a cara do comprador. Sou por esse ínterim confesso algo embrutecido e uma calosa luva já veste minhas mãos enquanto meus dedos secos, compridos, se experimentam como se já conversassem o que pensarei. O entulho que os tratores estrangularam no chão ou que a grande escavadeira arrancou maculado nos rodeia e vai no negócio.. saí de casa um poema de Rilke mas meu rosto lívido é frase tosca de Hemingway. A poesia o céu contrai enquanto a chuva rala começa a acarinhar meus ombros; o pólo travestido e abotoado é uma camisa puída que não esgarça o caimento, a chuva rala desce pelo meu rosto e pescoço, minha franja cai no lado esquerdo da minha testa, não há pressa. É tão urgente. Enquanto fechamos o acordo roubo com os olhos várias esculturas do ferro retorcido que sobrou de pretéritos inquilinos, enleio da cabeça. Algumas mulheres sabem quebrantar o coração dos homens, penso enquanto começo a retornar com o comprador até o portão que divisa a rua, o bairro, toda a região que concentra minha falta de doçura. O silêncio túmulo do dia aqui se impõe definitivo pela força e meu corpo dobra quando a história sem personagens vitoriosos avança: é o súbito velamento que arrefece a intensidade: estamos vivos para dentro do parreiral onde as coisas são como sempre foram. Esse real insuportável nas vozes aladas pela ausência de si, ou vícios de linguagem que abandonei.

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