17 novembro 2011

Chuva

- Talvez, (talvez) se o sr perguntasse.. Veja, ela está logo ali, atrás daquela mesa, ladeada pelo círculo que sustenta a bromélia e vaza para perto da janela. Logo ela acordará, e tudo isso se apagará com langor, preguiça. Alguma lembrança ficará com o senhor pelo resto do dia, por ter atravessado o sonho leve dela, e algumas palavras, como gotas de silêncio na chuva ficarão, poucas e generosas elas serão teu labor sincero algo ainda não escrito nestes autos, e enlevarão teu pensamento por sobre a cidade, quando depois no happy hour heineken deslindares a lida vespertina com o escritor Herbert Farias, e em velamento abissal pelo fim da tarde no crepúsculo do homem comum falares voz baixa, concentrada, apenas uma vez a epítome tardia da politonalidade, dos melismas, das nuances de entrelinhadas vozes. E essas palavras forem por tua verve novamente lançadas com carinho e trilha sonora insuspeita ao ar exíguo que faltará e que provavelmente levaremos precioso tempo de investigação para arrancar do senhor, e catalogar.


(abre-se uma porta atrás do balcão e Jorge Pedro Etc entra por ela, chega à uma grande sala com mesas e pessoas que parecem do serviço público, só que não estão entediadas.)
- Por gentileza, antes de pegar o elevador, conheça nosso Setor.
- Mas isso não era a garagem do prédio? Eu já estive aqui, eu estacionava meu carro aqui.
- O Land Rover, sim.
- Eim?
- O das rodas pretas, o Defender..
- Que Defender? Que lugar é esse?
- Consta que o sr possui um. Verde musgo, com rodas pret.. Aqui é o Setor Mercury & Century, o sr deve saber que está em nosso cadastro, aliás, de forma exemplar.
- Sei que isso era uma garagem.
- Jorge Pedro Fra.. (o homem tem uma pasta nas mãos agora) Por gentileza, diga: o talvez é com letra minúscula?
- Sim.
- Ah, estava com maiúscula no teu nome (esclarece com simpatia)
- É com minúscula mesmo.
- Ótimo. Agora está aqui. Podemos voltar para o hall (entrega a pasta pra um auxiliar).
- Perai.
- Sim.
- Que porra de lugar é esse?
- Exatamente.
- Anh?
- Tentarei explicar:
(encarando de perto) - Quero te lembrar que não esqueci do elevador. Mas já to confuso quanto ao andar.
- Tudo isso é muito hilário!rs Nós aqui no Setor, temos acompanhado a..
- Acompanhado o que?
- A sintaxe do sr.
- O que vcs fazem aqui?
- Nós somos espécies de escribas odiernos e...
- Cadê a garagem?
- Não se preocupe, o carro verde está seguro.
- Palhaçada isso. Trocaram tudo, o prédio todo, os andares também?
- Acredite o sr ou não (com orgulho), aqui nós recebemos mensagens do Narrador. Chegamos a pensar se poderíamos...
- Lá vem isso de novo..
- Tudo está aqui (mostra discretamente a pasta na mesa de uma moça com um ves..), tudo o que já foi escrito, naturalmente.
- Que papo é esse, bicho? Quem é aquela?
- Sim, nós sabemos que o sr pode ser arisco. Por favor leve em conta que nos preparamos para tua chegada há meses..
- Meu amigo, eu hoje pela manhã já fiquei um pouco contrariado porque saí de uma oficina em que...
- Sim, nós acompanhamos isso rs.
... me cobraram 500ntas pratas pra polir uma motocicleta que já era impecável. Cheguei aqui procurando o andar que vc disse não tem mais.
- Como dizem na feira, tem mas acabou.
- ... Na feira?
- A frase agora é dele.
- Que ele?
- Ela avisou que o sr poderia não gostar... de dividir...
- Cacete, que papo éesse.?
- Calma..
- Ela quem? Ela avisou o que a quem sobre mim?
- Para nós. Para ele ela não falaria do sr., imagina. Mas acho que ela pode esclarecer sobre ele para você.
- É sonho outra vez?
- Não é da minha competência responder isso.
- Papo de louco esse.
- Parece que o Narrador está sonhando, não é mesmo rs?
- Como posso saber isso?
- Eu gostaria de poder lhe perguntar.
- Onde está o hall, o elevador?
- Ele fala conosco.
- Eu também falo. Queé isso tudo?
- Nós não conseguimos falar com ele; mas ela consegue.
- Eu vou embora daqui.
- Ela pediu pra falar baixo com o sr, para que o Narrador não escute tudo. É um homem obstinado, egocêntrico. O senhor deve sa..
- O que eu sei é que isso era uma garagem. Não to vendo nem a porta que volta pro ha..
- É porque ela não existe mais.
- Ela, a que avisou rs?
- Não rs, a porta. Veja, o sr tem senso de humor, estamos nos entendendo. Nunca mais pensou em fazer a prova do Instituto?
- Não, eu sou tosco demais pra grande carta magna do mundo bilateral. Isso pra mim é a própria decadência da função paterna, e.... Perai.
- O senhor está lembrando, hum rs..
- Quem é aquela moça mesmo? (agora em uma das mesas, organizando uma pasta)
- Mais diplomático, afinal. Qual?, a gordinha com o cabelo..?
- Fala sério comigo.
- Estava brincando com o sr, achei que tinha relaxado, a de vestido verde é a....
(uma voz em off avisa que o elevador chegou no hall)
- Por que o Narrador nunca fala comigo?
- Mas se a nós ele não escuta, como posso falar?
- E ela, ele a escuta?
- Supomos. O sr sabe que o Narrador é um homem obse..
- Sei, sei.. já sei. Na verdade eu nem sabia que existia um Narrador.
- Ele raramente aparece, não é mesmo?
- Como posso saber?

Nas tardes de perdida beleza, quando a chuva molha a cidade em silêncio, e o vento sul anuncia a perda das gerações de desejo e fúria em mesmos caminhos, é pela Avenida Hilária, bifurcando à direita numa diagonal que se chega ao Edifício Mercury, o qual ladeia o Century, o outro prédio dos mesmos donos. Você, leitor, não sabe a razão de esperar na fila do hall de um deles, qual não lhe falarei. Uma senhora botox de beje, seguida por um motoboy com malote azul, que também entrará no elevador antes dos dois médicos vestidos com o ruído branco da lei, do poder e da neurociência lhe fazem companhia. Porque o elevador não virá, escutarás o diálogo entre Jorge Pedro Francisco talvez Rafael, que agora chegou porta à dentro e seguirá até o balcão, onde antes mesmo de pronunciar palavra ouvirá de chofre estas:

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