04 junho 2017

Der Erbe


Hoje é aniversário do meu pai. É um domingo calmo e a alvorada acendeu. Os pássaros e os carros despertaram, o som deles esvai longe do dó, ou si, ao sol como que de um outro tempo. Em meu escritório viajo nesse outro que convive, transijo também outra coisa do que fui, campeio o meu próprio campo, essa incógnita, esse terreno ermo que no final talvez me leve a um rio. – uma vez, andando pelo terreno em Chácara Parreiral nós estávamos, eu e meu pai, sob uma tarde de sol ainda alto que nos esmagava contra o chão árido, embora o dorso do parreiral em metáfora ou encantamento parecesse sonhar por nós um capítulo de livro. Ele me explicou que aquele rio que margeia o imenso terreno (que ele havia comprado há pouco tempo), antes fora de tal modo diverso em quase mesma topografia. E que por vezes ele e meu avô por ali estiveram, bem onde estávamos, onde a terra começava a descampar até a água, e tudo era um pouco diferente, um outro lugar.

05 abril 2017

Princípio

O dia amanheceu. Estou acordado desde três e meia, quando o despertador me arrancou do sono para o remédio. Estou no pouco da náusea. Não a sartreana, mas do antibiótico. O efeito desse tempo acordado em que pensei tanta maldade.

Não que fosse uma maldade minha. Pior que isso, da vida que se avizinha e é nossa em nossos atos. A luz do dia não tem dissimulações. O mal estar oferecido pela alopatia faz parte da melhora ignara que trará meu peito sedimentado pelo catarro ao ato esportista na esteira da praia de outono. Na clínica Santa Paula, a Dra Camila avisou que poderia ser um princípio de pneumonia e eu dessa vez me resignei, estou seguindo o tratamento.


Escrevo este recado para que você veja a cena, leitor. Estou sentado no sofá, ao lado do abajur desligado. O livro de Arte Moderna do Argan está no braço largo e deserto que me separa dos novos indexados rumos da arte contemporânea e visto meu moleton preto, descalço, com uma camiseta onde vai escrito I’m ready I’m ready I’m ready. Escute também os ônibus da avenida (chamo de avenida) e o contraponto dos pássaros nas árvores, é uma orquestra. Violoncelos e flautas. Um grande silêncio parece ter vindo.

22 fevereiro 2017

3:54 am

Enquanto a série não baixa, espero. O giro no mundo trava novamente, e esses programas ou aplicativos são para morrer de repetir. Enquanto passo a noite à limpo e a foto da The Girlfriend Experience mostra uma série que não vi e não conheço, episódios de uma novela. Moça nua de bruços, que olha absorta. Palmada de couro, o carro azul profundo passa na avenida, perto de onde teve assalto há semana, mais de oito tiros de pistola ponto quarenta do policial. Jardim Camburi é uma festa, Paris a iluminura. Não a conhecerei, noite gasta pelo outro. Vivi o dia de hoje, however, fazendo facas com palavras roubadas de línguas que não domino sem cantar. – cantar tem algo de libertação. O cachorro vizinho late, abre a noite igual maçã. Estamos revelados à nós mesmos. Roma não passa. Hoje-Ontem foi lançamento do Jorge Elias. Não deu pra ir. Andei de bicicleta, quinta-feira contra o vento, sem lenço, sem ser Caetano também. Camburi ferrosa aceita os patins dos filhos dos tecnocratas. Você ñ concorda, mas gosta da minha revolta – Ah,.. o cachorro acorda, agora. A noite sem carinho está solta; no cosmos muito além de mim está lançado o livro de Cantares e aqui na terra me engalfinho com a Teoria Quântica de Campos e a quase insondável eletrodinâmica de Richard Feynman. Uma noite densa. O crime é o castigo e Raskolnikov um velho conhecido. Experiente consultor administrativo das artes as vezes pergunta: e o romance? Ω Sei que em breve adormeço, são quase quatro da matin. Mato o capitão em mim mesmo, conservador, que ex-tou mais pra escravo de Cristo nas cartas de Paulo, e não compreendo meu próprio sonho de liberdade. Já me é sonho e decido acordar quando vejo que estou no descampado aplainado pela engenharia de uma vegetação rasteira. Eu e meu pai conversamos caminhando por entre o imenso campo de várzea. Chegamos num lugar coberto de brita jogada no chão fofo para que sedimentasse, era o início de uma tarde, ou já talvez quase três horas. – Lembrei agora, amanhã dou aula para o garoto do violão azul às dez. Aula de reposição.


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