Quando entro na classe a aula já começou há século. A história da arte nos olha a todos pelo slide desde o Império Bizantino. O ícone milagroso da Nike vai como luz na bolsa negra do estudante, quando atravesso a sala até a carteira de fórmica na ala fria do cenáculo. Vou assim desafiando o ar condicionado, camisa de manga preta, tênis abismo escuro rasgado de basquete estrategista. Resisto ao vento sul artificial olhando imagens do século X. Do frio vem numa espaçonave a voz que canta a música do Air, absorvo lépido meu Moon Safari sorvendo uma lua de Halls no desespero de ser autobiográfico. Por descurar da palavra em minha carne no embate em que ela me espera ardo no frio, saco então de uma camisa de malha amarela, tento valer um personagem, mas ex-told no abso.luto real.
26 maio 2008
26 abril 2008
Texturas
23-abril-2008, ...erro no papel com um misto de guache, nankin, aquarela, pastel seco azul e tinta acrílica. Meia noite e vinte on the rocks em copo dágua, minha letra foi embora quando era literatura, ambição coloquial de leitor de Álvares de Azevedo. E agora o conceitual da década de 70 de Sacre Coeur e o quase vazio dos 80 sangram a falta que o cahier de Rubens Guerchman fará. O ventilador (o mesmo do Rio) sopra o papel debaixo da mesa. A matéria seca só, sabe em si. ...escuto uns violeiros no Myspace, mas eu mesmo não toco minha viola de 10, nem ponho cordas. E um mês sem pegar no violão. 4 sem uma música. Agora eu também entresafro; estou ficando Real, cansado violeiro que ensina o campo harmônico risível, mas não riem. Eu rio, só. Quando ele atravessa a mim e afoga saudades que esta ilha não dói. As pessoas ilhadas com o tempo perdem até mesmo o risco da dor.
21 abril 2008
Rosebud
É um feriado exato e requintado. Luto com nankin contra o tempo, levemente melhor, junto pedaços de idéias, ideais. Estou enfurnado em meu estúdio contra o vento de ventilador que vem até o peito, artefato instalado abaixo da mesa que varre de fora a fora encravada nas paredes. Completamente offline, espero o momento certo pra cutucar de leve, penso em espetar. Vejo claramente o corpo estendido, nu, uma coxa levantada até que a sola do pé descansa no colchão. Meia luz, quarto fechado, quarto de lua. É minha a boca que lambe o ventre, escolhe acima ou ao contrário, até sentir o gosto. Dentro é apertado, quente, molha em silêncio. E depois um ou outro som, até pedir mais, falar mais alto, dizer que pode. É feriado exato. Sem conexão, bar centenário, palmeiras, parque arborizado. E eu ando sem camisa como se tivesse um corpaço, fosse Clark Kent. No entanto, leitor de Ítalo Calvino, esperando o próprio livro; olhando a encadernação de Rainer Maria Rilke, bilíngüe, comprada num sebo de Copacabana numa vez que atravessei o bairro com uma mochila nas costas varrendo todos os antros que conhecia. Olhando a pilha de CDs em que nenhum é meu. Olhando meu rosto, sem espelho, vendo que estou com umas erupções, logo eu que sempre tive a pele inexplicavelmente limpa delas, mesmo adolescente. Diz uma dermatologista amiga que não é alergia, o que me deixa feliz por eu ter um orgulho ridículo de que a alergia respiratória é mais charmosa que a cutânea. Sempre essa fantasia de ser de um score x, sempre sonhando com “as cidades invisíveis”, e esse cabelo solto nas costas magras, que confere um aspecto circense quase acrobático. O melhor no circo é ser palhaço. Os trapezistas têm mais angústia, estão tentando um espetáculo verdadeiro, apontam a dècadence. Os que já entram rindo se dão uma chance.
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