11 maio 2011

Dor

Hoje é missa de sétimo dia do Ruy. Depois de alguns anos de luta e um bom humor contagiante ele nos deixou. Era motociclista, guitarrista e meu amigo. Pilotava uma Yamaha 600 preta. Usava uma guitarra Yamaha azul, uma Telecaster creme clássica, um violão Eagle; estava comprando uma Strato. Caixa Marshall. Tinha curiosidade sobre harmonia e música brasileira. Estudou violão comigo, começamos a tocar Águas de março, o Songbook de Tom Jobim, digitações para Chord Melody. Gostava de chocolate. Gostava de sorrir. Se formou em Ciência da Computação, trabalhou, casou. Através dele conheci o Marconi, poeta e compositor que me ensina mais do que eu a ele. Foi na casa do Marconi, num jantar há 2 meses que eles fizeram uma prévia audição do meu trabalho; eu me senti honrado. Momento que ficou. E no que depender de mim, 7 horas estarei lá.

06 maio 2011

la oscuridad

la noche
se instala para durar.
con un rolo de papeles,
sus cuadernos y sus reglas,
(esa esperanza en su vida)
mirando la oscuridad con los ojos bien abiertos
luna felicidad, luna de sangre
(cuerpo de água doce)
despida,
donde todo tiempo tendría
a comprender nuestro encuentro
que escribo,
con su escándalo
más implacable
a decifrar otra farsa
en silencio,
para acariciarle hasta el día
en la brutal verdad.

13 abril 2011

13 abril 2011

Depois da palestra sobre José Carlos Oliveira entrei com a moto por dentro da Praia do Suá, passei pelas peixarias que de noite ficam soturnas até aparecer o lugar daquele restaurante que não existe mais e finalmente ladear com a antiga Kiskina (transfigurada no Restaurante D’França), onde eu e meus irmãos íamos tomar sorvete, levados por meu pai lá pelas oito da noite. A Biblioteca Estadual, onde passei por noticiada sabatina anônima sobre meu livro ano passado, também me torturou com um pouco mais de ar condicionado, na fúria desses aparelhos aclimatadores que acarinham minha tragédia vocal. Vento da noite, o motociclista desescreve pequena crônica de erros, quando contemplo o prédio encravado entre pedra e avenida, que sou eu mesmo criança e lenda ainda que anda e sorri enquanto desafio a chuva na terra no Barro Vermelho da conceitual década de 70, bairro esse idealizado pelo arquiteto Bebeto Vivacqua, e tempo esse da Rua Afonso Henrique, que viria a se chamar José Luiz Gabeira a partir dos meus dez, onze anos. Ah, homem uniplural. Hora de crescer, cantar while my lady sleeps, meu Chet Baker silencioso na varanda amadrugara,.. lá vem a mulher rebolando dentro do vestido onírico, e reapareço noutra cena torneando a cintura erudita que eu faço coloquial: nuvem de creme pós-banho que me leva por aí, perto. Vôo em mim, padaria de esquina naquela outra rua de Vila Velha onde eu desenhava duas páginas de Moleskine numa tarde quente, perdido de imaginar cerebral o que agora sabes, imaginas também, com o corpo mais livre da civilização que o meu. Quando vens, austera decidida a crescer nessa noite sem Lua visível, e sabes dançar nos meus olhos, you shook me all night long e observavas meu lábio seco, quando sou aquele lago plácido domingo, e lá embaixo Hidras e Leviatans se engalfinham numa trilha sonora do AC/DC. Em alguns minutos estava na praia de Camburi; o penhasco do Sacre Cuer passou rapidamente, a Kawasaki 1300 também, pela tangente direita burguesa e branca (moto branca,..) e a cabeça já tocava o enjoy the silence do Depeche Mode, num retrô absurdo de primeiros nadas: aquele tempo em que eu não tinha lido Nelson Rodrigues, algo fundamental para se entender a fina dialética dos produtos Lancôme ou Mac. Homem a cento e lá vai, a coisa rude no corpo está no genoma e mão de acelerador não presta pra fazer carinho.., é preciso aceitar a herança paterna, e chegar em casa livre.

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