Tarde, na biblioteca, caneta pasma, cabelo solto, vento, mesa de fórmica. ...As tardes tem um ventoSaci e as vozes narrativas são erros de escolha. Minha letra é um espasmo e o fluxo contínuo da semana foi a maldade da musica do Prodigy. ...nem espero poemas; a Musa não canta mais, finjo não me importar, escrevo-lhe cartas sob as lâmpadas encravadas no teto de gesso.. muitas e esquálidas elas determinam o tédio incrível que me faz a falta de leitura.
De minha mesa observo livros em agonia silenciosa. Onde estarão os meus. Os que doei para esta biblioteca ainda não chegaram às prateleiras e nesse trajeto de ano e meio pouco suponho por onde tenham sido ignorados. A edição de um livro é a perda total de um punhado de palavras.
Sem conseguir concentração de fato, corro olhos pelas encadernações. O trabalho incansável da bibliotecária..., os sons da lata industrial domada em prateleiras para suportar o peso da papelada, tão inútil aos estudantes, às virgens coloquiais, aos homens de negócio, ao Estado. A vastidão de um Verbo eterno no entanto paira sobre nós, nossos olhos cegos de vaidade curam mesmas histórias com a infantil inocência de que estas seriam por nós tão melhor contadas.
Através dos vidros laterais da biblioteca vejo árvores balançando no namoro com o Vento Sul. O tempo que as transpassa atravessa também, num repente, algumas das janelas,...; faz sons densos para os quais as palavras ainda não chegaram ou já não poderiam revelar-lhes numa fala. É assim, enquanto escrevo, que a biblioteca se transfigura em orbe alado e raptando meu pensamento mesquinho campeia livre no ar enquanto nela meu vôo sob o Sol da tarde nos fotografa... ...vento lascivo que por vezes, numa estocada seca, anuncia meu nome; Quando a conexão do MP3 cai; e no silêncio o edita.