06 Janeiro 2012

Presente

Em frente ao prédio de mármore, conveso com Antenor. Negociamos a viola caipira de 10 cordas. O silêncio da Cel Monjardim sonha a madrugada quando ela cai serena sobre o centro e é quase cidade alta. Estou montado na moto, que eu freio com o pé direito da razão. Capacete negro fosco apoiado na perna direita, aperto a ignição do motor, olho a praça cava num vale e subo os olhos cegos para a vastidão de janelas acesas. Os prédios modernistas escondem a catedral na amplidão conceitual do século xx: despeço-me e acelero, deixo rara para trás a sala imensa que por espaço quase inteiro de tempo abrigou o muco das festas frugais, os diálogos de fome, a rotina feliz das comemorações fartas; jacarandá escuro da porta de duas águas. Enquanto desco o pequeno tobogan da Gama Rosa ladeio aquele boteco que incomoda de noite e que o disque silêncio tampouco modifica enquanto o sonho o aceita pequeno marulho velado que na inconsciência se encantará. Até a Praça Costa Pereira o ronco do motor não me livra da melopéia de frases e palavras, ao mesmo tempo que quase-palavras exatas me acertam em cheio tendo o gosto lépido, essas palavras saborosas. Penso e me escavo por dentro no sinal fechado olhando o Sesc Glória. Boca seca. Depois vôo lento pela Avenida Beira Mar até o sinal do Edifício Ames, onde enfim acelero no asfalto que secou durante décadas. A noite é vazia, possível fricção que engata a sexta marcha sem avant garde. É uma noite deliciosa, um fragmento de discurso que vaga na amplidão para a qual eu faço a tangente vestido com as asas negras nos braços. Teus cabelos de fogo que estavam no poente de Camburi há coisa de cinco dias agora emaranham em meu rosto e diminuo para 130 antes que a curva traiçoeira do Álvares Cabral, junto à quase incógnita associação de malditos superdotados, engula o escuro metálico da minha moto: essa curva em pleno Senai no qual meu pai levava seus alunos de engenharia e explicará durante séculos o funcionamento de misteriosas máquinas na resistência dos materiais até que eu, por mim mesmo, abra o livro de João Cabral entitulado O Engenheiro e o compreenda. Estou sozinho e ganho caminho, desde a juventude conhecido desbravamento do aterro na terceira margem da subestação de Bento Ferrera, que assim me acende lembrança de um sonho enquanto freio no sinal do Hortomercado: Você desembrulhava o presente, embrulho que não acabava mais.. Teu sorriso, antes certeira concentração, agora era uma criança perdida de felicidade e assombro. Eu olhava realizado. Você perguntava como eu sabia que etc; Não lembro, esqueci; Você não me parece esquecer nada; Ah, mas esqueço, esqueço completamente e com detalhes. O presente não acabava, era um passado imperfeito que você desembrulhava. Assim eu soubera que acordarias do imperfeito; do mais-que-perfeito; do futuro do pretérito;,. Intuí que o sonho fosse teu, derramado sono que a cidade guarda de nós em nós mesmos. Por vezes você sustava o desembrulho e me abordava, diretamente, com um sorriso arrebatado. Eu também, impune e sonhando lhe dizia que roubaria teu sonho e sorria com os olhos reconhecendo o gosto de palavras etéreas & carnais. O Palácio do Café passou alado por mim quando eu acelerava pela segunda vez na madrugada vazia, como soubesse o que você me calava, tão perto estávamos agora e silenciados errávamos um pelo outro o andamento de um compasso composto para a nuance dos melismas nas vozes, a dor enfática das cores, o líquido e revelado gosto dos verbos frasais. Momento esse em si acelerado contagiros a lançar o percurso à frente, onde tua voz que eu não compreendia assim me falava, num quase, chegando à curva esquerda que fura o concreto suspenso da Terceira Ponte como uma grande onda; foi nesse momento que acordei. Estava na sala do apartamento dos meus pais, gasto do horário sobre o sofá em L que faz um dos ambientes. Quase meia noite, vou pra casa; Vou descer e pegar a moto na garagem; E aproveitar que hoje a portaria é do Antenor, ele está comprando minha viola de 10 cordas;...

2 ,:

L. disse...

vou concentrar energias aqui pro Antenor tocar um repente na sua ex-viola de dez cordas lá na portaria dele. Um repente de suspender essa chuva toda que me embaça os vidros de casa e me impede de ver esse percurso tão bonito que você traçou mais uma vez.

Elton Pinheiro disse...

é um mesmo caminho que muda a direção centro-camburi, camburi-centro. as máquinas vão quase sozinhas. com aquela frase do antonio cícero numa música da marina lima, "talvez o fim não seja nada e a estrada seja tudo". mas não me convenço, parece uma demagogia bonita, zona sul leve demais.