11 Novembro 2011

Terceira margem

Relembro a primeira frase do Trópico de Capricórnio, aforisma pontuado numa mesa do Café Lamas por um amigo psicanalista. Volto aos livros.., a fome alucinada, anti-acadêmica, divergente. Sylvia Plath na internet. Sherlock Homes Sir Arthut Conan Doyle no iPhone. Em papel, da Editora Martins Fontes procuro algo no Manual do Artista, de Ralph Mayer e no Teorias da Arte Moderna, de H. B. Chipp, que tem excertos das cartas de Cézanne e Van Gogh em comentários, explanações sobre seu encontro com a natureza em Cézanne com a cor em Van Gogh, assim como capítulos sobre fauvismo, expressionismo, neoplasticismo, construtivismo, arte contemporânea. O encontro plástico com o mundo lavava de luz a praia quando passei agora de manhã; pela orla o livro de Tchekhov comprado na Rodoviária Novo Rio permanece um estudo para uma concisão que me será letal. Exausta, a sexta-feira sai do banho de chuva, deixa cair um leve vestido de flor sobre a nuvem que desenha no céu um bico de peito rosa sobre Camburi. Enrolo sem cama pra escrever, letra de música que experimento devagar, e para correr na praia estiro o calçadão com os tênis do Dr. House. Esqueci qual era o argumento do último livro de poemas. Ah, ninguém lê poemas, era esse. Depois o arco sonoro no trânsito expande na peste de motoboys e atrás do volante sinto aos poucos a vida me transformar no ensandecido desenho animado. Súbito o sinal abrirá quando estávamos no segundo parágrafo e paro de escrever: acelero cinqüenta metros que nos levaram paragens, cidades, aquela planície do tempo: Land Rover verde musgo que não existe, meu caderno de cinema abre igual uma mulher de Modigliani nua em cima da minha perna direita enquanto engato a terceira, olho o conta-giros, tenho vontade de bater. O touro dentro do meu peito é a coisa valvulada ruidosa quando o som granula; desejo solto na lendária Gibson SG que a banal catequese da MPB não escuta. Era agora que não lembro mais:, Em silêncio, naturalmente, prometo a mim mesmo: Homem mortal, nunca mais usarás Prestobarba descartável, os que vem em 3 unidades não repetirás. O engarrafamento arrefece e abre num cenário de Gerald Thomas: perfilados, pasmos artistas e intelectuais do Brasil olham da calçada de Camburi, em frente aos prédios da Sena, e do outro lado, no calçadão. É uma fila enorme que observa com imensa alma samaritana a nós que chafurdamos no mundo engarrafado. Passo por eles altivo como se já tivesse morado em N.Y. Glauber Rocha faz sinal, me pede carona, diz que já não agüentava mais ali. Faz apontamentos sobre a verve presbiteriana, e aprenderemos juntos a autobiografia confessional, a ficção lépida de falso diário. Ao bondoso homem de negócios da Captiva que nos fecha não dizemos o quanto temos de amor; algo contudo vasa de nós quando o vemos espaçar a visão do outeiro monstrificado que é o Colégio da Colina de Horrores, tão bonito. Apagamos lentamente. Deixo de lado últimas páginas do segundo caderno do ano, acelero escutando o massive attack do mundo. Everywhen.

5 ,:

mattkane disse...

Consultei aqui: "Assim que a gente entrega a alma, tudo continua com mortal certeza, mesmo no meio do caos."

Está na mochila desde que finalmente comprei e comecei a ler sua indicação.
Aliás , obrigado. Estou gostando de ler, o que me leva ao que eu pensei agora do seu texto... Gostei de como vc representou esta coisa da leitura interferindo no cotidiano. Esse livro está interferindo bastante. Sempre que leio coisas dessa geração beat me sinto meio incomodado com as diferenças.

O mundo parecia tão pulsante e impulsivo (ainda que angustiado). Agora parece muitas vezes um paciente mantido respirando por aparelhos... tudo controlado, tudo politicamente correto, tudo careta, tudo previsível, e a angústia é negada... Muitas horas acho que na verdade não é tão previsível assim, que a minha visão restrita no tempo prejudica uma análise melhor... enfim... estou tentando tratar isso nos meus textos tbm pra tentar entender melhor...

Abraço

Elton Pinheiro disse...

na minha versão, que eu comprei no cinema estação de botafogo (antes de virar unibanco), aquele clássico.. perto da saída do metrô na voluntários, 7º edição da ibrasa, a primeira frase é assim:

"Depois que nos livramos do fantasma, tudo segue com infalível certeza, mesmo no meio do caos."

o que seria se livrar do fantasma? o ato de escrever é se livrar do fantasma, mas parece haver algo nesse livramento que justamente permite uma escrita. então, o que seria? um livro desses, trata de muitos fantasmas, pensei. mas de algum ele teve de se livrar para escreve-lo.

já a entrega da alma tem um quê messiânico talvez. porque é da alma que tratam as grandes religiões, assim como a fé (em algo que transcende mesmo a relgiosidade). a entrega da alma é da ordem do irreversível, do voto, do pacto. poucos gostam ou querem a palavra alma, por falta de fé ou medo, e porque a "vanguarda entre aspas" é materialista, ou porque o péssimo exemplo dos religiosos é no mínimo brega. eu leria aqui, essa "entrega da alma" na tradução como o que se teve de deixar para escrever, simplesmente. apesar de henry miller gostar de fazer mapas astrais, e os nomes dos seus maiores (mais vigorosos) romances serem trópico de capricórnio e trópico de câncer.

mattkane disse...

A minha edição é da José Olympio Editora - parece ser a primeira edição da JO, pq não diz nada.

Conferi a frase no original:
"Once you have given up the ghost, everything follows with death certainty, even in the midst of caos."

Embora ele use a palavra "ghost", que pode ser fantasma, gosto mais da tradução como "espírito" (como em holly ghost = espírito santo).

Acho que é mais coerente com esse processo de entrega, de batismo e de transformação que ele narra quando fala do livro "Evolução criadora", de um grande amor que ele não conseguiu encarar (por uma garota chamada Una) e do processo "cebola" (de ir abandonando cascas buscando um centro - que ainda não entendo muito bem)...

Gosto também da tradução de "given up" como "desistir" e de "death certainty" como certeza mortal, pq tem a ver com uma morte da (ou na) gente, como ele mesmo descreve mais na frente.

Enfim, gostei mais da tradução da minha edição do que da sua!
Quer emprestada? rsrsrs

Abraço

Original do Trópico de Capricórnio: http://books.google.com/books?id=_HAhCxNs-QUC&pg=PA5&dq=inauthor:%22Henry+Miller%22&hl=pt-BR&source=gbs_selected_pages&cad=3#v=onepage&q&f=false

"Evolução criadora", do filósofo Henri Bergson (que parece que influenciou Deleuze, entre outros): http://bibliotecanomade.blogspot.com/2009/03/na-web-evolucao-criadora-de-henri.html

L. disse...

A travessia da fantasia...escrever o fantasmaé desvendá_lo. É tocar o real. E depois, inventar a partir do vazio que fica, algo novo. Parece tres facile, neam...Quem suporta por muito tempo?

Elton Pinheiro disse...

,,eu acho justamente que tomar ghost como holly ghost é ir além. a entrega da alma é sempre para ele (espírito santo), mesmo que seja seu oposto, negativa. a entrega da alma tem conotaçoes diferentes, mesmo tamponadas" por uma vanguarda materialista. henry m é sofisticado, é preciso desler um pouco o que ele diz.. para mim, ghost como fantasma permanece terreno, sem excessos.., penso que o livro abre dizendo mais de um autolivramento, uma perda fantasmática do que uma entrega por ser (essa perda) anterior a ela.. mas fiquei interessado nessa tradução...