27 Outubro 2011

Weather storm

Na sala branca contemplo coloridas caixas de arquivo empilhadas, espécie de Babel sem rádios. Meu texto sobre Cildo Meireles agora questiona personagens, que logo mais me abordam no café do Shopping. Pelo descampado no mapa virtual me encontras no endereço certo com as palavras e seus objetos amalgamados. O grande terreno aplainado pela força se estabelece no parreiral e alija ladeamentos no concreto da alegria dos homens quando a vastidão civilizada faz intervalo com café de máquina: é onde estou. Xícara na mão e o livro vermelho na outra. Sobre a mesa o pacote comprado naquela loja de roupas: pequeno diálogo com duas vendedoras prontas a opinar sobre cores, modelos. A civilização não se constrange mais, vamos abrir um livro de John Fante, hoje foi um ano ruim. Depois de comprar a indumentária dos homens, colete à prova de balas, realidade do elástico tecido para não apertar os pelos das pernas, gravata.., estanco o horror no café que a Saraiva crava na cidade ilhada enquanto a chuva começa e não sei. Sentado à mesa do café me penso no terreno avante marche e chego no chão aos galpões geminados, onde o carro que foi de meu avô está guardado e sepulta histórias desde sempre eternas, memórias que já foram apagadas. Volto para o terreno novamente, cabelo resto de chuva e a juventude venta no rosto sua última noite escrita, tão mais amorosa quanto desconhecida, no caminho que faço. A tarde nublada é íntima, doce e com cautela envolve e sopra que basta ao monturo nodal a ferrugem árida que as máquinas jogadas no loteamento exibem. Respira, vai. Assim que vejo os tratores Caterpillar lembro que não comprei minha bota de couro que serviria para pilotar. Sei que da mesa do café me penso andando até desbravar a danação distribuída pela terraplanagem, assim como sei que indo ao centro desse terreno lhe penso em outro capítulo: do outro lado da cidade agora transitas enquanto lhe estudo a composição dos passos pela rua até a academia para dançarinas neoliberais, corres por ruas que minha sensação impregnada lhe rapta num susto de sorriso, e ali perto da praça perco a direção de tua janela. Pensando isso campeio até o centro do terreno. A terra envolveu o monturo de metal, látex, ferragem do velho Alpha-Romeo que se espalhou com o tempo e agora sob meus pés a coisa toda se amontoa enquanto piso por cima, equilibro meu le temps retrouvé. Olho o chão quando meus passos vão ao centro do terreno e de terra lavam meus tênis. O fim de tarde é uma marca, homem. E te veste o jeans enquanto pisas da estrutura tua base na ponta de estoque. Assim a sala branca veste o café da livraria, que veste o centro do terreno, que despe tua cidade, que chove sobre o trânsito, que me espera sair da sala, que ficará com as caixas de arquivo apagadas. Coloridas.

2 ,:

L. disse...

eu gosto de pensar em diálogos nesses nossos textos, últimos. Mas como seu texto tem veia universal pode ser só um delírio meu. Rs...
Pense na matemática de weather storm, hum? Legal demais. Parabéns!

Elton Pinheiro disse...

o delírio é meu

e a materrática foi uma tacada brilhante. não se pode escrever o que não está escrito, nem ler o que está sem delirar. coincidência, ontem eu escrevi uma coisa sobre isso, em que o leitor escreve também.