201.
“Only our hearts, know how much love is there”
Paul McCartney
Sal que o trânsito nervoso rescende. Suor, pós-meio-dia, no posto Moby Dick com a bolsa cheia de papéis e uma garrafa de alumínio azul na lateral, e as contas molhadas por causa da chuva, as que estavam na mão junto com o livro, e clicando o streaming do Jeff Beck best of beck se lembrava, correndo pro Uber, debaixo da chuva carinho leve, que nunca fumou maconha na universidade.
O motorista Kevin nome real surfa pela ponte na Play List The Police every break you take em dezembro e a belíssima canção da tarde agora vai descer do meio-dia demônio do eu com o poema do REM quando everybody hurts, no que o professor comenta; Mas Kevin, essa tua playlist tá mesmo fodástica; Tem que ser, Professor. Lá fora o mundo pode acabar que aqui tem ar condicionado e rock. E vem alive o Pearl Jam do lado de cá do vidro, e a aula sobre multiculturalismo acampa no tempo da cabeça do Professor, o hipocampo desguarnecido que a memória também habita, edita na face do homem-linguagem a lembrança dos alunos querendo nota pra passar de ano esquecendo vírgulas Erínias pústulas de uma mitologia que não se esquece num gosto de sol numa cidade estrangeira, Milton. É música junto com artes visuais, Professor? Sim Henrique, igual no seu celular. Afinal o Grafite é arte ou crime? Silêncio, classe.
Muitos azuis refratam granulados pelo vidro; essa multidão é um homem e lembra do engenho no muro da acrópole pixada com uma vulva em três riscos doces e um ponto numa foto. A consciência é uma voz no mural da história da Arte pelo copy and past do trabalho sobre Basquiat, e o vidro com insulfilme tem um corte do real que não cicatriza nem com chá de aroeira. Olha, daqui a cidade é alta, Professor. É mesmo, Kevin. O professor cogita o logos, reexiste enquanto Kevin fala da Play List; e na rádio-cabeça lembra daquela música, pensa em ligar para A sem saber o que dizer além da saudade de sua voz rouca e do ciúme de sua viagem até Roma. Olha a vista negra de película pro lado direito, o do oceano encantado de saudades de uma outra vida inexistida. Homem alado de cá do mundo.
Descendente do meio-dia a ponte é um In Rainbow de concreto e Kevin dirige rápido e brinca que foi Pinóquio quem disse que seja rico seja pobre o velhinho sempre vem. É dezembro, Kevin rs. O professor puxou a garrafa azul e bebeu um gole dágua com medo que o trânsito na ponte parasse e a angústia no peito da tarde fosse como uma asma no claustro do mundo bom enquanto Kevin contava que conseguiu ir com a namorada no show do Radiohead no Rio:, mas quando chegou lá, uma tal amiga da moça, uma que antes sempre tava sorrindo de repente fechou o tempo na balada, e ele teve que chamar o deixa disso, sair de cena mais pra geral. Eu já não entendo minha mulher agora tenho que não entender as amigas dela também, cara. Silêncio no carro. Na cabeça do professor o inteiro se parte na dor central da história um vão do sentimento fora de si. O ridículo da vida. Todas as coisas faladas para a turma do terceiro ano sobre a Nova Yorque década de 1970 e os recados de SAMO e as bandas de rock e o tempo adicto e a porrada da polícia e a avareza das galerias e a música no início de tudo e o quadril da Madonna e o Jazz de Dizzy Gillespie e o gênio de Miles.. tudo envelhecia no cenho do homem qual fechamento de pautas e a solidão de acreditar que daria tempo.
A verdadeira solidão é a da fé, ela nos modifica o deserto. 100 Km/h: Acreditava que não ficaria preso no trânsito, o tempo avaro chegava ao vão do intervalo das aulas nas férias e lembrava de sua moral e cívica dos homens vitoriosos olhando o mar; ele mesmo fora um dia aluno do primário à pós-graduação num contínuo de moer cérebro organizar o cérebro dividir os lugares das perguntas como são os supostos lugares do cérebro como uma bolsa organizada e o plágio no desejo das pessoas escrevendo dissertações e teses cada vez mais uma deep web de si. Devaneava livre no corpo que voa por sobre o oceano os pelos das pernas por baixo do jeans velho da Levi’s, mais à Mulher que à Musa era um homem duro em seu súbito planalto, e se sentia nos braços tenros de A, e o volteio dos seus pela cintura que a fazia silhueta no vestido de abrir da Cantão, quando ela chegava o rosto perto do seu, e passando as mãos em seu cabelo, um vagar para trás das entradas do tempo de sua calvície de homem comum, e olhava bem em seus olhos, perfume exalado, mais como quem encontrava a mulher que para ele existisse do que quem o procurasse para dirimir o desejo num erro possível de aperceber, classificar. Professor, ali na Praça do Cauê pode estar engarrafado. Segue em frente, Kevin, vou te aplicar uma Play List também, Groove Armada, Massive Attack, Zero 7; Quem? É rock? Também. Então escuta The Cult, uma chamada American Horse. Essa eu conheço, Professor.
Quem sabe um dia uma MPB; hehe isso acabou, Professor rs
Depois do pedágio pago, o calor que aproxima o verão está como aquele filme lá fora, lá, outro lado do vidro o Baile Perfumado com Lenine e guitarra no Cinema Estação há eras, o Cinema de Retomada de Pernambuco, o Guimarães da diplomacia à literatura, o Radamés em sonho com o Guinga encordoado, o Chico maior do mundo e o Caetano genial antes de todos, e o Debussy no caminho de Tom Jobim quis pousar não deu voou, a matéria está dada.. A matéria vem de lá numa viola caipira até o Led Zeppelin e a viola amarantina e o Nelson Cavaquinho submundo do samba, e o ponto final o resumo desse samba em João Gilberto; Enfim Kevin..; Meu irmão também foi pra América, Professor.. o sr dá aula de quê? Tô pensando, pra viver em Vitória a gente tem