05 janeiro 2019

Ponte

201.

“Only our hearts, know how much love is there”
Paul McCartney


Sal que o trânsito nervoso rescende. Suor, pós-meio-dia, no posto Moby Dick com a bolsa cheia de papéis e uma garrafa de alumínio azul na lateral, e as contas molhadas por causa da chuva, as que estavam na mão junto com o livro, e clicando o streaming do Jeff Beck best of beck se lembrava, correndo pro Uber, debaixo da chuva carinho leve, que nunca fumou maconha na universidade. 

O motorista Kevin nome real surfa pela ponte na Play List The Police every break you take em dezembro e a belíssima canção da tarde agora vai descer do meio-dia demônio do eu com o poema do REM quando everybody hurts, no que o professor comenta; Mas Kevin, essa tua playlist tá mesmo fodástica; Tem que ser, Professor. Lá fora o mundo pode acabar que aqui tem ar condicionado e rock. E vem alive o Pearl Jam do lado de cá do vidro, e a aula sobre multiculturalismo acampa no tempo da cabeça do Professor, o hipocampo desguarnecido que a memória também habita, edita na face do homem-linguagem a lembrança dos alunos querendo nota pra passar de ano esquecendo vírgulas Erínias pústulas de uma mitologia que não se esquece num gosto de sol numa cidade estrangeira, Milton. É música junto com artes visuais, Professor? Sim Henrique, igual no seu celular. Afinal o Grafite é arte ou crime? Silêncio, classe.

Muitos azuis refratam granulados pelo vidro; essa multidão é um homem e lembra do engenho no muro da acrópole pixada com uma vulva em três riscos doces e um ponto numa foto. A consciência é uma voz no mural da história da Arte pelo copy and past do trabalho sobre Basquiat, e o vidro com insulfilme tem um corte do real que não cicatriza nem com chá de aroeira. Olha, daqui a cidade é alta, Professor. É mesmo, Kevin. O professor cogita o logos, reexiste enquanto Kevin fala da Play List; e na rádio-cabeça lembra daquela música, pensa em ligar para A sem saber o que dizer além da saudade de sua voz rouca e do ciúme de sua viagem até Roma. Olha a vista negra de película pro lado direito, o do oceano encantado de saudades de uma outra vida inexistida. Homem alado de cá do mundo.

Descendente do meio-dia a ponte é um In Rainbow de concreto e Kevin dirige rápido e brinca que foi Pinóquio quem disse que seja rico seja pobre o velhinho sempre vem. É dezembro, Kevin rs. O professor puxou a garrafa azul e bebeu um gole dágua com medo que o trânsito na ponte parasse e a angústia no peito da tarde fosse como uma asma no claustro do mundo bom enquanto Kevin contava que conseguiu ir com a namorada no show do Radiohead no Rio:, mas quando chegou lá, uma tal amiga da moça, uma que antes sempre tava sorrindo de repente fechou o tempo na balada, e ele teve que chamar o deixa disso, sair de cena mais pra geral. Eu já não entendo minha mulher agora tenho que não entender as amigas dela também, cara. Silêncio no carro. Na cabeça do professor o inteiro se parte na dor central da história um vão do sentimento fora de si. O ridículo da vida. Todas as coisas faladas para a turma do terceiro ano sobre a Nova Yorque década de 1970 e os recados de SAMO e as bandas de rock e o tempo adicto e a porrada da polícia e a avareza das galerias e a música no início de tudo e o quadril da Madonna e o Jazz de Dizzy Gillespie e o gênio de Miles.. tudo envelhecia no cenho do homem qual fechamento de pautas e a solidão de acreditar que daria tempo. 

A verdadeira solidão é a da fé, ela nos modifica o deserto. 100 Km/h: Acreditava que não ficaria preso no trânsito, o tempo avaro chegava ao vão do intervalo das aulas nas férias e lembrava de sua moral e cívica dos homens vitoriosos olhando o mar; ele mesmo fora um dia aluno do primário à pós-graduação num contínuo de moer cérebro organizar o cérebro dividir os lugares das perguntas como são os supostos lugares do cérebro como uma bolsa organizada e o plágio no desejo das pessoas escrevendo dissertações e teses cada vez mais uma deep web de si. Devaneava livre no corpo que voa por sobre o oceano os pelos das pernas por baixo do jeans velho da Levi’s, mais à Mulher que à Musa era um homem duro em seu súbito planalto, e se sentia nos braços tenros de A, e o volteio dos seus pela cintura que a fazia silhueta no vestido de abrir da Cantão, quando ela chegava o rosto perto do seu, e passando as mãos em seu cabelo, um vagar para trás das entradas do tempo de sua calvície de homem comum, e olhava bem em seus olhos, perfume exalado, mais como quem encontrava a mulher que para ele existisse do que quem o procurasse para dirimir o desejo num erro possível de aperceber, classificar. Professor, ali na Praça do Cauê pode estar engarrafado. Segue em frente, Kevin, vou te aplicar uma Play List também, Groove Armada, Massive Attack, Zero 7; Quem? É rock? Também. Então escuta The Cult, uma chamada American Horse. Essa eu conheço, Professor. 

Quem sabe um dia uma MPB; hehe isso acabou, Professor rs 

Depois do pedágio pago, o calor que aproxima o verão está como aquele filme lá fora, lá, outro lado do vidro o Baile Perfumado com Lenine e guitarra no Cinema Estação há eras, o Cinema de Retomada de Pernambuco, o Guimarães da diplomacia à literatura, o Radamés em sonho com o Guinga encordoado, o Chico maior do mundo e o Caetano genial antes de todos, e o Debussy no caminho de Tom Jobim quis pousar não deu voou, a matéria está dada.. A matéria vem de lá numa viola caipira até o Led Zeppelin e a viola amarantina e o Nelson Cavaquinho submundo do samba, e o ponto final o resumo desse samba em João Gilberto; Enfim Kevin..; Meu irmão também foi pra América, Professor.. o sr dá aula de quê? Tô pensando, pra viver em Vitória a gente tem



21 dezembro 2018

Vão central

200.

Pés sobre o piso e o vento na cara; o ar é pó de ferro é pau é pedra e peso uma coisa densa viscosa uma gosma pesada. Os pés quietos apertam comprimem dentro do All Star cinza Converse; vira pro lado sem querer ouvir a dona gorducha reclamar do tempo nublado no buzu, e o vento vista do mar quase de mentira e acima do pavor dos homens o suor gelado de Vanderlei em silêncio pro fundo do oceano pressão baixa e o peito sem ar como uma parada cardiomilitar, é quase vão central da ponte. Vanderlei é claustrofóbico e escuta a conversa das duas moças poltronas da frente cabeletas voando na sua cara de jovem homem quarenta e tantos na cabeça; além da avizinhada senhora que o espreme, simpática maledicente dos tempos; alfazema que se abalroa no ar com o Giovanna Baby de uma das duas personagens Netflix: o Mauro agora não manda mensagem; Ah, não..?; Não, o cheio de estória, acha que é; ...O gostosão..?; Você que tá dizendo por mim pó..; ...Amanda eu tô dizendo o que você...que esse otário gosta de fazer de gostosão. Sem saber quem é Mauro, Vanderlei escuta e o gelo da pressão baixa vira o caos com vista pro mar na solidão pretérita década 90 da Marina compositor Alvin L e uma Copacabana distante Toneleiros com fone de ouvido agora pra distrair da morte quando o ônibus freia com singeleza pausa de semibreve: é o trânsito, na descida, e a queda do diário da tarde martela um prego o sol de dezembro no resto do vento sul; balança o metal contra as nuvens e vem a legião urbana celular altivo da geral no aberto e dona Esperança diz que está atrasada e que não tem como nem espreguiçar a perna com bursite se for o caso de alguém tentar se matar hoje; mas não é isso, Vanderlei arrisca; Acho que já vai andar, foi o Gol 1.0 que.. É só o trânsito; engarrafamente pra si mesmo e muda de refrão no ai-Phone de ouvido Thom Yorque 50 tons, Kid A o caralho é melhor que tentar rádio universitária com algum desses artistas locais, Argh, lá, longe, um navio.. Vanderlei se concentra pra não vomitar letra complicada logo na primeira música como se voasse pássarodasqui desvanecido na gaiola até ser fóbico; gelo, dos braços, e pernas, vem, de lá, até o vão do peito, dela, queimar gasolina na ponte; lá; e seu perfume barato melhor imitação que tem do Boss exala do corte da camiseta Hering negra uma vaidade black tie antiga; o suor da estiva de ser homem no presente, que segundo São Bergson o passado impregna; isso é todo dia. Agora é devagar até o Cauê e achar aplicativo e baixar o Foro que pode, escutar podcast com a notícia que tudo acabou 

16 dezembro 2018

ἀκρόπολις

153.

Completa, a manhã acende e a mudez das nuvens acima da praia vem sobre os homens; uma falta desprega do cúmulo altivo ou sonho, quando o Poema cai granulaheidegger a nuvem distraída pra morte remix, por fim a chuva lava e acelero. Paro no posto pra recarregar encher o saco de ossos enfiar o tempo do oxigênio e os pneus inflam a motoneta com vaidades abissais outra era de poemas quando deslizam pela cidade o seco de borracha Pirelli até gastar na água; na poça o caminho que fica faltando nela.